Diminuição da desigualdade no Brasil espelha mudanças ocorridas no mundo
“Aqui, no Brasil, a desigualdade cai porque a renda cresce no Nordeste; e cresce mais entre analfabetos, negros, moradores de favelas, campesinos e trabalhadores da construção. E no mundo? A desigualdade cai porque a China e a Índia estão crescendo muito”, explica o economista Marcelo Neri, chefe do CPS/FGV. Na opinião dele, a comparação dos índices mostra que “o Brasil é uma maquete muito próxima do mundo”.
Semelhanças à parte, Neri chama a atenção para a diferença de
dinâmicas entre o Brasil, a China e a Índia. Segundo ele, na última
década, o Brasil diminuiu a desigualdade interna ao mesmo tempo em que
registrou crescimento econômico. Na China e na Índia (que concentram
metade dos pobres do mundo e onde o crescimento do Produto Interno Bruto
é maior que o crescimento do PIB brasileiro), a desigualdade “está
explodindo”.
Segundo Marcelo Neri, o Brasil espelha a
desigualdade existente no mundo porque “os mais pobres do Brasil são tão
pobres quanto os mais pobres da Índia; e os mais ricos brasileiros não
são menos ricos do que os mais ricos americanos. O Brasil está em todas
as partes e ainda tem muita desigualdade”, disse em entrevista à Agência
Brasil, destacando que o país tem muitos problemas para atacar.
Para
Neri, a desigualdade persistente faz com que o Brasil continue a ser
chamado, “por um bom tempo”, de “Belíndia” - termo criado pelo
economista Edmar Bacha na década de 1970 para dizer que o Brasil tinha
um pedaço rico e desenvolvido como a Bélgica e um pedaço pobre e
subdesenvolvido como a Índia.
Marcelo Neri acrescenta que a
“Belíndia continua atual” porque hoje “o lado pobre do Brasil cresce
tanto quanto a economia da Índia; e o lado belga [rico] está tão
estagnado quanto os países europeus. A Bélgica hoje é um país
desenvolvido, mas estagnado. Ela é predominantemente católica como o
Brasil”, compara.
Segundo a análise feita pelo CPS/FGV, a renda
dos 50% mais pobres no Brasil cresceu quase seis vezes (580%) mais
rápido do que a renda dos 10% mais ricos na década passada. A ascensão
desse contingente, chamado por Neri de “nova classe média”, explica em
parte o crescimento econômico recente. A economia cresce à medida que a
desigualdade acumulada diminui. “Boa parte dessa ascensão da classe
média vem da recuperação de atrasos históricos que ainda estão
presentes, mas estão passando”, aponta.
Na opinião do
economista, os dados mostram que o Brasil “está ficando um país normal”.
Ele lembra que “em 1990, a gente tinha 17% das crianças fora da escola;
e em 2000, passou para 4%; e agora, o percentual é menos de 2%”.
Segundo ele, além da expansão do acesso à escola, o país está entre as três nações que mais se destacam na melhoria dos indicadores de aprendizagem.
A
melhora do desempenho escolar ilumina “o lado brilhante da base da
pirâmide”, descrito por Neri em seu novo livro A Nova Classe Média,
lançado na semana passada no Rio de Janeiro.
De acordo com o economista, a educação, juntamente com a redução da
fecundidade das brasileiras e a chegada de mais pessoas ao mercado de
trabalho com carteira assinada, explicam melhor a ascensão da classe
média (classe C) do que a dependência de políticas sociais e do crédito
facilitado.
Uma das teses defendidas pelo economista é
que o crescimento da nova classe média “não é apenas sonho de uma noite
de verão” e se a educação continuar melhorando diminuirá ainda mais
desigualdade. “Se fizermos o dever de casa com a educação vai ser
possível o Brasil continuar dando salto”, avalia.

