Dez razões para defender o pré-sal
1 - Estado x Mercado
Nos últimos trinta anos, o mundo presenciou a mais profunda e perversa
experiência histórica do capitalismo liberal. Conforme seus mentores, o
deus mercado tudo podia e oferecia. Diziam que fome, guerra,
desemprego, injustiças sociais seriam varridos para sempre da face do
mundo. A paz, o progresso e o desenvolvimento social alcançariam um
novo patamar, um novo tempo. Porém, o que vimos nesses últimos meses
foi o mercado financeiro internacional desabar, o mundo sucumbir à
falência do Bank of América, do City Bank e do Lehman Brothers. O
vendaval neoliberal arrastou pelo seu caminho os maiores bancos
europeus, os principais bancos de investimentos do ocidente e uma
incontável quantidade de empresas e corporações.
Para evitar a falência do sistema capitalista e a dêbácle do
neoliberalismo, bancos centrais das principais economias do mundo
distribuíram trilhões de dólares aos bancos e empresas, como forma de
salvá-los. O deus mercado correu para os braços do todo poderoso Estado
servil. Os trilhões de dólares distribuídos aos especuladores e
magnatas das grandes corporações seriam suficientes para erradicar a
miséria em todo o planeta.
Diante de mais uma crise cíclica do capitalismo e do desmoronamento das
bases que constituiu o neoliberalismo – entre elas e principalmente a
concepção de Estado mínimo – é que devemos reafirmar a função do Estado
como estruturador, organizador e planejador da economia. Devemos
reafirmar ainda que existem setores estratégicos da economia nacional
que são inalienáveis; portanto, devem estar sob amplo controle do povo
e do país.
Por isso, é fundamental reafirmarmos: o pré-sal é estatal!
2 - Estatização x Privatização
No Brasil, afirmaram que o Estado era ineficiente, incapaz de resolver
os problemas estruturais do país e da sociedade. Toda a infraestrutura
construída pelo Estado brasileiro, com raras exceções, foi entregue ao
setor privado nacional e internacional. Nesse embalo liberal, ao longo
do governo Collor de Melo e FHC, entregaram a preços insignificantes
grande parte da riqueza nacional; grandes empresas, representativas de
um tempo do desenvolvimentismo nacional. O símbolo desse modelo
corrupto e intolerável foi a privatização da Vale do Rio Doce. A
empresa, uma das maiores em mineração do mundo, foi entregue por 3,5
bilhões de reais e hoje vale no mercado internacional mais de cem
bilhões de dólares.
Nessa onda liberal, o presidente FHC tentou privatizar a Petrobras com
a proposta de emenda constitucional, a famosa emenda nove. A resposta
da sociedade brasileira foi firme e o governo teve que recuar. Mas,
como não se deu por vencido, novamente investiu contra a estatal ao
propor a mudança do nome para Petrobax, com o objetivo de facilitar sua
venda na bolsa de Nova Iorque. Mais uma vez a reação foi contundente.
Porém, com aprovação da Lei 9478/97, que instituiu um novo marco
regulatório do petróleo no país, FHC concedeu áreas de exploração a
empresas multinacionais e vendeu 67% das ações da estatal na bolsa de
Nova Iorque. Com essa iniciativa traidora, o Brasil perdia uma grande
parte do seu patrimônio, além do controle e lucro gerado pela
exploração das reservas petrolíferas.
Por isso, é fundamental reafirmarmos: o pré-sal é brasileiro!
3 - Governo Lula x Governo FHC
Durante os oito anos de (des) governo FHC, a Petrobras viveu seu
calvário, inclusive com a tentativa de sua destruição. Os exemplos são
muitos: a plataforma P34 afundou no Oceano Atlântico; 90% dos seus
trabalhadores foram terceirizados, o que colocou a empresa na lista de
recordes por mortes no local de trabalho; a indústria naval brasileira
foi sucateada, e as poucas embarcações solicitadas pela empresa foram
construídas fora do país; e o desenvolvimento das pesquisas nas áreas
de expansão da empresa foi substituído pela importação de gás da
Bolívia. A poderosa Petrobras atrofiava, enquanto as empresas
transnacionais avançavam no controle do petróleo brasileiro.
