América Latina dá passos para a democratização da comunicação
Novos caminhos para a democratização da comunicação na América Latina começam a ser trilhados. Exemplo disso é a realização da 1ª Conferência Nacional de Comunicação no Brasil e o polêmico projeto de Lei de Serviços de Comunicação Audiovisual, apresentado pela presidente argentina Cristina Kirchner. O argentino Guillermo Mastrini, em entrevista a este e-Fórum, avalia que essas iniciativas são reflexo das mudanças no contexto político da América Latina (AL).
Guillermo
Mastrini, licenciado em Ciências da Comunicação e docente da
Universidade de Buenos Aires (UBA) e da Universidade Nacional de
Quilmes, considera que a caminhada para a democratização dos meios
ainda é longa, mas que nunca antes a participação da sociedade civil
foi tão ativa. Hoje, na América Latina, garante ele, uma maioria de
governos moderadamente de esquerda ou de centro-esquerda, está disposta
a buscar, ainda que lentamente, uma outra configuração dos sistemas de
comunicação.
Em entrevista concecida ao e-Fórum,
o professor e autor do livro “Los dueños de la palabra”, lançado na
última sexta-feira (18), em Buenos Aires, fala sobre a nova lei
argentina de comunicação audiovisual, a concentração dos meios, a
necessidade de políticas públicas e a luta por uma comunicação mais
democrática. Leia a seguir:
O projeto da nova Lei de Serviços de Comunicação Audiovisual (confira aqui), aprovado no último dia 17 pela Câmara dos Deputados da Argentina, vem gerando polêmica. Qual a sua avaliação sobre o projeto?
Mastrini:
Eu creio que em termos gerais é um bom projeto, ele avança notavelmente
no sentido de definir a radiodifusão e o sistema de comunicação
audiovisual numa abordagem mais ampla, como um conceito de liberdade de
expressão vinculado ao direito à comunicação e não a uma liberdade de
expressão entendida no sentido estreito e que somente é garantida
àqueles que detêm o controle dos meios. Ou seja, é um conceito de
liberdade de expressão que garante ao conjunto da cidadania a
participação nos meios.
Logicamente, como ocorre em toda a
América Latina - podemos ver isto recorrentemente na Venezuela, no
Equador, na Bolívia e também no Brasil - cada vez que um governo quer
legislar a radiodifusão, dar aos serviços de comunicação um sentido
democrático, os donos dos meios midiáticos imediatamente começam a
dizer que se trata de um ataque à liberdade de expressão. Na verdade,
trata-se de um ataque a “sua” liberdade de expressão, porque a
liberdade das empresas pretende ser absoluta. Eles acham que são os
únicos com direitos para transmitir, dominam todos os meios e não
querem nenhuma restrição. Quando se criam novos direitos para outros
cidadãos, obviamente, se entra em choque com esses interesses. Isso
precisa ser entendido.
A Argentina tem até hoje uma legislação
com clara concepção autoritária, que provém da ditadura [ocorrida no
país entre os anos de 1976 e 1983 >, e nesse sentido é muito
importante que se possa sancionar essa nova lei.
De que forma essa Lei contribui para uma comunicação mais democrática na Argentina?
Mastrini: Bom,
para começar, há um grande avanço ao que se reserva em torno de 33% ,
um terço do espectro radioelétrico, às organizações sem fins
lucrativos. Quero dizer, a Lei concebe que essas organizações não só
podem ser licenciadas, como devem ter um espaço reservado, porque,
senão, se torna um direito falho. Para nós, esse é um ponto muito, mas
muito importante na ideia de avançar para uma democratização da
comunicação.
Além disso, avança também na “desmonopolização”,
ou seja, impõe limitações importantes aos grandes grupos econômicos
para serem proprietários dos meios de comunicação. Isso também implica
a necessidade de retrair investimentos aos grupos multimídia surgidos
na década de 90 restrições.
Eu diria que os principais
elementos que a Lei possui, em matéria de democratização da
comunicação, são as ações de caráter anti-monopólio e o aumento da
participação da sociedade civil nos meios de comunicação.
A
presidente Cristina Kirchner determinou a retirada das empresas
telefônicas do controle da TV a cabo no novo projeto. Como o senhor vê
isso?
Mastrini: Eu acho, e essa é uma
posição muito pessoal, que as telefônicas vão acabar entrando de toda
forma no setor de serviços audiovisuais. Nesse sentido, penso que seria
melhor regular a maneira como vão entrar, e não esperar que entrem para
depois regular.
