Federação e Sindicato denunciam Itaú na Setre por práticas que agravam adoecimento de bancários na Bahia

A Federação dos Bancários da Bahia e Sergipe (FEEBBA/SE) e o Sindicato dos Bancários da Bahia (SBBA) participaram de uma reunião estratégica na Secretaria do Trabalho, Emprego, Renda e Esporte (SETRE) nesta quinta-feira, 26 de junho, para formalizar denúncias contra o Banco Itaú por práticas que atentam contra a saúde e a dignidade de funcionários adoecidos. O encontro contou com a presença do secretário Augusto Vasconcelos e dos auditores fiscais do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), Lidiane Barros e Paulo Conceição, representantes da Superintendência Regional do Trabalho, visando a apuração de condutas que intensificam o sofrimento psicológico e físico da categoria bancária no estado.
As entidades sindicais apresentaram um dossiê detalhado sobre os mecanismos utilizados pelo Banco Itaú que, segundo as denúncias, configuram um cerceamento ao direito de recuperação dos trabalhadores. Entre os pontos centrais levados à SETRE, destacam-se:
Impugnação de Atestados: O uso das chamadas "Salas Ocupacionais" para questionar, reduzir prazos ou invalidar afastamentos fixados por médicos assistentes externos.
Convocações Indevidas: A chamada sistemática para exames periódicos (ASO) e Avaliações de Capacidade Laborativa (ACL) de funcionários que já se encontram legalmente afastados por motivos de saúde.
Advertências Automáticas: A aplicação de sanções disciplinares a trabalhadores adoecidos, inclusive em períodos de impossibilidade de locomoção ou enquanto aguardam a realização de perícia médica junto ao INSS.
Durante a reunião, foi entregue um parecer jurídico robusto, elaborado conjuntamente pelo SBBA e pela FEEB BA/SE. O documento fundamenta-se em evidências colhidas diretamente com os bancários prejudicados e aponta que, embora o tema venha sendo debatido no Grupo de Trabalho (GT) de Saúde com o banco, os entraves nas convocações e as punições automáticas persistem, exigindo a intervenção do Poder Público.
A diretora da FEEBBASE, Luciana Dória, enfatizou que a entrega do parecer jurídico foi mais uma ação de enfrentamento a essas práticas. "A saúde é um direito fundamental e inegociável. O empregador tem o dever legal de prevenir o adoecimento e promover um ambiente saudável, especialmente sob a égide da nova NR-1. O que vemos hoje é o oposto: uma intensificação do sofrimento através de práticas que geram pressão psicológica insustentável", afirmou.
A assessora jurídica da FEEBBASE, Tatiana Rossini, destacou a gravidade técnica das ações do banco. "A ausência de fundamentação técnica e de transparência nesses procedimentos representa uma violação direta ao direito à saúde, à informação e à dignidade da pessoa humana. Tais condutas contrariam os princípios preventivos da NR-1. Defendemos a construção urgente de protocolos transparentes e alinhados às boas práticas de governança", pontuou Rossini.
Para a vice-presidente da FEEBBASE, Thaise Mascarenhas, a reunião cumpriu o papel de dar visibilidade institucional ao problema. "Conseguimos evidenciar aos auditores e ao secretário as práticas do Itaú que dificultam o acesso a direitos e agravam o adoecimento, especialmente nos casos de saúde mental. Esperamos que este diálogo resulte em medidas concretas para coibir tais abusos", declarou.
O presidente do SBBA, Elder, traçou um panorama crítico sobre o setor. "O comportamento do Itaú agrava uma situação preocupante. O trabalho bancário, em sua essência atual, adoece devido à cobrança de metas abusivas, assédio moral e o medo constante da perda de função. O que o banco implementa hoje coloca em risco a segurança psicológica de todo o corpo funcional", alertou.
O secretário da SETRE, Augusto Vasconcelos, reafirmou o compromisso do governo estadual com a pauta. "A saúde e a segurança dos trabalhadores são prioridades. Através da agenda do trabalho decente, teremos uma atuação firme. Essas denúncias serão rigorosamente apuradas. A presença da auditoria fiscal foi fundamental para que o Poder Público possa agir e cobrar responsabilidade do banco na preservação da saúde física e mental de seus colaboradores", garantiu o secretário.
Ricardo Guimarães, diretor do SBBA e funcionário do Itaú, abordou a percepção interna sobre as mudanças na gestão de saúde do banco. "A impressão é que estudam práticas para minar cada vez mais os seus funcionários adoecidos, criando um ambiente de constante insegurança", concluiu.
As denúncias apresentadas na Bahia não são isoladas. Em maio de 2026, o Banco Itaú já havia sido alvo de críticas em âmbito nacional por dificultar o afastamento de trabalhadores. O cenário coincide com a entrada em vigor da atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que exige das empresas o gerenciamento rigoroso de riscos psicossociais.
Dados do Ministério da Previdência Social reforçam a urgência do debate: as licenças por ansiedade e depressão no Brasil saltaram de 91,6 mil em 2020 para 472 mil em 2025/2026, sendo que 64% dos casos acometem mulheres com idade média de 41 anos. No setor bancário, esses índices são historicamente superiores à média de outras categorias profissionais.
