CTB presta homenagem aos que resistiram ao golpe
“Se entrega, Corisco! Eu não me entrego não! Eu não sou passarinho pra viver lá na prisão” dizem os versos do compositor Sérgio Ricardo, traduzindo a resistência do povo contra a ditadura militar e pela democratização do país.

O cantor foi um dos artistas que se apresentou na noite da última quarta-feira (2), no teatro da Pontifica Universidade Católica de São Paulo, o Tuca – que foi palco da resistência de estudantes, professores e artistas - em ato político-cultural em homenagem aos que lutaram contra o regime imposto no país.
Conduzido pelo ator Sérgio Mamberti, a atividade contou com a presença de centrais sindicais, movimentos sociais, estudantis, partidos políticos da esquerda, militantes, representantes da comissão da verdade e de familiares dos que viveram aquele período.
“Pensaram que iriam calar a nossa voz. Erraram! Quase 30 anos depois, olha nós aqui de novo”, expressou o ator ao lembrar-se do incêndio e da invasão do local promovido pelos militares naqueles anos.
“O Brasil iria se tornar uma potência se as reformas de base [defendidas por Jango] fossem realizadas”, afirmou o neto de do ex-presidente Goulart, João Alexandre. Ele denunciou a participação dos empresários que financiaram órgãos como o Ipês (Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais) e o Ibad (Instituto Brasileiro de Ação Democrática), responsáveis por campanhas em prol dos militares.
Ele também citou o apoio do imperialismo estadunidense com ações como a Operação Brother Sam, organizada para garantir o sucesso do golpe, caso houvesse reação dos militares que apoiavam João Goulart.
Consignas como “Jango presente! Agora e sempre”, “Ditadura nunca mais”, foram clamadas pelos participantes entre apresentações como a do Coral Luther King, regido por Martinho Lutero,que interpretou canções de protesto como a composição italiana “Bella Ciao”, “O bêbado e o equilibrista” e “A Internacional”.
O poeta brasileiro Thiago de Melo que em 1964 trabalhava como adido cultural no Chile contou como recebeu a notícia de que seu país tinha sofrido um golpe. Emocionado, ele lembrou-se das palavras proferidas pelo poeta chileno Pablo Neruda, após ouvirem pelo rádio o discurso de Jango.
“Ele me falou ‘o teu povo não vai sair às ruas para defender a liberdade, isso jamais vai acontecer no Chile, no dia que os militares erguerem a cabeça até as empregadas sairão as ruas com suas vassouras para defenderem a democracia’ [...] Mas o povo mostrou que é capaz! Esse povo sabe lutar”, expressou ao recordar de movimentos de resistência como as Diretas Já.
Thiago contou que Salvador Allende, que no dia 11 de setembro de 1973, quando presidia o país andino, foi deposto pelos militares, lhe disse: “Vejo este golpe no Brasil como uma porta que se abre para uma sucessão de golpes na América Latina da qual talvez nem o Chile iria escapar”, previu o socialista.
Lideranças como a presidenta da União Nacional dos Estudantes (UNE), Virgínia Barros, fez questão de recordar da importância do movimento estudantil na luta pela democratização do país, ao lembrar de episódios como o Congresso de Ibiuna, o assassinato do estudante secundarista Edson Luíz pela polícia militar entre outros fatos que marcaram aqueles anos de terror.
Já o presidente do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), Renato Rabelo, homenageou os heróis da Guerrilha do Araguaia e destacou que nestes cinqüentas anos ainda é preciso fazer uma reforma na política e a democratização da comunicação. Ele também sublinhou o protagonismo da classe trabalhadora como no caso do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que liderou as greves nas fábricas na região do ABC.
Conforme o presidente da CTB, Adilson Araújo, a classe trabalhadora foi a que mais sofreu as conseqüências do golpe, com a intervenção em sindicatos, muitos dirigentes foram perseguidos, torturados, mortos e desaparecidos.
Veja a íntegra do discurso do presidente nacional da CTB, Adílson Araújo:
Os presentes também exigiram a revisão da Lei da Anistia, para que os que cometeram crimes de lesa humanidade sejam punidos e que barbáries como as que ocorreram no período não ocorram mais no país.
Antes do ato político-cultural, houve a inauguração do “Monumento Nunca Mais” na PUC pelo projeto Marcas da Memória da Comissão de Anistia, em parceria com o Instituto Alice. Os monumentos são como totens situados em espaços simbólicos da resistência à ditadura. Durante a inauguração os manifestantes ressaltaram que "O Brasil não pode esquecer que a democracia foi à custa de muitas vidas" ao levantarem as fotos dos mortos e desaparecidos. "Pelo direito a memória e verdade para que a ditadura não se repita jamais", enfatizaram.
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