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CUT-24 anos: a incorporação da CSC à central


A incorporação da Corrente Sindical Classista (CSC) à CUT ocorreu num momento em que o país se deparou com uma encruzilhada histórica. Os velhos elementos que ao longo do tempo marcaram a divisão do país entre progressistas e conservadores voltaram a se manifestar com força na Assembléia Nacional Constituinte de 1988. E isso refletiu no meio sindical, provocando alterações na forma de atuar da CUT e da CGT.


No dia 1º de março de 1986, o governo do presidente José Sarney anunciou o “Plano Cruzado”. A moeda que substituiu o cruzeiro, o cruzado, perdeu três zeros. Outras medidas foram o congelamento dos preços e dos salários por um ano, e o chamado ''gatilho salarial'' — toda vez que a inflação atingisse ou ultrapassasse 20%, os assalariados teriam um reajuste automático no mesmo valor, mais as diferenças negociadas nos acordos coletivos. O “Plano Cruzado” extinguiu a correção monetária e criou o Índice de Preços ao Consumidor (IPC) para corrigir a poupança e as aplicações financeiras superiores a um ano.


Os efeitos das mudanças foram a contenção da inflação e o aumento do poder aquisitivo da população. Um clima de euforia tomou conta do país — milhares de pessoas passaram a vigiar os preços no comércio e a denunciar as remarcações. Eram os ''fiscais do Sarney''. O consumo cresceu em todos os extratos sociais. Quatro meses depois, o “Plano Cruzado” começou a fazer água. As mercadorias desaparecem das prateleiras dos supermercados, os fornecedores passaram a cobrar ágio e a inflação voltou a subir. Diante da crise, o governo lançou o “Plano Cruzado II”.


Representação sindical unitária 
Esse descontrole da economia levou as centrais sindicais — CUT e CGT — a convocar uma greve geral para o dia 20 de agosto de 1987. A essa altura, o governo já havia editado um novo pacote, conhecido como “Plano Bresser” — uma alusão ao seu principal autor, o então ministro da Fazenda, Luiz Carlos Bresser Pereira —, que representava mais uma investida contra os direitos dos trabalhadores. Dali em diante, o país mergulharia numa fase de duras disputas entre os campos progressista e conservador. Era uma encruzilhada histórica. E o país tomoria o rumo da direita.


Já em 1987, mais de 10 milhões de trabalhadores realizaram greves. No campo, a repressão provocou choques violentos. Nas cidades, a luta por moradia também foi intensa. E os estudantes foram às ruas para impedir aumentos das taxas escolares. Enquanto isso, a CUT e a CGT disputavam a preferência dos trabalhadores — mas ambas apresentavam sérias deficiências. A primeira filiou um maior número de sindicatos, proclamava-se independente e classista, mas na prática era uma central partidarizada e sectária. A segunda, que pregava a reunificação do movimento sindical, com o passar do tempo foi tomada de assalto pelo sindicalismo de direita.


A evolução do quadro político, muito bem retratada pelas memoráveis batalhas entre conservadores e progressistas na Assembléia Nacional Constituinte de 1988, no entanto, provou profundas alterações na forma de atuação das duas centrais sindicais. Na CUT, a postura inicial de desprezo pela unidade foi atenuada. Já no seu 3º congresso, realizado em setembro de 1988, a central se posicionou a favor da necessidade de superar o desafio de se transformar numa representação sindical unitária, democrática e pluralista. Na CGT, surgiu o conceito de “sindicalismo de resultados”, apoiado no gangsterismo. Iniciava-se uma nova fase do sindicalismo brasileiro, com o surgimento de outras centrais sindicais. Mas a CUT firmava-se como a principal central brasileira.


Fechamento de espaço para o peleguismo

Entre as duas principais centrais sindicais, surgiu a Corrente Sindical Classista (CSC), estruturada por sindicalistas que atuavam na CGT. Em congresso realizado entre os dias 9 e 11 de março de 1990, no Rio de Janeiro, com a participação de 2.105 delegados representado 584 sindicatos, a CSC decidiu ingressar na CUT. A incorporação dessa corrente aumentou a representatividade da central, realçando um perfil mais pluralista e reforçando a vinculação entre luta econômica e luta política. O resultado desse rearranjo logo se fez presente.


Já em março de 1989, os trabalhadores brasileiros fizeram uma greve geral histórica — contra o “Plano Verão”, mais uma iniciativa do governo para tentar conter a crise econômica. Outro efeito da incorporação da CSC à CUT foi o fechamento de espaços para o peleguismo, que avançava com força impulsionado pelo rumo direitista que se esboçava no país. A CUT e a CSC viam esse cenário com preocupação. Por isso, aceleraram a unificação orgânica das duas organizações.