A Agência Nacional do Petróleo (ANP), criada pelo governo FHC para
gerir o novo marco regulatório, entregava de forma criminosa a empresas
multinacionais a concessão para a exploração de áreas de grande
potencial petrolífero. Infelizmente, o governo Lula, até pouco tempo,
ainda se manteve essa prática criminosa.
Todavia, o governo atual retomou os investimentos na empresa, rompeu
com os leilões e concessões, investiu em pesquisas que resultaram na
descoberta do pré-sal, injetou recursos nos estaleiros nacionais e
reconstruiu a indústria naval brasileira, que já foi uma das maiores do
mundo. Retoma, ainda, o projeto nacional do setor petroquímico. Em
função disso, a Petrobras expandiu seus negócios em todo o mundo e hoje
ocupa o índice de segunda maior empresa petrolífera do planeta. Nos
últimos anos, a Petrobras tornou-se a maior investidora do país,
responsável em grande parte pelo recente desenvolvimento nacional e
superação da crise internacional, destinando bilhões de reais, em
recursos próprios, para as obras do PAC – Programa de Aceleração do
Crescimento e Expansão da empresa.
Por isso, é fundamental reafirmarmos: o pré-sal é desenvolvimento!
4 - Indústria nacional x Indústria estrangeira
A indústria petrolífera é responsável por uma extensa e complexa cadeia
industrial e tecnológica. A exploração do petróleo envolve siderurgia,
metal-mecânica, estaleiros, instrumentos de precisão, plásticos,
microeletrônica, transporte, laboratórios de pesquisa química e uma
infinidade de produtos industriais. Da mesma maneira, a
industrialização do petróleo gera dezenas de produtos derivados:
gasolina, óleo diesel, nafta, fertilizantes, plásticos, produtos
petroquímicos. A cadeia industrial petrolífera é responsável por um
extraordinário potencial industrial e tecnológico.
Desenvolver a indústria petrolífera nacional desde a sua extração até
as suas múltiplas formas de uso e consumo, agregando valores na suas
fases de refino, industrialização e transformação, resultará em ganhos
extraordinários para a nação. Entregar esse patrimônio ao capital
internacional é concentrar renda e riqueza nas mãos de poucas empresas
transnacionais, em detrimento de todo um país. Entregar esse patrimônio
natural é perder o conceito de projeto estratégico para o país, é
abdicar de desenvolver a indústria nacional e as áreas de Ciências e
Tecnologia. A exploração planejada do pré-sal desencadeará um grande
potencial de desenvolvimento industrial, econômico e social jamais
visto em toda a nossa história.
Por isso, é fundamental reafirmarmos: o petróleo é industrialização!
5 - Emprego x desemprego
O processo de privatização no Brasil resultou no desemprego formal de
mais de um milhão e meio de trabalhadores. Grande parte dos empregos
que poderiam ser gerados no país foi transferida para outras nações. Na
Petrobras, além do desemprego direto e indireto causado pela política
destrutiva desenvolvida pelo governo FHC, grande parte da força de
trabalho foi precarizada. Nesse período, mais de cem mil postos de
trabalho foram terceirizados, e a empresa foi responsável por grande
parte das mortes e acidentes de trabalho no país.
Analistas de mercado de trabalho afirmam que, somente na exploração do
pré-sal, o país tem capacidade de gerar 500 mil novos empregos diretos
e indiretos. Na área de refino, indústria naval, petroquímica,
pesquisa, transporte, indústria siderúrgica e outras atividades afins
serão gerados milhares de empregos de qualidade. Engenheiros,
cientistas, operários, técnicos, marítimos, portuários e uma infinidade
de outras profissões serão demandadas. Nesse sentido, a questão do
emprego de qualidade é uma das grandes possibilidades no processo de
exploração do pré-sal.
Por isso, é fundamental reafirmarmos: o pré-sal é emprego!
6 - Energia fóssil x Energia renovável
A previsão menos otimista confirma a existência de 100 bilhões de
barris de petróleo na camada do pré-sal. Os mais otimistas destacam o
potencial de 200 bilhões de barris. A estimativa é de um retorno
financeiro de trilhões de dólares, caso permaneça a atual cotação do
preço do barril de petróleo no mercado internacional. O país alcançará
o seleto grupo dos maiores produtores de petróleo do mundo, a exemplo
de Arábia Saudita, Iraque, Irã, Líbia e Venezuela.
