Brasil está atrás de muitos países da região quanto a abolir a Lei da Anistia, diz Anistia Internaci
Agência Brasil – O senhor visitou o Brasil em
outubro para saber como está a situação dos direitos humanos no país.
Como foi a visita? O senhor conversou com representantes do governo,
movimentos sociais, associações de moradores e dos povos indígenas?
Patrick Wilcken
- A Anistia Internacional visitou o Brasil em outubro do ano passado,
quando nos encontramos com várias autoridades estaduais, representantes
de organizações não governamentais (ONGs) e movimentos sociais. Também
visitamos várias comunidades sob ameaça de despejo. Uma delegação de
alto nível, chefiada pelo secretário-geral Salil Shetty, também visitou o
Brasil há duas semanas, no fim de abril. Durante a visita, Salil Shetty
ouviu denúncias de violência policial e acusações de despejos forçados
na comunidade de Cidade Alta, na Ilha do Governador, perto do Aeroporto
Internacional do Rio de Janeiro. O senhor Shetty também se reuniu com
ministro Antonio Patriota [das Relações Exteriores] para discutir os
planos da Anistia para abrir um escritório no Brasil.
ABr – A presidenta Dilma Rousseff tem ressaltado os
direitos humanos como uma das prioridades de governo. Como o senhor
avalia a questão dos direitos humanos no país?
Wilcken
– O que a Anistia Internacional tem visto até agora é que há algumas
inconsistências sobre o assunto. No lado positivo, o governo pareceu
mudar sua posição sobre o Irã, apoiando o envio de um relator especial
sobre os direitos humanos ao país. O governo também apoiou a criação de
um mecanismo de prevenção contra a tortura, em conformidade com o
Protocolo Facultativo da Organização das Nações Unidas. Mas o governo
reagiu de forma muito negativa em relação as medidas cautelares emitidas
pela Comissão Interamericana da Organização dos Estados Americanos
(OEA) de pedir a suspensão do licenciamento do projeto da Hidrelétrica
de Belo Monte até que as consultas com os potencialmente afetados pelo
projeto sejam feitas. A resposta do governo ameaça minar a autoridade do
sistema interamericano, que continua a ser o mais importante fórum dos
direitos humanos na região.
ABr - As comunidades indígenas são uma das que mais
sofrem no país. Eles reclamam constantemente da falta diálogo com o
governo. A situação também é grave no estado de Mato Grosso do Sul, onde
as comunidades Guarani-Kaiowá sofrem perseguições constantes por
pistoleiros contratados por fazendeiros locais. O que os povos indígenas
disseram à organização?
Wilcken - A Anistia
Internacional visitou comunidades Guarani-Kaiowá em várias ocasiões ao
longo dos últimos anos. Eles disseram que, acima de tudo, o que querem é
que seus direitos constitucionais sejam respeitados em relação às suas
terras ancestrais. Eles também querem justiça, incluindo a investigação
aprofundada e independente em todos os casos de violência contra suas
comunidades e de segurança para eles e suas famílias contra ataques
futuros.
ABr - A criação da Comissão Verdade é outra questão
que vem sendo discutida há quase um ano. O senhor acredita que esta
comissão será instalada sem conflitos entre a sociedade, o governo e os
militares?
Wilcken – O Brasil está atrás do resto da
região como um dos poucos países que não aboliram ou pelo menos não
reinterpretaram a sua Lei de Anistia. A Anistia Internacional opõe-se às
anistias, pois, segundo o direito internacional, elas não são válidas
para crimes contra a humanidade, como tortura e desaparecimento. Mesmo
que essa ideia dos movimentos para criar uma Comissão da Verdade seja
bem-vinda, a Anistia Internacional exige não apenas a investigação sobre
o que aconteceu, como a divulgação completa dos arquivos militares e
reparação integral às vítimas, parentes, mais a abertura de processos
contra agentes do Estado por tortura e desaparecimentos.
A Secretaria Nacional de Direitos Humanos informou que só vai se pronunciar sobre o documento da Anistia Internacional amanhã (13).

