Sindicalização cai pela metade depois da década de 80
KAREN CAMACHO
Editora-assistente de Dinheiro da Folha Online
A taxa de sindicalização atual é quase metade da verificada na década de 1980. Nos anos 1990, chegou a ser ainda menor. A explicação, para alguns, foi o aumento do desemprego, que gerou apreensão entre os trabalhadores. Para outros, o sindicalismo enfraqueceu porque abandonou algumas bandeiras.
De acordo com o economista Marcio Pochmann, presidente do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), a taxa de sindicalização no Brasil era de 11% ao final do anos 1970. Na década de 1980, chegou a 32%, caiu para 15% na década de 1990 e, atualmente, está em 18%.
"Houve reestruturação da produção das empresas. O país mudou e diminuiu o poder sindical", explica Pochmann.
Para ele, no entanto, a taxa atual de 18% não pode ser analisada como um enfraquecimento dos sindicatos, porque a sindicalização está crescendo. "Há um descolamento de perfil entre os líderes sindicais e a base de trabalhadores, que hoje são mais jovens e com escolaridade maior", afirma.
Outro ponto defendido por Pochmann para justificar a queda nos trabalhadores sindicalizados é o desemprego, que atualmente apresenta taxas maiores.
Clemente Ganz Lúcio, diretor técnico do Dieese, também acredita que a queda na sindicalização pode ser explicada pela preocupação em perder o emprego. "Foram 15 anos de recessão, queda de salário e redução do emprego."
Para ele, essa apreensão sufoca a luta trabalhista e o envolvimento da base. "Na década de 1990, os trabalhadores tinham medo de greve ou manifestações porque sabiam que o facão podia passar por suas cabeças", diz.
Lucio e Pochmann defendem que o crescimento da economia e o aumento do emprego, aliados à estabilidade econômica, podem dar mais força aos sindicatos.
Já o sociólogo Francisco Weffort, ex-secretário geral do PT e ex-ministro da Cultura do governo Fernando Henrique Cardoso, acredita que os sindicatos abandonaram algumas bandeiras e causaram uma certa descrença no trabalhador.
"Naquele tempo [durante as greves do final dos anos 1970 e 1980], havia o sindicalismo combativo e o corporativista. Hoje nenhum é combativo. Eles dependem do Estado e fazem lobby, como qualquer outro setor da sociedade", afirma.
Weffort lembra que, tanto nas greves de 1968 como nas de 1978, a autonomia dos sindicatos era umas das bandeiras defendidas pelos líderes, mas hoje, mesmo no governo do PT, que se originou naqueles movimentos, o imposto sindical ainda vigora.
Menos greve
As paralisações atualmente também acontecem em número bem mais reduzido do que na década de 1980.
Ao final daquela década, os trabalhadores brasileiros chegaram a realizar 4.000 greves por ano, perdendo apenas para a Espanha.
Atualmente, o Brasil registra, em média, 500 greves por ano.
Entre as explicações para isso está a inflação. Nos anos 1980, com inflação de 30%, 40% e até 80% ao mês, os trabalhadores perdiam o poder de compra muito rápido.
Por isso, as reivindicações salariais chegavam a ser trimestrais.
Como a recuperação salarial sempre foi o ponto central das mobilizações trabalhistas, o sindicato parava na porta da fábrica, discurso, assembléia, e os funcionários cruzavam os braços.
Com a estabilidade econômica, o quadro mudou. Atualmente, com inflação de cerca de 4,5% ao ano, as negociações passaram a ser anuais.
Mudança de base
Outra característica do sindicalismo atual é a mudança no perfil do trabalhador, ou seja, de sua base, também em função das mudanças da economia e dos processos de produção.
Na década de 1980, a cada dez trabalhadores no país, entre cinco e seis estavam na indústria. Atualmente, menos de um terço continua nesta área enquanto que sete estão no setor de serviços.
Isso muda o perfil do trabalhador, dos meios de produção, da relação com o empregador e, naturalmente, as prioridades e as reivindicações.

