Renda das famílias cresce bem acima do PIB per capita, aponta Ipea
A diferença entre renda familiar e PIB per capita é ainda maior caso a conta per capita das famílias seja feita pelo critério de mediana, que mostra a tendência central. Marcelo Neri, presidente do Ipea, ressalta que, por essa ótica, fica mais evidente a melhora de vida do brasileiro médio: entre 2003 e 2011, a alta acumulada nessa métrica foi de 65,9%. As informações são da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Dados preliminares evidenciam que essa situação se aprofundou em 2012. No ano passado, o PIB per capita ficou estagnado (já que o PIB e a população mostraram a mesma taxa de crescimento, de 0,9%), enquanto a massa salarial subiu 5,2%, de acordo com a Pesquisa Mensal do Emprego. A mediana da renda real habitualmente recebida, por sua vez, aumentou 7,5%, em linha com o reajuste do salário mínimo.
Também influenciados pelo aumento acima da inflação, as rendas provenientes do Bolsa Família e da Previdência Social subiram ainda mais (12,2% e 6,1%, respectivamente), sempre em termos reais per capita, de acordo com estimativas do Ipea. "Imaginamos que a renda não sustentará esse crescimento indefinidamente, mas o ponto é que esse momento ainda não chegou", afirma Neri.
Como reflexo do aumento real dos salários, nos dados detalhados das contas nacionais - que medem o PIB - a chamada renda do trabalho tem crescido mais que renda do capital. Os últimos dados disponíveis são de 2009. Naquele ano, o fator trabalho atingiu uma participação recorde na década - 43,6% do PIB. No mesmo ano, a proporção da renda que correspondeu à remuneração do capital ficou estável, correspondendo a 33,2% do produto interno, percentual que indica uma diferença de quase 10 pontos entre os dois principais grupos detentores da renda. Quatro anos antes, em 2005, a diferença entre capital e trabalho era de cinco pontos quando o PIB era analisado pela ótica da renda.
Entre as razões para o maior crescimento da renda, os economistas apontam a política de remuneração do salário mínimo, o crescimento do setor de serviços (que pressionou o mercado de trabalho), as políticas sociais e os baixos ganhos de produtividade. E, como consequência ruim, eles apontam a inflação.
Na opinião de Luiz Fernando de Paula, professor da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), a política de valorização do salário mínimo tem papel central na dinâmica de renda que cresce acima do PIB, já que a Pnad captura essencialmente a renda do trabalho, além das transferências governamentais. Por causa da regra de reajuste, que leva em consideração o PIB de dois anos antes, o mínimo subiu bastante nos últimos dois anos, mesmo sem crescimento mais expressivo da economia. "O governo fez uma opção pela recomposição dos salários de base e a economia não quebrou, como diziam que aconteceria. Por outro lado, há efeitos colaterais, e um deles é que se quiserem manter essa política, será preciso acomodar inflação maior."
Por ser decorrente de uma mudança estrutural - no caso, o crescimento do setor de serviços, impulsionado pelo aumento da renda - é válido tolerar uma inflação mais elevada do que em outros países em desenvolvimento, argumenta o presidente da Associação Keynesiana Brasileira (AKB). De Paula, no entanto, alerta que é preciso cautela para não permitir descontrole dos preços, movimento que corrói o avanço real dos salários.
Na avaliação do professor da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), José Márcio Camargo, aumentos salariais acima da produtividade, como vem ocorrendo no Brasil, têm custos econômicos sérios que estão ficando mais visíveis. "No longo prazo, essa situação é absolutamente insustentável. O empresário industrial olha para frente e sabe que sua margem vai cair, o que não é um incentivo para investimentos."
Por competir com produtos importados, o segmento manufatureiro encontra mais dificuldade para repassar aos consumidores a elevação do custo com mão de obra. No ano passado, o PIB industrial amargou queda de 0,8%, enquanto a economia avançou 0,9%, sustentada, do lado da oferta, pelo setor de serviços.
Na avaliação de Márcio Camargo, é preciso desaquecer o mercado de trabalho, via aumento de juros, para gerar ganhos de rendimento compatíveis com o crescimento da produtividade. É uma decisão política difícil, reconhece o economista, "mas na atual trajetória, em algum momento o desemprego vai aumentar e já começamos a ver uma corrida entre preços e salários. A inflação voltou a ser assunto."
Para Marcelo Neri, do Ipea, é preciso ter uma agenda que atenda os dois lados: tanto a indústria e o setor produtivo, com redução de custos, quanto a população menos favorecida, por meio de programas assistenciais, como o recém-lançado Brasil Carinhoso.
Uma questão estatística também pode estar influenciando na discrepância entre a evolução, do PIB per capita e da renda domiciliar, afirma Neri. O deflator implícito do PIB aumentou muito mais nos últimos anos do que o Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC). Em um exemplo simplista, Neri destaca que, caso o PIB fosse deflacionado pelo índice de preços ao consumidor, a alta entre 2003 e 2011 seria de 48%. Ou seja, em termos nominais o produto avançou mais do que a renda nesse período, argumenta o presidente do Ipea.
Fonte: Tainara Machado - Valor Econômico

