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Mesmo
aqueles que não acreditavam – e até os que não queriam – a realização
da conferência, tiveram a oportunidade e a liberdade de defender suas
pautas e a sua lógica durante a Iª Conferência Nacional de Comunicação
(Confecom), que culminou com o encontro em Brasília, de 14 a 17 de
dezembro de 2009.
O grande debate público aconteceu e
permanece ativo, comprovando que a mobilização nacional valeu a pena e,
longe de ter-se esgotado, deverá se multiplicar. De acordo
com a psicóloga Roseli Goffman, representante do Conselho Federal de
Psicologia (CFP) na Coordenação Executiva do Fórum Nacional pela
Democratização da Comunicação (FNDC), a luta continua com militantes
agora mais capacitados.
A questão da
democratização da comunicação no Brasil entra definitivamente na pauta
nacional, após a realização da Conferência Nacional de Comunicação, ou
ainda é um assunto que corre pelas marginais?
Roseli – A
mobilização nacional não para de se expressar na mídia hegemônica,
maniqueísta como sempre, evitando de forma radical a possibilidade de
pensamento. Somente neste domingo, 31 de janeiro de 2010, o Jornal O
Globo, do Rio de Janeiro, pautou a Confecom em dois editoriais, e na
segunda feira reproduziu o editorial do jornal O Estado de São Paulo,
atacando o processo de Conferências e a criação de Conselhos
comprometidos com a fala popular.
Os ataques partem sempre dos
setores conservadores e seus arautos, defensores incansáveis da
manutenção do status quo das elites brasileiras. É preciso relembrarmos
sempre as alianças que levam nossos políticos ao poder, de forma a
identificar com clareza os princípios e as táticas que são utilizadas.
O
silêncio tácito sobre a Comunicação após a Constituição Federal de
1988, o limbo a que foram relegados os Movimentos pela Democratização
da Comunicação – que só na Lei do Cabo, nos anos 90, puderam voltar ao
debate público – reforçam a necessidade de se construir urgentemente um
novo marco histórico, que mostrou seu vigor na Confecom.
Num
momento em que nosso país caminha na direção de melhores possibilidades
econômicas, com reconhecimento internacional, temos como tarefa
imediata a diminuição das diferenças sociais.
Neste objetivo,
não é possível compartimentar as ações das áreas de Comunicação,
Cultura e Educação, que estão imbricadas no processo de distribuição de
informação de forma igualitária, e é preciso fazer frente ao desafio
que representa a questão da Educação no Brasil.
Se todas essas
políticas públicas se alinharem em busca de uma melhoria na Educação,
estaremos desenvolvendo e estimulando o pensamento, a participação e a
expressão. Não pode ser negado o papel relevante das Conferências como
distribuidoras de informação, educação e cultura.
Como os profissionais da Psicologia foram envolvidos pela Conferência Nacional de Comunicação?
Roseli – Em
2007, foi realizado pelo CFP e o Sistema Conselhos o seminário Mídia e
Psicologia no Rio de Janeiro, aonde tivemos a oportunidade de expandir
e divulgar, através de uma publicação também denominada Mídia e
Psicologia a luta pela Democratização da Comunicação.
Após este
evento, constituímos o Coletivo de Comunicação do CFP e do Sistema
Conselhos, e realizamos dezenas de atividades de mobilização, sempre na
importante parceria com o FNDC e com a Campanha Ética na TV.
Tivemos
também um importante encontro de capacitação para a Confecom em julho
de 2009, que deu origem também a uma segunda publicação, denominada
“Contribuições da Psicologia para a 1ª Conferência Nacional de
Comunicação”.
Também utilizamos um site específico para a pauta da Comunicação (http://comunicacao.pol.org.br/),
aonde se encontram as nossas teses e as publicações mencionadas. Os
vídeos usados para a mobilização da categoria no processo da Confecom
estão disponíveis no canal do CFP no youtube (http://www.youtube.com/user/confederalpsicologia#g/u).
As
questões levantadas pela Psicologia foram bem encaminhadas nos debates
da Confecom? Como o CFP pretende acompanhar o prosseguimento das
demandas?