Agora, é certo que não haveria consenso político
para aprovar o projeto, se não fosse feita essa retirada. Então,
podemos observar de duas maneiras essa modificação. Se observarmos do
ponto de vista de qual lei, seria a melhor, creio, a que permitia o
ingresso, mas que o regulava de forma claramente anti-monopólica. Mas,
acho que na política, nem sempre o melhor é o mais adequado – se essa
melhor redação levaria a uma rejeição da lei, de nada adiantaria. Com a
modificação, muitos deputados votaram a favor do projeto, e é isso que
importa. Me parece, então, que é um saldo positivo ter feito a mudança.
Em termos estritamente técnicos, porém, não estou de acordo.
Qual
o papel do Comitê Federal de Radiodifusão (Comfer)? Por que ele não
consegue evitar a existência dos monopólios/oligopólios?
Mastrini:
Bem, a atual legislação permitiu a conformação de oligopólios. O
objetivo da nova lei é gerar um marco normativo que os impeça.
O
Comfer não regula, só aplica a lei. É aquele que tem o poder de polícia
em relação à radiodifusão. Tem participação também na publicação das
licenças, mas não é concretamente um regulador, é uma agência de
controle e de aplicação. Regular fica nas mãos exclusivamente do
Congresso da nação.
Em sua pergunta, está implícita a dúvida em
relação à capacidade que a futura autoridade terá para aplicar e fazer
cumprir a nova legislação [no projeto aprovado pela Câmara, está
prevista a criação de um órgão específico para os Serviços de
Comunicação Audiovisual >. Também temos dúvida quanto a isso, porque
o poder dos meios de comunicação é muito grande.
É preciso
destacar que a nova lei da radiodifusão vem precedida de uma enorme
pressão social, algo parecido – mas com menos tradição e fortaleza – ao
FNDC. O que nós chamamos de Coalizão por uma Radiodifusão Democrática
elaborou a base do projeto, não escreveu a Lei, mas ajudou a
construí-la baseando-se na filosofia de um projeto de origem arraigada
na mobilização popular por uma radiodifusão democrática.
Políticas Públicas
Em
países como Venezuela, Chile, mais recentemente o Equador, começam a
discutir a reformulação das leis de comunicação. Como o senhor avalia
esse novo cenário na AL?
Mastrini: Temos
que entendê-lo num contexto histórico. Na AL, os donos dos grandes
meios historicamente dizem que a melhor lei é aquela que não existe, e
o que eles fizeram foi pressionar para que não houvesse regulação dos
meios.
Neste momento, a dinâmica do mercado comunicacional,
com a erupção das novas tecnologias, de novos setores como as empresas
telefônicas, fazem com que seja muito importante ter que regular.
Porque há novos atores, há novas políticas para desenvolver, e nesse
sentido é necessário que se estabeleçam regras de jogo claras.
O
que mudou, em relação à história, é a situação política. Estamos num
contexto diferente do que tradicionalmente ocorreu. Hoje, há uma
maioria de governos na região moderadamente de esquerda ou de
centro-esquerda. Nessa conjuntura, evidenciou-se que os acordos feitos
pelos governos que não eram desses campos, com os proprietários dos
meios, não eram tão nítidos. Assim, se abriu a discussão de como
regular a comunicação. O que deveria ter sido feito desde as origens da
radiodifusão. É curioso que não se tenha feito antes, e, portanto,
resulta tão conflitante fazê-lo nesse momento.
Em relação às políticas públicas de comunicação, qual é o panorama na AL?
Mastrini:
O interessante nesse ponto é que se voltou a falar das políticas de
comunicação no continente latino-americano. Esse tema teve muito fervor
e incidência na década de 1970 e depois entramos em um túnel escuro nos
anos de 1980 e 1990, onde era praticamente um palavrão mencionar a
expressão “políticas de comunicação”. Por sorte, hoje está se abordando
o tema.
Eu digo sempre que há três atores principais nas
políticas de comunicação: o Estado, as empresas e a sociedade civil.
Creio que pela primeira vez a sociedade civil está participando. Em
geral, se revisamos a história das políticas de comunicação, dos três
atores só participavam dois, as empresas e o Estado.
Há uma
redefinição das políticas de comunicação, em alguns casos se avançou
mais em termos de democratização, em outros nem tanto. E nesse processo
se destaca a consciência da sociedade civil de que precisa intervir, é
claro que essa intervenção nem sempre tem a força necessária, mas esse
é um processo de organização que leva tempo.
