Entrevista José Souza: "A correlação de forças é determinante para uma greve ser bem-sucedida"
Para o presidente José Souza, só existe negociação exitosa com a categoria mobilizada. "Fizemos o que foi possível. Se tivéssemos que fazer, faríamos tudo de novo. No geral tivemos o cuidado de fazer o que tinha de ser feito. Tudo isso confirmando o compromisso com os bancários. Eu costumo dizer que nós não temos banco, somos uma direção dos bancários", afirma Souza. Veja entrevista dele a seguir.
Resistência - Fazer greve é sempre muito difícil. Quais as maiores dificuldades encontradas na mobilização deste ano?
José Souza - As dificuldades são muitas, pelo que representa o sistema financeiro para a sociedade, que busca nele a resolução de várias demandas do seu dia-a-dia, desde o pagamento de contas, boletos de compras feitas no comércio, a recebimento de salários, sem contar as atividades mais complexas, chegando a demandas como viagens internacionais, com busca ao setor de câmbio, de forma que isso tudo gera pressões da sociedade. O próprio patronato unido, no caso aqui em Sergipe, a participação do Banese, com pressão dos setores ligados ao Estado. Mas o que é determinante é a correlação de forças. Por que a greve no Banco do Brasil foi melhor sucedida? Porque foi forte. No caso dos bancos privados não acontece o mesmo, porque falta a unidade dos bancários.
Resistência - Como enfrentaram os interditos proibitórios?
JS - No caso do Banese, as mudanças ainda estão muito limitadas. O próprio presidente Saumíneo teve que se esforçar muito para não ser dominado por parte de sua diretoria, que tem uma visão muito atrasada, e implementar coisa desse tipo, do interdito, com a justificativa de que fizeram isso por serem gestor público. O Banco do Brasil e a Caixa Econômica também são empresas públicas, inclusive de âmbito nacional, e não fizeram isso. Não se trata apenas de ser gestor público, porque ‘tem gestor público e gestor público'. O que nós estamos tratando é um, cuja gestão é de um banco estadual, que tem o Estado de Sergipe como controlador principal e que tem à frente um governo dito progressista. Portanto, essa é uma falha dessa gestão, que vê a greve como um crime e daí busca o seu desfecho na Justiça, inclusive para que a greve não aconteça. Essa foi uma dificuldade que a gente teve, não apenas com o Bradesco, com o Itaú, mas também com o Banese (Banco do Estado de Sergipe).
Resistência - O Comando de greve tem que saber a hora certa de entrar e sair da greve. Em todos os bancos ela foi até o limite?
JS - Tudo na vida tem uma medida. Em alguns bancos, no que diz respeito à questão da greve, ainda temos enormes dificuldades, pela forma como se dá o embate capital-trabalho no dia-a-dia. O banco privado é muito conservador, eu diria até muito truculento, mesmo assim conseguimos fazer com que a greve acontecesse em alguns bancos, a exemplo do HSBC, Real, Mercantil e Rural, e temos como destaque mais nefasto o Bradesco e o Itaú Unibanco. Temos ainda muito por trabalhar para elevar o nível de consciência do bancário do banco privado, entendendo que não é algo simples, é muito complexo. Por exemplo: o Bradesco, como é uma empresa com dono, se dá ao luxo de permitir que os gerentes empreguem os filhos, os afilhados, criando uma cadeia de muita amarração. Então fica difícil fazer greve. O pai acaba sendo um instrumento de exploração e, às vezes, aliena a própria família.
Resistência - O que a direção elege como destaque nessa greve de 2009?
JS - A primeira questão que acho que deve ser levada em conta é que cada greve tem a sua história. Tudo está em constante movimento, alteração, e com a categoria, os trabalhadores, isso não é diferente. Temos que ter o entendimento da heterogeneidade das coisas. A categoria é extremamente heterogênea, com bancários de bancos públicos federais e estadual e da rede privada. Nesse coletivo de homens e mulheres há aqueles que têm mais tempo na atividade do ramo financeiro, aqueles mais novos, que ingressaram há menos tempo, e a greve tem que ser feita por esse conjunto com as suas diversidades. Nessa greve, a gente contou com a participação no mesmo nível dos bancos federais, mas, como destaque, eu registraria a participação dos bancários do Banese, que foi fruto de um trabalho que começamos há algum tempo, mas vem ganhando contornos a partir de 2007; que em 2008 foi melhor que 2007; e em 2009 foi muito melhor que 2008. O que contribuiu foi a soma dos fatores que estavam meio latentes e que se explicitaram de uma maneira melhor.
Resistência - Deu para tirar uma lição para os próximos ‘combates'?
JS - Tudo terá que ser levado em conta, assim como levamos em conta a realidade deste ano, tendo como parâmetro o ano passado e os anos anteriores. Com certeza, nas próximas campanhas salariais teremos que levar tudo em conta, sob pena de, se quisermos aplicar tudo mecanicamente, cometermos graves erros, e nós não temos esse direito. Temos que ficar o tempo todo observando, porque o que está em jogo não é a questão do desejo, mas um fator chamado realidade concreta.