Roseli – A Psicologia esteve presente na 1ª
Conferência Nacional de Comunicação (Confecom) pautando discussões e
apresentando propostas. A categoria foi representada por 30 delegados,
que se dividiram entre os Grupos de Trabalho que tinham temas
relacionados às propostas da Psicologia para a Conferência.
Os
profissionais da Psicologia contribuíram com os debates ao levar
subsídios da área para as questões que estavam em pauta, mostrando que
temos amadurecido no processo de discussão de políticas públicas.
O
Conselho Federal de Psicologia e os Conselhos Regionais lutam
continuamente pelo controle social da mídia, que acreditamos ser
instrumento essencial para a promoção de uma comunicação democrática no
Brasil.
A posição da Psicologia em relação ao debate sobre
comunicação destaca as consequências para a população, da concentração
da propriedade dos meios de comunicação em poucas empresas,
determinantes na formação de subjetividades de grande parte das
famílias brasileiras.
Das cinco teses propostas pelo CFP e Sistema Conselhos foram sistematizadas e aprovadas as seguintes:
1- Fim da publicidade dirigida às crianças,
2- Criação de um Conselho Nacional de Comunicação tripartite no âmbito do Executivo;
3- Obediência aos critérios de controle sobre Publicidade de Bebidas Alcoólicas;
4- Obediência aos critérios de controle sobre utilização da imagem das mulheres, homens, crianças, adolescentes, etc.
5- Ampliação da Classificação Indicativa para a TV por assinatura.
O
CFP continuará formulando em articulação com seu Coletivo de
Comunicação que está presente nos 18 Conselhos Regionais de Psicologia,
cobrindo as 27 unidades da Federação, aonde expandiremos e
continuaremos com o debate, capacitando os Psicólogos para a
interferência necessária nos conteúdos midiáticos, em busca da
afirmação da regionalidade e da produção de subjetividades
diversificadas, sempre na luta pelo “não aos estereótipos” em todas as
suas formas.
Qual a avaliação do CFP sobre o processo de
construção da Confecom e o diálogo entre os três setores que lá
estiveram representados (sociedade civil, sociedade civil empresarial e
poder público)?
Roseli – Mesmo dentro
de um critério de correlação de forças entre os representantes das
mídias privadas e os militantes pelo Movimento pela Democratização da
Comunicação, das cerca de 6 mil teses encaminhadas pelas Conferências
Estaduais de Comunicação, realizadas ao longo de 2009 em 27 unidades da
Federação, mobilizando mais de 30 mil pessoas, a 1ª Confecom, realizada
em Brasília, de 14 e 17 de dezembro de 2009, sistematizou 1.418 teses
para o debate, aprovando 654, entre as quais, 601 por maioria absoluta,
em surpreendente consenso alcançado entre empresariado, governo e
movimentos sociais.
Como você avalia a cobertura da mídia sobre a Confecom?
Roseli – A
Confecom foi boicotada pela grande mídia. A cobertura da Conferência
ficou por conta da NBR – televisão estatal – e dos veículos de
comunicação pública da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), como a TV
Brasil, Agência Brasil, a Rádio Nacional e outras emissoras de rádio. A
Confecom ganhou espaço em blogs e rádios comunitárias, utilizando a
internet como meio de divulgação e debate das notícias sobre a
Conferência.
Quais os reflexos já percebidos do grande debate sobre a comunicação no Brasil após a Confecom?
Roseli –
Como sintoma do complexo processo de democratização da comunicação
social no Brasil, temos acompanhado as ações que vem sendo realizadas,
em especial pela Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e
Televisão (Abert) e a Associação Nacional de Jornais (ANJ), que visam
desqualificar os avanços obtidos nesta Confecom.
As seis
representações empresariais que saíram da Confecom, capitaneadas pela
Abert e ANJ, não conseguiram impedir a permanência neste debate –
amplamente democrático – a Associação Brasileira de Telecomunicações
(Telebrasil) e a Associação Brasileira de Radiodifusores (Abra), que
representam cerca de 85% do capital econômico da Comunicação de Massa
no Brasil de hoje.
A imprensa televisionada, os editoriais
jornalísticos que representam interesses privados, assim como o Conar –
que se mantém como entidade de controle da publicidade financiada pelos
anunciantes – usam do mesmo escudo protetor de sempre, com a velha
cantilena de que controle democrático seria uma forma de censura.