Não obstante, o Brasil, desde os anos setenta, vem investindo em fontes
renováveis de energia. O país desenvolveu uma importante indústria de
álcool combustível e, no último período, desenvolve o óleo diesel a
partir da mamona. Além disso, o bagaço da cana-de-açúcar é responsável
por grande produção de energia elétrica.
O Brasil, por ser um país tropical, conta com uma capacidade infindável
de energia de biomassa. A energia solar, se bem pesquisada e explorada,
desenvolverá um grande potencial energético renovável e limpo para o
país. Entretanto, para desenvolver essas potencialidades que temos, o
país necessitará de grandes investimentos nas áreas de pesquisa
científica e tecnológica.
O desenvolvimento da indústria petrolífera a partir da camada do
pré-sal possibilitará ao país um grande volume de recursos que, se bem
utilizado, desenvolverá de forma extraordinária as pesquisas e o
desenvolvimento tecnológico. O Brasil deve perseguir como objetivo
estratégico a não dependência da energia fóssil, que é finita, poluente
e não renovável, e avançar nas potencialidades naturais que temos.
Por isso, é fundamental reafirmarmos: o pré-sal é a energia do futuro!
7 – Soberania x Dependência
O início do século 21 é marcado pela insegurança nacional. Duas grandes
ocupações imperialistas ocorrem neste período: Iraque e Afeganistão. A
América Latina é vítima permanente de ameaças do império estadunidense.
Venezuela e Bolívia são cotidianamente ameaçadas pela máquina de guerra
americana. A Colômbia transforma seu território em base militar, o que
aumenta a tensão na região andina e potencializa a possibilidade de
golpes e guerras. A 4ª Frota Americana, a maior máquina de guerra do
mundo, é reativada e circula nos mares da região.
Diante de ameaças veladas e de guerras diretas, o governo brasileiro
busca acordos internacionais para proteger o país e suas riquezas
naturais. Em recente proposta de acordo com a França, o Brasil pretende
firmar parcerias para comprar aviões de guerra, submarinos nucleares e
helicópteros. Essas negociações incluem a transferência de tecnologia
para o país. O acordo possibilitará ao país acumular conhecimentos
científicos para a construção de equipamentos de segurança. Nessa mesma
perspectiva, o Brasil articula a presença permanente no Conselho de
Segurança da ONU (Organização das Nações Unidas). O momento histórico
que vivemos é marcado por muitas incertezas, e as mudanças geopolíticas
em curso transformam o mundo num espaço permanente de conflitos. Nesse
sentido, reforçar os interesses do país e a soberania nacional é a
decisão mais pertinente e sensata.
Por isso, é fundamental reafirmarmos: O pré-sal é soberania!
8 - Educação x Analfabetismo
O Brasil, em pleno século 21, ainda é marcado pelo alto índice de
analfabetismo. Cerca de 10% da população brasileira com 15 anos ou mais
de idade não sabe ler e escrever, e a educação pública caminha para a
falência. A falta de recursos, a desvalorização dos profissionais em
educação, a estrutura física debilitada, a inexistência de um projeto
nacional e articulado – que transforme a educação em um direito do
cidadão e um dever do Estado – afasta o país e o povo de seus objetivos
históricos.
No mesmo curso da degradação da escola pública, a mercantilização da
educação coloca o país numa encruzilhada. O Brasil é potencialmente um
país com grandes possibilidades e com amplas condições para superar
suas fragilidades estruturais, políticas, econômicas e sociais a partir
da educação. Para alcançar esses objetivos, será necessário investir um
grande volume de recursos públicos no ensino, na pesquisa e na
extensão. O país precisa desenvolver uma ampla reforma estrutural na
educação. Um projeto educacional consistente, que inclua acesso,
permanência e qualidade da educação, em todos os níveis, envolvendo
toda a sociedade, sobretudo as crianças e jovens em idade escolar. Os
desafios precisam ainda avançar na educação de jovens e adultos,
educação no campo, quilombola e indígena, alcançando toda a diversidade
social.
A proposta apresentada pelo governo federal cria um fundo público, em
que parte do lucro auferido pela exploração do pré-sal seja alocada no
investimento em educação. Em vez de pagar dividendos aos investidores
de Wall Street, o governo propõe investir em nossas crianças e jovens e
nas próximas gerações de brasileiros.
Por isso, é fundamental reafirmarmos: o pré-sal é educação!
