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CUT-24 anos: a maior crise da central


Num momento em que a CUT se esforçava para mostrar sua face “moderada” e vivia uma crise de direção, a direita desferiu um violento golpe com as manobras para criar uma CPI destinada a apurar “denúncias” contra a central. No meio da tempestade, um dirigente sindical cutista foi assassinado — fato que potencializou a onda de ataques ao candidato à Presidência da República Luis Inácio Lula da Silva.

Quando Fernando Henrique Cardoso (FHC) assumiu o comando do projeto neoliberal, a CUT vivia a sua pior crise. As divergências começaram no 4º Congresso, realizado em 1991, quando ocorreu uma acirrada disputa pela direção da central. Houve denúncias de redução arbitrária das delegações dos Estados de Minas Gerais e da Bahia, mas o fator principal da crise eram as visões diferentes sobre a participação da CUT no “entendimento nacional” proposto pelo governo Collor. O clima de tensão se refletiu na formação de dois blocos que disputaram o comando da central. A força majoritária, a Articulação Sindical, conseguiu aprovar suas propostas em votações apertadas e garantiu uma maioria precária na nova direção (13, em 25 dirigentes).  

A disputa logo se manifestaria dentro da própria Articulação Sindical, com a precipitação de Gilmar Carneiro (então presidente do Sindicato dos Bancários de São Paulo) e de Vicente Paulo da Silva, o Vicentinho (então presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC paulista), na disputa sucessória de Jair Meneguelli, o presidente da CUT desde a sua fundação. Isso muito antes do 5º Congresso da central, que se realizaria em 1994. Ao mesmo tempo, a Articulação Sindical defendia a ampliação da participação dos trabalhadores nas diretrizes de governos, parlamentos e “elites empresariais” por meio das Câmaras Setoriais. 
 

A nota oficial sobre a CPI da CUT
Com a aproximação das eleições presidenciais de 1994, no entanto, a CUT logo sentiria o peso do jogo sujo que mais uma vez a direita promoveria para impedir a chegada de Lula à presidência da República. O presidente do PPR (partido sucessor do PDS e da Arena, organizações originárias da ditadura militar), senador Espiridião Amim (SC), disse à Rede Globo de Televisão que dispunha de documentos acusando parlamentares do PT e Lula — então o favorito disparado à Presidência da República — de utilizar a máquina dos sindicatos filiados à CUT para se eleger. Espiridião Amim afirmou que entregaria um dossiê com essas e outras denúncias a uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que seria instalada para investigar as contas da central.  

Em nota oficial, a CUT disse que nada devia e que por isso não temia a CPI. Segundo o documento, a central havia entregue ao presidente do Congresso Nacional, senador Humberto Lucena (PMDB-PB), seus livros contábeis, seus balanços anuais e seus extratos de movimentação bancária. A nota dizia ainda que as manobras para forçar a instalação da CPI feriam as normas constitucionais, que exigiam a existência de “fato determinado” que não existia. Para a CUT, a direita estava estabelecendo a política do vale tudo, abrindo um grave e perigoso precedente para a democracia.
 

Coisas estranhas estavam prestes a acontecer
Havia razões de sobra para essa afirmação. Uma delas era a tentativa de estabelecer um prazo de 180 dias para a apuração das denúncias, não 45 dias como era habitual. A manobra eleitoreira era escandalosa. Em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo no dia 19 de novembro de 1993, Espiridião Amin disse que não havia pressa para a instalação da CPI. “Quanto mais próximo da eleição, melhor”, afirmou. O PPR estava mergulhado em escândalos — como o dos anões do Orçamento e o “caixa dois” da campanha de Paulo Maluf a governador de São Paulo, conhecido como “caso Pau Brasil”. “A CUT não tem medo da CPI porque acredita que ainda é possível fazer política, defender a democracia e os interesses dos trabalhadores sem os velhos costumes acima mencionados”, finalizava a nota da central. 

Mas coisas muito mais estranhas estavam prestes a acontecer. No dia 6 de janeiro de 1994, coincidentemente em meio a essa onda de ataques à CUT, o presidente do Sindicato dos Condutores Rodoviários do ABC Paulista, Oswaldo Cruz Júnior, foi assassinado. A procuradora da República Janice Agostinho Barreto Assari mandou apurar acusações de que parte da receita do sindicato teria sido desviada para financiar campanhas do PT. Uma montanha de versões, acusações e investigações desabou sobre a central. A histeria tomou alguns veículos da ''grande imprensa'', notadamente a Rede Globo de Televisão. Os quatro tiros contra Oswaldo Cruz Júnior foram transformados em plataforma anti-Lula.
 

O delegado Nelson Silveira Guimarães
As insinuações de que o crime poderia ter o dedo da CUT, seria ''queima de arquivo'' ou teria um mandante entre os quadros do PT foram minuciosamente detalhadas pela Rede Globo de Televisão, viessem de quem viessem. Valeu tudo para atingir Lula. A direita exibia o mesmo baixo nível de 1989, quando a discussão de idéias e propostas cedeu lugar à pura difamação e a expedientes sórdidos. Para a direita, a forçada motivação política para o crime tornou-se, antes mesmo de iniciadas as investigações, como que uma verdade inquestionável.  