Atacam, incansavelmente, os avanços obtidos, desta feita através da
histérica crítica ao Plano Nacional de Direitos Humanos-3 (PNDH3), que
de uma proposta de plano de ação é desqualificado como sendo um
“ataque” à Carta Magna brasileira.
Juntam-se, neste pleito, as
demais forças conservadoras, garantindo seu território soberano,
afirmando um sonoro não ao aborto; não à verdade sobre a tortura; não à
conciliação entre partes na ocupação da terra; fazendo-nos presenciar
um novo coro midiático, como nos idos anos 60 assistimos à Marcha pela
Tradição, Família e Propriedade.
Ora, sabemos que Planos de Ação
ou mesmo decretos do Executivo demandam a construção de alianças
políticas no Congresso Nacional para serem implementados. A
maledicência, os erros propositais de interpretação têm como alvo a
opinião pública, que elege os deputados responsáveis pelos projetos e
apenas – somente apenas – em absoluta maioria seriam capazes de aprovar
as emendas constitucionais.
As forças conservadoras tecem seu
plano de rejeição às pautas democráticas, tão vigorosamente
demonstradas por um governo que está na 1ª Conferencia, pautando os
anseios da população engajada através dos movimentos sociais e demais
representações da sociedade civil brasileira.
Confunde-se, assim,
através de uma mídia hegemônica e extremamente tendenciosa em defesa de
seus interesses, a democracia participativa com a censura, procurando
respaldar os apoios políticos de uma elite conservadora através da
construção do medo do autoritarismo no imaginário social, misturando
intencionalmente liberdade de expressão popular com censura.
É
preciso ressaltar que a concentração de propriedade dos meios de
comunicação no Brasil quer cooptar como apenas seu o discurso da
Liberdade de Expressão, fazendo do legítimo direito inalienável que o
constitui, um direito de caráter privado, separando-o estrategicamente
do direito de resposta e do direito à voz que todos temos em nossa
existência. É apenas mais um simulacro da “Sociedade do Espetáculo”,
que em nome da democracia, quer calar o protagonismo do povo brasileiro.
Quais devem ser as bases para um novo marco regulatório da comunicação brasileira?
Roseli – Ao
longo dos últimos 20 anos, nosso país acompanhou as mudanças
tecnológicas que transformaram a sociedade em todo o mundo. É preciso
que o novo marco regulatório seja a construção pactuada
democraticamente, de instrumentos regulatórios e políticas públicas que
estendam a todos os brasileiros os benefícios da era da informação.
Deve
ser contemplada a garantia de direitos coletivos que, na diversidade de
sujeitos, confiram às comunicações a necessária dimensão humanizadora e
a plena liberdade de expressão.
É necessário o imediato
equilíbrio de sistemas de radiodifusão nas dimensões estatais, pública
e privadas, preconizados no artigo 223 do Capítulo V da Constituição
Federal.
É preciso que sejam estabelecidas as diretrizes para o uso
dos recursos financeiros acumulados pelo estado brasileiro para o
fomento, a sustentação e a acessibilidade com a consequente
universalização dos meios de comunicação.
Como você avalia a participação do FNDC na Confecom?
Roseli –
Lembramos que muitos dos que não acreditavam na Conferência tripartite
tiveram a liberdade de defender suas pautas e a sua lógica, quer do
movimento social, quer dos representantes das Empresas, e numa
sociedade legitimamente democrática, todos devem ter a oportunidade de
expressar suas convicções, ainda que seus pleitos fracassem.
O
FNDC, em seu 18º ano de existência, deu provas cabais da maturidade
alcançada no processo da Democracia Participativa, não deixando em
nenhum momento que fosse reprimida e amordaçada a participação popular
alcançada com muito esforço de todos os movimentos pela democratização
da comunicação.
O FNDC alinhou-se com movimentos sociais,
confederações de trabalhadores e não recuou em nenhum momento diante de
propostas de quorum que tinham como claro propósito o adiamento e a
derrocada da participação popular na Conferência.
Esta posição,
atacada, inclusive em diversos momentos por nossos próprios aliados,
mostrou-se adequada pela qualidade das 654 propostas aprovadas pela
Confecom, que serão decisivas na implementação das políticas
necessárias para uma Comunicação no Brasil, que poderá, finalmente,
ingressar no século XXI.
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