9 - Proteção ambiental x degradação ambiental
O Brasil é o país com o mais complexo e variável ecossistema do
planeta. A nossa diversidade ambiental nos coloca frente a grandes
responsabilidades e desafios. A fauna, a flora, a floresta amazônica, a
floresta tropical, os campos, o cerrado, as bacias hidrográficas, o
Aqüífero Guarani e todo o rico bioma precisam de permanentes estudos. O
desafio de conhecer e proteger esse complexo meio ambiente será
decisivo para o nosso futuro. O desenvolvimento sustentável, a luta
contra a degradação ambiental e a racionalidade energética precisam
estar à frente de todas as políticas públicas e privadas no próximo
período.
Dentre as preocupações e desafios está o aquecimento global, derivado
em grande parte pela emissão de Co2 na atmosfera, em função da
combustão da energia fóssil. Nessa particularidade, o petróleo extraído
do pré-sal será responsável em grande parte pela poluição ambiental do
mundo nas próximas décadas, o que nos coloca como co-responsável na
luta pela preservação do meio ambiente e reversão da degradação
ambiental planetária.
Não podemos, em hipótese alguma, agir de forma irresponsável e
incompatível com o grau de poluição que estaremos acumulando na
biosfera global. Com essa preocupação, o Estado brasileiro precisa
disponibilizar parte do lucro auferido pela exploração do pré-sal para
estudos e pesquisas na recuperação e preservação do meio ambiente.
Por isso, é fundamental reafirmarmos: O pré-sal é meio ambiente saudável!
10 – Petrobras x Petrosal
A Petrobras, criada em outubro de 1953, depois de uma intensa luta
popular, é hoje uma das maiores empresas petrolíferas do mundo,
detentora de tecnologia e conhecimento que envolve toda a cadeia
produtiva do petróleo. Durante o governo FHC, a estatal foi duramente
atacada e caminhava para a privatização. A manobra utilizada pelos
tucanos era desacreditar a empresa perante a opinião pública para então
realizar a política das transnacionais do petróleo. Não estava no
pensamento dos neoliberais brasileiros a possibilidade da vitória
eleitoral de Lula em 2002, que durante a campanha, propunha resgatar a
empresa para os objetivos estratégicos do país.
Passados quase sete anos de governo, podemos afirmar que, entre as
propostas defendidas pelo então candidato Lula, as relacionadas à
Petrobras foram certamente as que mais prosperaram. Mesmo perdendo
parte importante dos lucros, que hoje são divididos pelos acionistas
nas bolsas de valores mundo afora, a empresa expandiu e consolidou-se
no mercado interno e externo. É importante frisar que 63% das ações da
empresa foram entregues a acionistas privados.
É neste novo cenário de descoberta realizada pela Petrobras na camada
do pré-sal que o país volta a debater o valor estratégico do petróleo
para o futuro do país. Podemos afirmar que o ouro das Minas Gerais, que
em parte financiou a revolução industrial na Inglaterra, nos séculos 18
e 19, em detrimento do desenvolvimento do Brasil, volta hoje sob a
forma do ouro negro. A nação brasileira não pode, em hipótese alguma,
perder essa nova oportunidade oferecida pela mãe natureza.
Com esse propósito, o governo do presidente Lula enviou ao Congresso
Nacional a proposta de fortalecer a Petrobras através da recompra de
partes das ações que estão em mãos de empresas nacionais e
internacionais, como forma de fortalecer o caráter público e estatal da
empresa e diminuir os repasses de dividendos aos acionistas. O governo
propõe ainda a constituição de uma empresa estatal para controlar,
fiscalizar, potencializar e racionalizar a exploração do petróleo a
partir dos interesses do Estado brasileiro e do povo brasileiro.
Novamente os setores traidores da pátria se colocam contra a iniciativa
do governo de fortalecer as empresas nacionais e o petróleo brasileiro.
Querem, em última instância, diminuir ou extinguir o controle público e
estatal desta potencial riqueza nacional e entregá-la aos interesses
privados internacionais. A Petrobras é Brasil, a Petrosal é povo, o
petróleo é nosso!
Por isso, é fundamental reafirmarmos: o pré-sal é Petrobrás, é Petrosal, e o petróleo é do Brasil!
* Presidente do Sinpro - MG - Sindicato dos Professores e dirigente nacional da CSC.

