|
|
|
|
Os riscos do capital de motel |
|
Escrito por Umberto Martins
|
|
03/02/2010 |
Umberto Martins
Os críticos do neoliberalismo costumam classificar de
capital de motel os investimentos estrangeiros de curto prazo aplicados no país,
que entram e saem na economia da noite para o dia sem nenhum compromisso com
o desenvolvimento nacional e em nome de um só interesse: o lucro fácil,
elevado, imediato e se possível sem risco.
O comportamento do mercado de
capitais nos últimos dias revela que este tipo de investimentos (dirigidos
principalmente à especulação na bolsa de valores e com títulos de renda fixa,
especialmente públicos) pode provocar prejuízos à economia nacional e
desequilibrar a balança de pagamentos, a exemplo, aliás, do que já ocorreu em
outras ocasiões do passado, como durante a crise cambial de 1988, quando a taxa
de câmbio (é bom recordar) era fixa e 1 real equivalia a 1 dólar.
Fuga de capitais
Em apenas cinco pregões de
janeiro, do dia 20 ao 27, os investidores estrangeiros retiraram 2,5 bilhões de
dólares da Bolsa de Valores de São Paulo, o que explica em larga medida o
declínio do Ibovespa na última semana e a trajetória do dólar, que fechou
sexta-feira valendo R$ 1,885, pelo nono dia consecutivo de alta. A moeda
imperial acumulou ganho de 6,6% no período.
Os índices traduzem uma fuga de
capitais que embora possa ser considerada como modesta, diante de reservas que
somavam mais de 240 bilhões de dólares no final de semana, é um sinal que deve
causar preocupações, pois a verdade é que infelizmente a economia nacional
ainda não superou a vulnerabilidade e dependência externa.
Afinal, o Brasil precisará atrair
mais de 50 bilhões de dólares em investimentos externos neste ano para zerar o balanço de pagamentos,
dado a perspectiva de agravamento do déficit em conta corrente e a deterioração
da balança comercial. É o resultado natural do gigantesco passivo externo, que cresce
com o ingresso de capitais estrangeiros, demandando uma remuneração crescente,
que hoje se dá principalmente através das remessas de lucros e dividendos.
Essas devem se aproximar dos 40 bilhões de dólares em 2010.
Contradições
A depreciação do real frente ao
dólar é geralmente vista como um bom negócio para a economia, pois tem o dom de
estimular exportações e deprimir importações. Mas, a verdade é que os efeitos
da variação do câmbio são contraditórios. A desvalorização da moeda nacional
afeta os preços das mercadorias. Joga água no moinho da inflação e fornece um
bom pretexto para o nosso Banco Central aumentar ainda mais os juros reais, que
já são hoje os maiores do mundo.
O que, definitivamente, faz mal à
economia nacional é a manutenção de um viés claramente neoliberal na
orientação
macroeconômica, tanto no campo fiscal (com o famigerado superávit
primário, que
subtrai investimentos públicos), quanto monetário (juros altos) e
cambial. O
câmbio flutuante é um luxo caro ao qual o governo já deveria ter
renunciado,
principalmente em períodos de instabilidade monetária internacional,
como o que
estamos vivendo na atualidade em função da fragilidade do padrão dólar,
quando as compras e vendas tendem a se transformar num jogo arriscado e
o comércio exterior num cassino.
O exemplo da China
A China nos dá um exemplo muito
prático e convincente dos benefícios provenientes de um câmbio administrado. O
que impede o Brasil de seguir o exemplo chinês? Ao lado da mudança da política
cambial, é preciso pôr fim ao liberalismo no tratamento concedido ao capital
estrangeiro, e cortar as asas especialmente do capital de motel, que chega e
sai à hora que bem quer, pouco se importando para os impactos desta conduta nas
contas externas do país. É o que também faz a China.
Cumpre ainda taxar e restringir as
remessas de lucros ao exterior patrocinada pelas transnacionais, principal
causa do preocupante crescimento do déficit em conta corrente; reduzir (bem
mais) as taxas de juros na fonte e na ponta, de forma a tornar supérfluo o
superávit primário e potencializar o crescimento do PIB. O que não falta é
gente que se ufana com um crescimento em torno de 5% a.a do PIB. Isto é
compreensível, visto que vivemos mais de 25 anos com a renda per capita estagnada e uma crescimento
bruto do produto pouco superior a 2%. Mas, a verdade é que na corrida do
desenvolvimento isto é pouco. A China
cresce a 9 ou 10%, a Índia cerca de 8% e o próprio Brasil já obteve médias
superiores a 7% no passado. Se não quisermos ficar para trás, é indispensável
maior ousadia e esta começa pela mudança corajosa da política econômica.
Umberto Martins é jornalista e editor do Portal CTB
|
|