Grandes empresas de comunicação querem atropelar conferência
Como já se temia, as grandes empresas de comunicação
estão tentando patrolar os representantes das pequenas empresas do
setor no processo de eleição de delegados para a Conferência Nacional
de Comunicação, que será realizada de 14 a 17 de dezembro, em Brasília.
No processo preparatório para a Conferência Estadual de Comunicação de
São Paulo, que ocorrerá neste fim de semana, os representantes das
grandes empresas querem impedir que as pequenas empresas de comunicação
do Estado de São Paulo, possam eleger um delegado sequer. A tese
esdrúxula apresentada por eles é que as portarias que regulamentam a
Conferência Nacional determinariam que um único voto contrário de um
dos representantes da chamada “sociedade civil empresarial” bastaria
para impedir o andamento de qualquer uma de suas propostas.
Encerradas
as inscrições nesta terça-feira, dia 17 de novembro, apurou-se que o
Poder Público teve 118 inscrições, a sociedade civil, 509 inscritos e a
sociedade civil empresarial, 422 inscrições. Destas 422 inscrições da
sociedade civil empresarial, cerca de 60% é de representantes das
grandes empresas. A esmagadora maioria destes é composta de empregados
destas empresas que possivelmente serão “obrigados” a comparecer e
votar naquilo que seus patrões determinarem. A Carta Maior está
encaminhando providências junto ao Ministério Público do Trabalho, para
a averiguação desses fatos.
Com a maioria assegurada no setor
da sociedade civil empresarial, as grandes empresas querem agora
aplicar a tese da votação pelo sistema binário (utilizada nos EUA, onde
quem tem mais voto leva todos os delegados). Já os representantes das
pequenas empresas defendem corretamente a obediência democrática da
proporcionalidade. Ou seja, se as grandes empresas conseguiram 60% de
inscritos e os pequenos empresários 40%, dos 84 delegados que o setor
empresarial deverá eleger, a relação será de 50 para 34.
Trata-se
de um movimento que pretende passar um rolo compressor sobre os
pequenos empresários da comunicação. Para isso, os representantes das
grandes empresas, desrespeitando a decisão unânime da Comissão
Organizadora da 1ª Conferencia Estadual de Comunicação, que aprovou por
unanimidade o Regulamento da Conferência Estadual, apresentaram um
recurso descabido à Comissão de Organização Nacional.
Esse
regulamento prevê que os critérios para a eleição dos delegados à
Conferência Nacional, sejam definidos por cada segmento. A tradição
democrática deste tipo de encontro obedece ao princípio da
proporcionalidade, com o que os representantes das grandes empresas não
concordam, em evidente afronta aos mais comezinhos princípios
democráticos, bem como ofendendo a tradição brasileira, estabelecida na
Constituição Federal, no Congresso Nacional, no Poder Judiciário, e
inclusive nos encontros estudantis, desde os anos 60 e 70, de penosa
lembrança.
Na verdade, as grandes empresas, representadas pelas
companhias filiadas à Telebrasil como, por exemplo, Telefônica, TIM e
Oi, em conjunto com o grupo Bandeirantes e a Rede TV, estão querendo
dar um golpe no processo de escolha de delegados, alijando os demais
setores da sociedade civil empresarial. É importante lembrar que o
objetivo da Conferência Nacional de Comunicação é atender aos
interesses da população brasileira e não de um grupo de empresas, cujo
objetivo principal é o lucro. Logo após o governo federal convocar a
Conferência Nacional de Comunicação, seis das oito entidades
empresariais (incluindo aí a Rede Globo e os grandes jornais do país)
abandonaram a comissão organizadora do evento, demonstrando o pouco
apreço que tem pela democracia. A saída dessas entidades, que desprezam
a idéia da comunicação e da informação como direitos da população, não
garante, porém, por si só, as profundas mudanças que o setor necessita.
Somente com a ampla participação de todos é que podemos mudar a atual
situação da mídia no país.
Diante desse quadro, a Carta Maior
repudia a tentativa das grandes empresas de comunicação de melar o
processo da conferência com práticas autoritárias e excludentes. A
primeira Conferência Nacional de Comunicação é uma conquista do povo
brasileiro e não mais um produto a ser apropriado por estruturas
monopolistas que se recusam a entender o significado da palavra
democracia.