Que medidas precisam ser preconizadas para expandir as políticas de comunicação na AL?
Mastrini:
O primeiro passo que temos a dar na América Latina são leis de
radiodifusão elaboradas de maneira democrática e com participação
social. Agora, esse é um ponto de partida, a aplicação dessas leis
requer um trabalho contínuo. A lei não é o ponto de chegada da política
de comunicação, é a base. Para a realização dessa política, há uma
tarefa social importante que é o acompanhamento diário para construir
uma comunicação melhor e mais democrática.
Qual sua avaliação sobre a adoção do modelo da TV digital brasileiro em outros países latino-americanos?
Mastrini:
Acho que teria sido melhor que todos os países tivessem negociado
juntos. O fato de o Brasil ter negociado sozinho, primeiro, e depois
ter conseguido que o resto dos países assumisse o modelo, marca
claramente a importância do país, neste momento, como líder regional.
Se
pensarmos nas diretrizes estratégicas regionais, creio que teria sido
melhor ter negociado. Porque assim, quem conseguiu as melhores
condições foi o Brasil. De toda a forma, teria sido melhor para o
conjunto da sociedade negociar integralmente com os países condições
boas para todos, levando em consideração o mercado. Está claro, porém,
que o fato de vários países escolherem a norma japonesa permitirá
alguma integração regional em matéria de políticas industriais. Depois
teremos problemas derivados do fato de não ter-se negociado
conjuntamente e ainda bastante disputa em termos dos direitos e tutelas
de cada um dos países.
Concentração dos meios
No
livro "Los dueños de la palabra", que está lançando agora, o senhor
trata da concentração dos meios de comunicação. Fale um pouco desse
livro.
Mastrini: Nossos trabalhos nos
revelam médias, logicamente tudo é variável, mas em termos gerais, no
sistema de comunicações, as quatro primeiras empresas de cada mercado
concentram 80% da propriedade, não só dela, mas das audiências – e
esses são números muito altos. São níveis realmente significativos para
qualquer indústria, principalmente para uma indústria onde estão em
jogo os valores simbólicos, a difusão de ideias.
Precisamos
dizer que, de todos os mercados que nós estudamos – imprensa gráfica,
rádio, televisão, televisão a cabo ou por assinatura, telefonia móvel e
fixa –, os mais concentrados são os mercados telefônicos. Também vimos
que há uma tendência das grandes empresas telefônicas em expandir-se
para o setor audiovisual, especialmente primeiro via cabo. E há uma
tendência de que duas grandes empresas telefônicas da região cada vez
tenham mais penetração em todos os mercados – a telefônica da Espanha e
a Telmex do México estão praticamente presentes em todos os países da
América Latina e cada vez ganhando mercados.
Quais são as características e problemas semelhantes nos países nessa questão da concentração?
Mastrini: Em
geral, os níveis de concentração são muito similares. Como nós havíamos
estudado, os países maiores, com maior população, têm maiores mercados,
e por isso um pouco mais de diversidade que os países pequenos. Pela
simples questão de que o tamanho do mercado permite a existência de
mais meios. De toda forma, os níveis de concentração são muito altos em
todos os países.
Onde é mais amena a concentração dos meios de comunicação?
Mastrini: Podemos
dizer que no Brasil o nível é menos alto, mas é muito alto também.
Brasil e México, em alguns pontos, têm menos concentração. Pela simples
razão de que como são mercados maiores, possuem mais meios. Mas ainda
com níveis altíssimos. Verificamos os países maiores têm níveis mais
baixos de concentração . Mas se pensamos de outra maneira, por exemplo
no Brasil, a média pode estar em 75%, e dominar 75% num mercado tão
grande e poderoso como o brasileiro, isso é ter uma potência econômica
que nenhum grupo tem no resto do continente.
Como fica a comunicação comunitária em relação à concentração dos meios?
Mastrini: Em
geral, há muito pouca regulação que favoreça a comunicação comunitária.
Temos um exemplo recente muito bom, surgido no ano passado, que é o
caso do Uruguai. Lá, pela primeira vez, tem uma legislação importante
em matéria de radiodifusão comunitária, mas em termos gerais, há muito
atraso. A legislação chilena é muito, muito ruim, porque quase condena
a existência da comunicação comunitária em vez de incentivá-la. A
mexicana também é bem ruim. E por aqui, na Argentina, estamos no
começo.
