Greves ajudaram na redemocratização do país
KAREN CAMACHO
Editora-assistente de Dinheiro da Folha Online
As reivindicações dos trabalhadores eram muitas, sociais, políticas e trabalhistas. Algumas foram atendidas, outras nunca saíram do papel. Bandeiras foram esquecidas. Mas uma contribuição daqueles movimentos é certa entre políticos e estudiosos: as greves e manifestações dos metalúrgicos do ABC, que começaram em 78 e se consolidaram no ano seguinte, ajudaram no processo de redemocratização do país, que seria concluído em 1984.
Para o sociólogo Francisco Weffort, ex-secretário-geral do PT (Partido dos Trabalhadores) e ex-ministro da Cultura do governo Fernando Henrique Cardoso, o movimento teve um peso importante no processo de redemocratização. "Logo a seguir [das greves de 78 e 79] veio o processo de reforma partidária, quando surge o PT. É um momento de recuperação do sistema partidário. Não é que a democracia dependa apenas disso, mas foi importante", afirmou.
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| Lula discursa durante greve de metalúrgicos promovida 1979, em São Bernardo; veja fotos |
O deputado federal Vicente de Paula da Silva, o Vicentinho, afirma que havia perseguição aos líderes sindicais pela ditadura militar, por questões políticas, e por parte das empresas, que tentavam impedir novas greves. "Muita gente foi presa, apanhou da polícia. A gente entrava com jornalzinho do sindicato escondido nas calças pra distribuir dentro das fábricas. Era tudo clandestino", lembra.
Clemente Ganz Lúcio, diretor técnico do Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Sócio-Econômicos), afirma que o contexto daquele ano de 1979 era de resistência e de reivindicação por espaço de negociação dos direitos trabalhistas. "Era também uma resistência ao regime autoritário, uma contestação."
Os líderes, acredita Ganz, tinham consciência das questões políticas envolvidas nas greves. "Até porque, o Estado proibia greve ou qualquer manifestação pública. Então os metalúrgicos sabiam que estavam contestando o regime".
Para ele, o clima em 1978 era de medo, mas a repressão já não era tão dura quando em 1968. "Se a greve da Scania fosse em 1968, provavelmente, o Gilson estaria no fundo mar", afirmou em alusão às suspeitas de que o regime militar desaparecia com os presos jogando seus corpos no mar.
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| Assembléia no cine Piratininga para decidir sobre início de greve, em 29.out.1979 |
Para Weffort as duas épocas --a greve da Scania em 1978 e as greves de Osasco e Contagem, em 1968-- foram marcadas pela repressão da ditadura, mas admite que o pior período, depois do AI-5, já havia passado.
O início
Em 1968, trabalhadores de empresas de Contagem (MG) e de Osasco (na Grande SP) realizaram greves e manifestações por aumento salarial e contra a ditadura militar. O clima era afervorado pelas manifestações estudantis da época.
No 1º de Maio daquele ano, durante as comemorações do Dia do Trabalho, trabalhadores praticamente expulsaram o governador Abreu Sodré de evento na praça da Sé, no Centro de São Paulo, e incendiaram o palanque. O governador e outras autoridades teriam se refugiado na Cetedral da Sé.
Embora inflamados, os embates entre manifestantes e polícia só não se transformaram em carnificina porque Abreu Sodré não ordenou a repressão.
As greves de 1968 serviram como exemplo, para o bem e para o mal, para as paralisações que aconteceriam dez anos mais tarde, em 1978. Se os trabalhadores tinham o exemplo de que a categoria poderia se organizar, também se lembravam de como a ditadura poderia ser repressora.