O delegado Nelson Silveira Guimarães, convocado para assumir as investigações, era o mesmo que em dezembro de 1989, na véspera das eleições em que Collor derrotou Lula, ajudou a negociar a rendição dos seqüestradores do empresário Abílio Diniz — que foram apresentados à “grande imprensa” vestidos com camisetas do PT. (Em entrevista à Folha de S. Paulo, o delegado disse que em 1989 foi convidado para uma ''armação'' no final do tal seqüestro e não concordou com ela.) Segundo conclusão do inquérito, no entanto, o assassinato de Oswaldo Cruz Júnior não teve nenhuma conotação política. Mas o favoritismo da candidatura de FHC à Presidência da República estava consolidado. E a farsa da CPI da CUT parou ali.
 

Vicentinho concorre com chapa única
Em meio a essa tempestade, a centarl se afundava na defensiva. A CUT estava ausente de grandes batalhas nacionais — como a luta contra as privatizações e a natureza da política econômica neoliberal. Mesmo a campanha ideológica contra o socialismo — que aproveitava o vácuo da crise que derrubou o bloco soviético para atacar Cuba com virulência — mereceu resposta contundente da central. Era esse o clima quando a CUT realizou o seu 5º Congresso, em maio de 1994, com o lema: “Dignidade para quem faz o país.”  

Gilmar Carneiro já estava fora da disputa pela presidência da central e Vicentinho concorreu com chapa única. As polêmicas ficaram subordinadas à necessidade de unidade naquele momento crucial. O espírito unitário predominou na maioria das resoluções. A CUT matinha o seu posto de principal central sindical do país. Segundo levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE), existiam no país 7.460 sindicatos e 30% deles estavam filiados à CUT. 
 

Elogios de Vicentinho a Paulo de Tarso Piva
No dia 1º de maio de 1995, logo após a posse do novo governo, o ministro do Trabalho, Paulo de Tarso Paiva, provocou uma tempestade ao defender, na sede da central Força Sindical, em São Paulo, a retirada de direitos da CLT e da Constituição para se tornarem ''disponíveis para negociação''. Até o então presidente da Força Sindical, Luiz Antônio Medeiros, reagiu. ''O ministro foi, no mínimo, inoportuno'', disse ele. O porta-voz da Presidência, Sérgio Amaral, anunciou que ''o governo jamais cogitara de retirar da Constituição os sagrados direitos dos trabalhadores''.  

Diante do revés, Paulo de Tarso Paiva mudou de tática e tentou levar alguns dirigentes sindicais para o caminho de Damasco. Depois de uma conversa com o ministro, o novo presidente da CUT, Vicentinho, declarou: ''Por mais polêmicas que sejam suas idéias, a maneira simpática como ele as coloca cria as condições para uma conversa.'' O ministro de fala mansa e costas quentes não resistiu às pressões e logo caiu. 
 

Quartel-general da CUT em Brasília
Mas a marcha do governo em direção às privatizações e à redução das conquistas democráticas contidas na Constituição de 1988 continuou acelerada. Para a direita, FHC fez bonito em seus primeiros dias como presidente da República. Até as ruínas de Collor se ergueram para elogiar o novo chefe do projeto neoliberal. “A capacidade dele de evoluir muito em tão pouco tempo me fez admirá-lo. Há uma absoluta coerência das medidas dele com o que foi preconizado pelo meu governo, como as privatizações e as reformas — que teriam sido realizadas caso não houvesse o impeachment”, disse o ex-presidente. 

Na outra margem do rio, os trabalhadores tentavam se organizar para enfrentar a crise. A CUT, pressionada pelos acontecimentos, montou um quartel-general em Brasília, com campanhas no rádio e na TV e uma equipe de 30 funcionários, para fazer o corpo-a-corpo com os parlamentares e tentar impedir a aprovação das medidas anti-trabalhistas anunciadas por FHC. No dia 5 de abril de 1995, houve manifestações em todo o país contra as “reformas” constitucionais. 
 

A aposentadoria de Reinold Stepahnes
O governo havia editado mais um pacote de medidas para escorar o “Plano Real” e descarregar mais um pouco do peso da crise nas costas dos trabalhadores. “O governo precisa conter o crescimento econômico para evitar a pressão inflacionária”, disse o ministro do Planejamento, José Serra. A Previdência Social já era o principal alvo. No dia 5 de abril de 1995, a CUT promoveu mais uma manifestação. Reagindo às críticas da oposição, FHC disse: “Vamos calar a boca de gente que pega papel e não sabe o que está escrito nele. O povo não é bobo. Bobo são eles (sindicalistas). E quem nasce bobo morre bobo.”  

O ministro da Previdência, Reinold Stepahnes, afirmou que aceitaria uma audiência nas contas da Previdência, “desde que seja feita por alfabetizados, e não pelas lideranças da CUT”. Acusado de ter se aposentado com apenas 22 anos de serviços, o ministro se saiu com essa: “Temos que discutir o futuro do país como um todo e não casos isolados.” No dia 27 do mesmo mês, outra manifestação convocada pela CUT protestou contra a “reforma” da Previdência. O clima de confronto tomou conta do país. Mas logo a central retomaria a postura defensiva — assunto da próxima coluna.

*Osvaldo Bertolino, JornalistaFonte: www.vermelho.org.br

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