"Ideia de posse" é o principal motivo de agressão de homens contra mulheres, afirma pesquisador
"Metade dos casos de homens que assumiram que agridem e mulheres que assumiram que são agredidas remete a uma discussão sobre fidelidade, com ideia de posse de um sobre o outro, o que mostra claramente a mentalidade machista e conservadora que há no país", revela o pesquisador.
Dados da pesquisa realizada em 2010 com homens e mulheres revelam que 8% dos homens entrevistados admitem já terem batido “em mulher ou namorada”. Um quarto (25%) diz saber de “parente próximo” que já agrediu a parceira e quase metade (48%), afirma ter "amigo ou conhecido que bateu ou costuma bater na mulher".
Venturi analisa que "já é tempo de discutir mais abertamente essa questão sobre o direito quase de propriedade sobre o corpo do outro". "Essa noção de que o cônjuge tem direito de posse sobre o corpo do outro e de determinar o que o outro pode fazer ou não e com quem deve estar ou não precisa ser discutida", alerta o pesquisador.
O sentimento de posse estaria implícita em ideias corriqueiras, expressas por ditados populares, mas também pode ser percebida em casos extremos. "Essa questão pode variar desde 'quem ama tem ciúme' com implicações leves, mas pode chegar aos casos extremos que vemos com muita frequência daquele sujeito que diz 'se não é comigo não será com ninguém' e mata sua companheira ou ex-companheira", descreve.
Violência subestimada
Pela primeira vez, a pesquisa ouviu homens além de mulheres. Entretanto, Venturi vê os 8% que admitem terem agredido a esposa ou namorada com cautela, já que o índice real deve ser ainda maior. Para evitar que o mesmo ocorresse na amostra feminina, somente pesquisadoras entrevistaram mulheres, sem a presença de outras pessoas, principalmente o próprio agressor, já que 80% deles são maridos ou namorados.
De acordo com o levantamento, 18% das mulheres consideram já ter sofrido alguma vez "algum tipo de violência de parte de algum homem, conhecido ou desconhecido"; 40% já teriam sofrido alguma modalidade de violência, ao menos uma vez na vida; 24% algum tipo de controle ou cerceamento; 23% alguma violência psíquica ou verbal, e 24% alguma ameaça ou violência física propriamente dita.
Entre as modalidades de violência mais frequentes, 16% de mulheres já levaram tapas, empurrões ou foram sacudidas, 16% sofreram xingamentos e ofensas recorrentes devido a sua conduta sexual e 15% foram controladas a respeito do local aonde iam e com quem sairiam. Além disso, 13% sofreram ameaças de surra e 10% já foi de fato espancada ao menos uma vez na vida.
A pesquisa também constatou que a continuidade de vínculo marital é mais alta nos casos de violência psíquica. De 29% a 43% das mulheres mantêm o relacionamento. A manutenção do vínculo com o agressor também permanece em 20% dos casos de espancamento e mais de 30% diante de diferentes formas de controle e cerceamento.
Apesar de tudo, avanços
A violência contra a mulher já foi pior, lembra o cientista político.
A pesquisa de 2010 detectou avanços em relação ao mesmo levantamento em
2001, apesar do quadro de violência. Antes 8 mulheres sofriam violência
a cada 2 minutos, agora estima-se 5 mulheres a cada 2 minutos. “(O
levantamento) aponta tendência de melhora, mas ainda num quadro de grave
violência”, argumenta o cientista político.
“Isso exige intervenção forte de políticas públicas para combater esse fenômeno”, aborda.
O
levantamento também identificou que 90% dos entrevistados, tanto homens
como mulheres, demonstraram conhecer a Lei Maria da Penha. Contudo,
ainda não é possível detectar se a lei reduziu a violência. “Os
resultados não permitem estabelecer uma relação direta entre causa e
consequência entre a Lei Maria da Penha e essa percepção do tema da
violência”, constata.
Venturi analisa que a lei tem papel punitivo e preventivo. “É legítimo imaginar que a existência da lei tenha contribuído sim para a tendência de melhora da situação da mulher já que boa parte dos homens conhece e têm (isso) no horizonte antes de cometer o ato de violência”, acrescenta o pesquisador.

