BNB: Entrevista com Superintendente Regional na Bahia
Primeiro é o de que o capitalismo pautado no projeto neoliberal de Estado mínimo e no "deus" mercado como solução para todos os problemas econômicos e sociais, ruiu inteiramente. Segundo, de que o Brasil, mesmo não sendo uma ilha, é um dos países com melhores condições de superar as dificuldades e terceiro a convicção de que sem os bancos públicos os efeitos da crise no país seriam bem piores.
O jornal O Bancário conversou com Nilo Meira Filho às vésperas do seminário, que começa sexta-feira, em João Pessoa (PB), onde os funcionários do BNB se reúnem para discutir justamente o tema O papel dos bancos públicos na crise financeira.
A matéria jornalística com as opiniões do superintendente estadual tem a intenção de contribuir com o debate, em um momento quando o mundo procura desesperadamente uma saída e o Brasil aponta para um caminho que reconhece a necessidade da regulamentação da economia e coloca como preponderantes os investimentos públicos para o desenvolvimento sustentável e a superação das desigualdades. Propostas, como se vê, que se opõem frontalmente ao neoliberalismo.
Fundamentos econômicos
O superintendente estadual fala sem revelar qualquer dúvida. Para ele, o capitalismo está em cheque e o neoliberalismo, centrado na completa desregulamentação não apenas da economia, mas da sociedade, na integralidade, que despreza a presença dos serviços públicos e aposta na privatização como solução para todos os males, está definitivamente encerrado. Agora, a alternativa é buscar uma opção que, sem engessar os vetores econômicos, estabeleça meios de controle, particularmente do sistema financeiro, e resgate o papel do Estado como intermediador de conflitos e agente estimulador do desenvolvimento.
Nilo Meira Filho tem consciência de que nenhum país está blindado, mas reafirma que o Brasil vive uma realidade menos delicada porque os fundamentos econômicos a partir do governo Lula estão mais fortes, mais sólidos. "Temos reservas de mais de R$ 200 bilhões em caixa, a inflação está sob controle e o sistema bancário goza de credibilidade, pois trabalha com folga no chamado indicador basiléia".
Bem humorado e em tom didático, ele explica que pelo indicador basiléia, regra adotada pelo sistema financeiro internacional, um banco pode emprestar até 12 vezes o capital que detém. No Brasil, todos operam abaixo desse patamar, o que assegura confiança, enquanto nos Estados Unidos, para driblar a regra, foram criadas corporações financeiras não bancárias, com alavancagem de 50 por 1, ou seja, estavam emprestando até 50 vezes o valor do capital da empresa.
Resistência ao desmonte
Evidentemente, como o Brasil está inserido em um contexto globalizado, os bancos brasileiros foram afetados pela liquidez das linhas de financiamentos externos. No entanto, estão com a saúde bem melhor do que os estrangeiros, em especial os norte-americanos. E no caso da rede pública, a situação é ainda mais confortável.
Pois bem, é exatamente nesse ponto que Nilo Meira Filho destaca a importância da resistência da sociedade brasileira, principalmente do movimento sindical bancário, contra o desmonte dos bancos públicos que o governo Fernando Henrique Cardoso fez de tudo para concretizar, mas "felizmente" acabou perdendo a disputa.
Hoje, como diz o superintendente estadual do BNB, diante da retração das organizações bancárias privadas, os bancos públicos têm sido fundamentais para manter os níveis de investimentos e impedir que mais gente perca o emprego, através do direcionamento de recursos para o setor produtivo. "Estou confiante. Acredito que este primeiro semestre ainda será de dificuldades, mas no segundo espero uma reação positiva em nível de Brasil e do Nordeste, e com certeza no próximo ano retomaremos a normalidade e o crescimento brasileiro no patamar em que vínhamos crescendo".
Âncora para o desenvolvimento
Os dados servem para mostrar o valor dos bancos públicos no enfrentamento da crise financeira internacional. Ano passado, só do FNE (Fundo Constitucional de Desenvolvimento do Nordeste)foram contratados R$ 7,7 bilhões, aplicados nos setores rural, industrial, comercial, de serviços e turismo. Para este ano, até a metade de março, todo o orçamento anual, de R$ 7,5 bilhões, já estava comprometido.
Embora a grande maioria seja com carta consulta, o fato é que se trata de um indicador que revela o quanto a rede oficial tem sido procurada para compensar a retração do setor privado.
Na carteira comercial também foi registrado um crescimento significativo após a deflagração da crise. Na Bahia, dobrou a partir de outubro do ano passado, pulando para R$ 200 milhões de saldo médio.
O orçamento do FNE para a Bahia este ano é de R$ 1,9 bilhão e já está quase todo também comprometido com carta consulta. Isso reafirma a importância do BNB como instrumento alocador de recursos na economia da região.
Na época do governo FHC, lembra o superintendente estadual Nilo Meira Filho, "o BNB havia diminuído de tamanho e estava sem foco". Quando o atual presidente da instituição, Roberto Smith, assumiu o cargo em 2003, havia R$ 7 bilhões aplicados em títulos, ganhando apenas a Selic, a taxa básica de juro.
"Hoje, a situação é bem diferente, e não apenas o BNB como todos os bancos públicos têm jogado um papel indispensável no desenvolvimento nacional. Se tivéssemos permitido que fossem privatizados no governo FHC, agora estaríamos desamparados, chorando o leite derramado", afirma Nilo Meira Filho.
Funcionário de carreira
Formado em Administração de Empresas, com mestrado em Geografia, o superintendente estadual do BNB, Nilo Meira Filho, ingressou no banco em 1973. Ele já passou por Sergipe e Alagoas, onde exerceu a função de gerente da Central de Análise de Projetos.
Esse mesmo cargo desempenhou em Salvador. Foi ainda o primeiro superintendente do BNB para os estados de Minas e Espírito Santo, onde o banco também atua, assim como faz em todo o Nordeste, estimulando o desenvolvimento nos setores rural, industrial, comercial, de serviços e turismo.
Rogaciano Medeiros SEEB-BA

