O custo social da reestruturação bancária no Brasil

Esta é a décima sexta reportagem da série Por Dentro do Sistema Financeiro, uma parceria entre o Jornal GGN e a Contraf-CUT que busca analisar os desafios e as transformações do Sistema Financeiro Nacional.
O sistema bancário brasileiro vive um contraste evidente. Enquanto os cinco maiores bancos do país — Itaú, Bradesco, Santander, Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal — registraram lucro líquido somado de R$ 124 bilhões em 2025, milhares de agências continuam sendo fechadas, reduzindo o atendimento presencial e dificultando o acesso aos serviços financeiros para milhões de brasileiros.
O fechamento de agências tornou-se uma das principais marcas da transformação do setor. O atendimento presencial vem sendo gradualmente substituído por aplicativos, internet banking e outros canais digitais, alterando profundamente a relação entre bancos e clientes.
Essa transformação, embora aumente a eficiência operacional e reduza custos para as instituições financeiras, também produz impactos sociais importantes. Idosos, pessoas de baixa renda e moradores de regiões com menor acesso à internet estão entre os grupos mais afetados pela redução da rede física de atendimento.
Radiografia do encolhimento
O encolhimento da rede bancária física não é apenas uma tendência. Entre 2024 e 2025, o Brasil perdeu 1.345 unidades de atendimento, consolidando uma retração que já eliminou 37% das agências desde 2015.
Os dados também mostram uma mudança importante na composição dessa rede. Enquanto os bancos privados reduziram mais da metade de suas agências (-53%), os bancos públicos registraram uma retração menor (-17%).
Como consequência, hoje 59% da rede física remanescente pertence às instituições públicas, que concentram a maior parte da oferta de atendimento presencial, especialmente para a população de baixa renda.
Indicador
Total de agências fechadas (2024-2025): 1.345 unidades
Queda desde 2015: -37% (8,5 mil agências a menos)
Retração nos bancos privados: -53%
Retração nos bancos públicos: -17%
Distribuição atual da rede: 59% pública / 41% privada
Entre os bancos privados, o Santander liderou a redução recente de agências, reforçando o movimento de substituição do atendimento presencial pelos canais digitais.
Rentabilidade e a disputa pela "principalidade"
O que o setor financeiro apresenta como transformação tecnológica também faz parte de uma estratégia para ampliar eficiência e rentabilidade diante do avanço das fintechs. Após o crescimento acelerado de instituições digitais, como o Nubank, os grandes bancos passaram a concentrar esforços em quatro frentes principais:
Seletividade do crédito: priorização de operações com menor risco e maior retorno financeiro;
Redução de custos: uso crescente da inteligência artificial e da automação para reduzir despesas operacionais e diminuir a dependência de estruturas físicas;
Foco na alta renda: fortalecimento de segmentos como Uniclass, Prime, Select e Estilo, voltados aos clientes de maior poder aquisitivo;
Disputa pela "principalidade": mais do que estar presente no celular do cliente, a estratégia é tornar-se sua instituição financeira principal, ampliando a oferta de investimentos e serviços.
Ao mesmo tempo, a digitalização encontra limites importantes. Segundo dados da PNAD e do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), referentes a 2025, cerca de 42 milhões de brasileiros — o equivalente a 29% da população — ainda não utilizam serviços financeiros digitais.
Entre os principais desafios estão:
Idosos: cerca de 30% desse público não possui acesso à internet, sendo um dos segmentos mais prejudicados pela redução do atendimento presencial;
Desigualdade territorial: enquanto o acesso à internet nas áreas urbanas chega a 94,7%, nas zonas rurais o índice é de 84,8%;
Custo do atendimento presencial: estimativas apontam que uma operação presencial gera um custo médio de R$ 59,74 para o cliente, contra R$ 6,64 no atendimento digital. Com o fechamento das agências, despesas com deslocamento e tempo passam a ser suportadas pelo próprio cidadão.
O impacto sobre o emprego
A reestruturação do setor também tem provocado forte impacto sobre o emprego bancário. Desde 2016, foram eliminados cerca de 83,5 mil postos de trabalho, sendo 12.815 apenas em 2025.
Os efeitos são ainda mais significativos para as mulheres. Segundo o levantamento, elas representam aproximadamente 80% do saldo negativo de empregos no período.
Isso ocorre porque as funções mais afetadas pelos cortes são as de caixa bancário — ocupadas majoritariamente por mulheres (62%). Em contrapartida, os postos de tecnologia da informação cresceram 175%, mas apenas 24% dessas vagas são ocupadas por mulheres, evidenciando um desafio adicional na transição para as novas ocupações do setor.
Correspondentes bancários não suprem a demanda
Para compensar a redução da rede própria, os bancos ampliaram a utilização dos Correspondentes Bancários (Cobans), que atualmente somam cerca de 213 mil unidades.
Outro movimento observado é o crescimento das cooperativas de crédito, cuja rede física aumentou 102% nos últimos anos, oferecendo uma alternativa de atendimento presencial em diversas localidades.
Mesmo assim, o déficit permanece elevado. Hoje, 2.649 municípios brasileiros não possuem agências bancárias, deixando aproximadamente 19,6 milhões de pessoas sem acesso local a um gerente ou caixa eletrônico.
Em muitas dessas cidades, o atendimento exclusivamente digital ainda não é suficiente, seja pela precariedade da conexão à internet, seja pelo perfil da população atendida.
O futuro da bancarização
Recentemente, a Febraban afirmou que "está na hora de fechar a torneira" do crédito como forma de conter o endividamento das famílias.
A declaração reacendeu o debate sobre o papel social do sistema financeiro, especialmente em um cenário marcado por lucros elevados, fechamento de agências e redução do atendimento presencial.
Com o avanço da inteligência artificial generativa e da automação, cresce o desafio de conciliar inovação tecnológica com atendimento humanizado e inclusão financeira.
Nesse contexto, especialistas defendem a adoção de políticas públicas voltadas à inclusão digital, à manutenção do acesso da população aos serviços bancários essenciais e à redução das desigualdades de gênero e renda no mercado de trabalho. O desafio para o sistema financeiro brasileiro será encontrar um equilíbrio entre eficiência, inovação e responsabilidade social.
Fonte: Contraf.