Depois de uma longa espera de 29 anos, o povo brasileiro elegeu o presidente do país no dia 15 de novembro de 1989. A vida política contava com um poderoso movimento de caráter popular, liderado pela coligação PT-PSB-PCdoB — a Frente Brasil Popular —, que lançara o ex-dirigente sindical Luiz Inácio Lula da Silva à Presidência da República. No segundo turno, a campanha de Collor contra Lula, difundida pelos habituais métodos fascistas da ''grande imprensa'' — uma mentira mil vezes repetida se torna verdade —, foi fértil em práticas rasteiras que combinavam calúnias, preconceitos sociais e intimidações.


Clima sombrio toma conta do país

A sordidez da direita contra Lula foi bem sintetizada nos ''comentários'' do conhecido jornalista Paulo Francis, que chegou ao abuso de chamar o candidato da Frente Brasil Popular de ''ralé'', ''besta quadrada''. Ele disse, em plena tela da TV Globo, que se a esquerda chegasse ao poder o país viraria uma ''grande bosta''. Lula foi identificado como “trânsfuga do comunismo”, a quem a queda do Muro de Berlin teria transformado em “vanguarda do atraso”. Collor acusou o candidato da Frente Brasil Popular de desejar seqüestrar ativos financeiros de particulares (que era o que ele mesmo faria no início do seu governo).


Os conservadores não economizaram sordidez. Até uma antiga namorada de Lula, com a qual ele tinha uma filha, surgiu na propaganda de Collor na televisão para acusar o ex-namorado de ''racista'' e de ter-lhe proposto abortar a filha. Às vésperas da eleição, um resumo do debate final entre ambos foi editado pela TV Globo de forma a favorecer Collor (fato este admitido mais tarde por várias memórias de participantes do evento). A eleição comportou ainda a manipulação política do seqüestro do empresário do setor de supermercados, Abílio Diniz, que, ao ser libertado de seu cativeiro no dia da eleição, apareceu vestindo uma camiseta do PT. O resultado desse jogo desleal só poderia ser a vitória de Collor.


Magri no Ministério do Trabalho

Enquanto Collor, se preparando para tomar posse, passeava por boates e restaurantes de luxo em Paris, a inflação disparava. Um clima sombrio tomou conta do país. Logo que chegou, o presidente anunciou o seu ministro do Trabalho e Previdência Social: o sindicalista Antônio Rogério Magri. Ele e o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo, Luiz Antônio Medeiros, lideraram um processo de domínio dos setores direitistas do sindicalismo sobre a CGT, inviabilizando a presença de outras correntes na central — entre elas a CSC. Em sua primeira entrevista como ministro, Magri anunciou que não pretendia mudar a lei salarial — uma aberração que não cobria sequer as perdas decorrentes da inflação —, afirmou que nada entendia de previdência social e vociferou contra as “greves políticas”.


Collor assumiu distribuindo ameaças e tomando medidas desastrosas. Com sua retórica estridente e seus gestos espalhafatosos, pôs as estatais na linha de frente dos ataques. O presidente anunciou a criação de um “superministério” para encaminhar as privatizações e designou para o seu comando o coronel Ozires Silva, ex-presidente da Empresa Brasileira de Aeronáutica (Embraer) — mais uma das estatais bem-sucedidas — e umbilicalmente ligado à ditadura militar. Assim que foi indicado, o superministro disse que nem a Petrobrás escaparia do seu projeto.


Quando Collor assumiu, começaram a ressoar pelo país campanhas publicitárias para vender as privatizações. A mensagem poderia ser sintetizada nas seguintes idéias: transferir ao setor privado as atividades produtivas em que indevidamente o Estado se metera e deixar a cargo do ''mercado'' as atividades regulatórias. O Estado deveria assumir a sua verdadeira vocação, o assim chamado ''setor social''. Nas imagens da publicidade televisiva, o Estado seria um paquiderme balofo e abobalhado, que precisava ser submetido a regime de emagrecimento e ginástica para voltar esbelto, faceiro, e cuidar das crianças e dos idosos.


A armadilha de Zélia Cardoso de Melo

Mas o pior foi o pacote que o presidente lançou sobre o país menos de 24 horas após ser empossado — um catatau de 200 páginas apresentado com grande alarde promocional e sob o slogan “Brasil Novo”. Além do confisco do dinheiro da população, o pacote atingia duramente os salários. Era o chamado “tiro único” do presidente “no tigre da inflação”. Ruim de pontaria, Collor errou o tiro e tocou fogo na floresta.


Diante do fogaréu que se alastrava, a CUT convocou um “Dia Nacional de Greves e Protestos” para 12 de junho de 1990, uma iniciativa que ganhou adesão até de setores das CGTs (outro grupo deixara a CGT tomada de assalto por Magri e Medeiros para fundar mais uma CGT, a Confederação Geral dos Trabalhadores). Diante do crescente descontentamento dos trabalhadores com o rumo da economia, a ministra da Fazenda de Collor, Zélia Cardoso de Melo, e o ministro da Justiça, Bernardo Cabral, propuseram um “entendimento nacional”. Era uma armadilha. E a CUT quase foi pega na emboscada. Falo do assunto na próxima coluna.

*Osvaldo Bertolino
, Jornalista
Fonte: www.vermelho.org.br

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