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Cartões querem acabar com o parcelamento sem juros

Cada vez mais ávidas por lucros, as  empresas que administram cartões de crédito iniciaram uma ofensiva para tentar, aos poucos, asfixiar uma das mais populares formas de crédito no país: a compra parcelada sem juros no cartão.

O objetivo, segundo as empresas de cartões, é criar uma alternativa que distribua melhor os custos da inadimplência com outros participantes do mercado, como bancos e os próprios lojistas.

Hoje, as lojas aceitam que o consumidor parcele a compra no cartão de crédito e recebem das administradoras, que ficam com o risco de inadimplência, ou seja, do consumidor não pagar a fatura.

Ainda não há um modelo de a nova modalidade de crédito funcionaria. Mas o objetivo, diz a Abecs (associação da empresas de cartões de crédito), não é eliminar totalmente o parcelado sem juros.

O IDV (Instituto para o Desenvolvimento do Varejo), que participou de reuniões envolvendo a Abecs e o Banco Central para discutir as mudanças, confirma que foi apresentada uma alternativa ao parcelamento sem taxas, mas sem a intenção de acabar com a modalidade mais popular do comércio.

A proposta seria uma espécie de crediário em que seria possível parcelar as compras e que o lojista passasse a receber o pagamento em cinco dias.

Contra

Para representantes do varejo, a alteração pode prejudicar o setor. "Achamos que simplesmente eliminar o parcelado sem juros pode trazer reflexos no consumo, tornar mais caro o crédito ao consumidor. A economia está melhorando, não podemos ter medidas que possam onerar o consumo", diz Jorge Gonçalves, conselheiro do IDV.

Além disso, afirma, mudar o sistema seria complexo, porque haveria reflexos para a bandeira do cartão, para o emissor, e para o varejista.

"O dinheiro vem do varejo. O cartão analisa o crédito e garante o recebimento dos lojistas, mas a gente entende que o custo do dinheiro que financia o cliente é do próprio cliente", afirma.

A Abipag, que representa as instituições de pagamento, estima que uma alteração do tipo na estrutura do sistema pode ter impacto de até R$ 90 bilhões, medido pela redução do consumo.

O cálculo considera que os consumidores deixarão de consumir para quitar os juros do crediário. Para Augusto Lins, presidente da associação, o parcelamento sem juros é a melhor forma de estimular o consumo.

Polêmico

O conceito de parcelamento sem juros gera controvérsia. Especialistas dizem que, na verdade, não há essa figura de concessão de crédito sem a cobrança de uma taxa.

"Foi uma evolução do cheque pré-datado. O que acontece é o uso de um 'apelo psicológico' para que o consumidor pense que não está pagando os juros", afirma César Caselani, professor de finanças da FGV (Fundação Getulio Vargas).

Juliana Inhasz, do Insper, tem avaliação parecida. "É muito mais um artifício para conseguir aumentar a venda e convencer as pessoas de concretizar a compra do que efetivamente uma verdade", diz. "Esse juro está embutido e, quando tem negociação para pagamento à vista, costuma haver um desconto."

A modalidade acaba ajudando no fluxo de caixa dos lojistas, diz Inhasz. "Como eles negociam prazos de pagamento conforme compram, vender a prazo não é ruim. Garantem a venda e o fluxo para pagar fornecedor nos outros meses", afirma.

Mas a mudança pode ter efeito positivo para o consumidor, avalia Caselani, da FGV. "Se foi implantada, é preciso ficar clara a diferença entre o valor a vista e parcelado. Seria ótimo para educação financeira."

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