Reflexões sobre o Encontro Sindical de Nuestra América
Foi, efetivamente, transcendente o Encontro Sindical de "Nuestra América" celebrado em Quito, Equador, de 5 a 7 de maio. Ele merece este qualificativo não só pela sua origem mas também pelos estimulantes resultados que alcançou.
Ao avaliar a situação sindical em nossa região, um grupo de organizações sindicais, participantes do Congresso de Fundação da Central de Trabalhadoras e Trabalhadores do Brasil (CTB), reunidos em Belo Horizonte, decidiram convocar este evento em Quito, sob os auspícios da Confederação de Trabalhadores do Equador (CTE).
Dezenas de organizações se somaram à convocatória. Uma das suas características originais foi, portanto, o impulso a partir das bases.
O convite ao evento estava despido de intenções discriminatórias; oferecia a oportunidade de debater, propor, acordar e atuar, sem condicionamento a outros interesses exceto os dos trabalhadores, desempregados, excluídos e explorados de nossa região, sem submissão a relações hierárquicas, sem pretensões individuais de manipulação ou liderança e em condições de verdadeira igualdade. Estas e outras características proporcionaram o apoio de dezenas de organizações sindicais.
A Federação Sindical Mundial na América apoiou imediatamente a iniciativa, consciente de que os participantes seriam protagonistas de um acontecimento excepcional, que permitiria desenhar cenários e atuar com vistas a organizar e fortalecer o poder dos trabalhadores e de seus sindicatos.
O que aconteceu em Quito?
As expectativas foram suplantadas pela realidade.
Apesar da diversidade de filiações, e respeitando a todas elas, prevaleceu a consciência da urgência da unidade. Em um clima de exemplar democracia, não se deliberou nada que não contasse com consenso absoluto.
Nenhuma opinião deixou de ser não só escutada mas valorizada, o que emprestou uma extraordinária força aos acordos adotados.
Na condução do debate, lúcidas exposições de reconhecidos investigadores, assessores, jornalistas, dirigentes sindicais ou lutadores sociais deram início às sessões de trabalho, coordenadas por prestigiosos dirigentes sindicais da região.
As transformações que hoje caracterizam a região se impuseram. Derivou dos debates a necessidade do movimento sindical, historicamente a vanguarda dos processos de mudanças, não ficar hoje a reboque destes.
Adotou-se o compromisso de não só apoiar, mas acompanhar os governos que em maior ou menor grau defendem os verdadeiros interesses dos trabalhadores e dos povos.
O evento tampouco se furtou a identificar-se, de maneira unânime, com "um futuro soberano e socialista". Expressou assim - expressamente definido - o compromisso com um novo mundo melhor, ao qual aspiram bilhões de seres humanos em nosso planeta.
Evidenciou-se, também de maneira cristalina, a vontade de defender a soberania e independência de nossos países e de atuar contra a exploração por parte das transnacionais.
Deu-se uma ênfase essencial aos esforços pela integração de nossos povos, com igualdade, identidade e solidariedade, conscientes de que ou nos unimos ou perecemos. O encontro reconheceu a relevância da Alba e do TCP, expressões de relações baseadas na solidariedade, cooperação e complementariedade.
O antiimperialismo vincou as intervenções da maioria dos participantes. Muitos deles reconheceram que o governo dos Estados Unidos está buscando um pretexto na América para iniciar a guerra e apagar os progressos obtidos.
Como expressou a FSM-América ao apoiar a convocação do evento:
"Vivemos em um mundo onde os 'poucos ricos' desprezam, discriminam e escravizam os 'muitos pobres'; e isso é possível devido à aliança em que se baseia a unidade deles como classe social, defendendo assim seu sistema, cuja força empregam para confrontar, atacar, manipular, dividir, desviar e debilitar os trabalhadores e sua organização coletiva, os sindicatos.
Desconhecer este antagonismo, pretender ignorar o egoísmo que o sistema gerou com sua exaltação do individualismo, do mercado livre, da impiedosa competição, e enveredar a ação sindical pela via do diálogo passivo com os adversários dos trabalhadores, manifestando complacência para com declarações de boa vontade e vendo nelas triunfos da luta sindical - tudo isso nos desvia do que deve ser nossa missão em cada uma das nossas sociedades: a transformação social com predomínio da propriedade comum e o desenvolvimento de uma economia solidária.
Não se deve permitir que o sindicalismo se integre na estrutura política da globalização capitalista e sirva de suporte à sobrevivência desta, encaminhando a ação sindical por vias aparentemente ingênuas e tolerantes, convenientes para os poderosos, que sufocam as verdadeiras manifestações de luta coletiva que os trabalhadores têm protagonizado historicamente.
Nesta situação, para a América latina e Caribe, aumentam as conseqüências de levarmos ou não em consideração que as riquezas naturais ainda conservadas em nossas terras excitam a voracidade imperialista, face ao iminente esgotamento das reservas que hoje possuem ou que exploram livremente."
O evento de Quito cumpriu plenamente com os objetivos anunciados em sua convocação: abordou os problemas que afetam os trabalhadores em nossa região com uma visão orientada para a concepção de um plano de ação eficaz, com propósitos concretos e ações que conduzam à recuperação da capacidade de luta dos trabalhadores, do dinamismo e representatividade na atuação sindical em todos os níveis, defendendo a independência de classe e a autonomia sindical.
Assim se chegou a uma plataforma pela unidade de ação:
▄ Na defesa dos direitos trabalhistas e sociais; pelo pleno emprego, redução da jornada de trabalho sem redução de salário.
▄ Contra a precarização do trabalho, a discriminação no trabalho por motivos de gênero, etnia, religião e orientação sexual; contra a privatização e a favor de que o estado assuma seu papel de indutor do desenvolvimento econômico e social, de que se universalizem as políticas públicas de educação, saúde, previdência social e transporte.
▄ Pela integração solidária e soberana entre os povos; apoio às mudanças políticas e sociais.
▄ Pela unidade contra a ofensiva militar do imperialismo e de suas forças aliadas na região, conservadoras e corruptas.
▄ Fortalecimento da luta em defesa da soberania alimentar, sobre os recursos energéticos, hídricos, a biodiversidade e sustentabilidade ambiental.
A Federação Sindical Mundial na América reconhece a significativa contribuição dos participantes desse encontro sindical em Quito deram ao fortalecimento das lutas sindicais em nossa região, ao traçarem, em sua Declaração, uma clara panorâmica de nossa situação e proporem uma Plataforma para a Unidade de Ação muito precisa, que deve alentar a participação de todos, conscientes de que apenas unidos seremos fortes para nos opormos aos que nos primem, aos que pretendem cercear nossos avanços e justas aspirações.
Declaramos nosso firme compromisso de contribuir com o funcionamento do Grupo de Trabalho, criado para implementar os acordos adotados e preparar nosso segundo encontro, no Brasil.
Unamos a classe trabalhadora da América e elevemos seu protagonismo!
Fonte: http://portalctb.org.br/