A nova Lei de Serviços de Comunicação Audiovisual
argentina permitirá, sem ser uma lei específica de radiodifusão
comunitária, estimular o setor a partir do forte incentivo que dará às
Organizações Não Governamentais. Mas há muito a ser feito em matéria de
radiodifusão comunitária.
Quais são as carências e méritos encontrados quando se trata dos marcos regulatórios?
Mastrini:
Os meios de comunicação estavam acostumados a uma regulação que os
protegesse e nunca enfrentasse seus interesses. Isto tem sido
tradicional na AL. Sempre a regulação dos meios favoreceu a expansão
dos grupos multimídias. E é por isso que, se fizermos um processo de
revisão e visualizarmos uma nova tendência na qual se possa compreender
que não só os meios de comunicação devem ser os favorecidos, mas sim
todo o conjunto, estaremos numa etapa mais democrática na comunicação.
O
que mudou desde a publicação de “Periodistas y Magnates” [seu livro
anterior, também publicado em conjunto com Martín Becerra > até “Los
dueños de la palabra”?
Mastrini: Não
mudou muita coisa. O que se confirma é uma tendência de alta
concentração. Nós destacamos como diferença principal o fato de as
telefônicas, sobretudo as empresas Telefônica e Telmex, como eu já
apontei, estarem cada vez mais presentes em todos os mercados da AL e
como as maiores do setor. Nesse sentido, parece uma questão chamativa,
para se dizer o mínimo, que está se formando no nível telefônico uma
espécie de duopólio, um monopólio de dois. E que vai ter, sem dúvida,
uma incidência no setor audiovisual.
Democratização da comunicação
Quais são os desafios para a democratização da comunicação?
Mastrini: O
fundamental é que se possa estabelecer em todos os países uma regulação
que limite claramente o desenvolvimento dos monopólios e dos
oligopólios. Que, ademais, estimule uma política pública. Não basta
limitar os monopólios, creio que uma política pública de comunicação
tem que, além disso, promover a diversidade. O mercado por si mesmo não
está em condições de promover a diversidade, portanto, resulta
fundamental que haja uma intervenção do Estado para garantir meios
diversos.
Como fazer para a sociedade se envolver mais?
Mastrini: Eu
acho que é um trabalho que a própria sociedade deve fazer. Não há uma
receita. Acho, claro, que o fato de existirem organizações como o FNDC,
ou organizações democráticas que tenham presença social e
cotidianamente se vinculem a sindicatos, a movimentos de base é
importante. Não é uma tarefa fácil. Então, tudo que se faz serve para
avançar. Logicamente, sempre se falta recurso, boas articulações,
sobretudo termos capacidade de articulação com outras instâncias. Acho
que é mais ou menos isso, seguir trabalhando, participando, estando
presente.
Confecom
Em relação ao Brasil, como o senhor vê a realização da 1ª Conferência Nacional de Comunicação?
Mastrini:
Nós vemos com muita expectativa, porque neste momento, o Brasil, em
ternos políticos gerais – não específico da radiodifusão –, está se
transformando numa referência inquestionável para toda a América
Latina. Nesse sentido, o que acontece no Brasil vai ser importante.
Nós, por exemplo, esperamos que finalmente o governo de Lula possa
sancionar uma lei de radiodifusão democrática.
Mas eu vejo
isso com certo ceticismo. Parece-me que o governo Lula tem mantido uma
relação de equilíbrio. Com muitas virtudes em muitas áreas, em matéria
de políticas de comunicação, mas ainda não enfrentou os grandes grupos
de multimídia. Não digo que esteja a favor, mas tem tido uma relação de
equilíbrio, especialmente com o grupo Globo. Se considerarmos a norma
de televisão digital, vemos que não há confrontação. Não que ela
deveria acontecer, mas me parece que seria melhor se privilegiassem
mais os interesses da sociedade civil, editando uma lei de radiodifusão
emanando a vontade popular e não só levando em consideração os
interesses dos grandes grupos corporativos.
Espero que a
Conferência Nacional de Comunicação, que se levará a cabo agora em
dezembro, seja um passo a mais nesse sentido. Eu vi, por exemplo, que
revogaram uma lei de radiodifusão da ditadura [Lei de Imprensa >,
mas ainda não sancionaram uma nova. Isso ficou um tanto complexo, é
como se vocês estivessem na metade do caminho, e creio que seria muito
importante para o Brasil percorrer a outra metade para finalizar essa
questão.
*Com a colaboração de Fabiana Reinholz
** Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação

