Unidade das centrais será algo decisivo para garantir o desenvolvimento do país
Com o desenvolvimento da democracia, setores organizados da sociedade passam a
dispor de um papel cada vez mais fundamental para o desenvolvimento. A análise é
de Sergio Mendonça, economista e assessor do Departamento Intersindical de
Estatística e Estudo (Dieese), que destaca, no atual momento vivido pelo Brasil,
a classe trabalhadora como ator de primeira importância para a definição dos
rumos do país.
Dentro desse raciocínio, ele considera a unidade das
centrais como algo decisivo para as futuras decisões políticas do próximo
governo. Mendonça concorda que a Conclat, realizada no último dia 1º de junho,
foi um marco, mas avalia que o movimento sindical terá que fazer escolhas bem
claras para o debate público daqui por diante, já dentro de uma realidade de
menor desemprego e com possibilidades reais de o Brasil crescer e diminuir a
desigualdade.
Nesta entrevista ao Portal CTB, o
economista também afirmou que, ao contrário do que dizer alguns analistas, o
Brasil não está próximo do chamado “pleno emprego”, salientou que a questão da
rotatividade no mercado de trabalho deve ser penalizada pelo Estado e disse que
o país tem condições de se manter em uma rota de desenvolvimento, mesmo sem
alterar a base atual de sua macroeconomia.
Confira abaixo a íntegra da
conversa:
Portal CTB: Nas últimas semanas, diante de uma série de
dados positivos, muitos analistas têm falado na possibilidade de o Brasil chegar
a um estágio de pleno emprego? Como você analisa isso?
Estamos num
bom momento, o mercado de trabalho se recuperou – especialmente de 2004 para cá,
com interrupção apenas em 2009, por conta da crise mundial. Mas é exagerado
dizer isso. Os dados mostram 8% de desemprego em 2009. Os dados do Dieese, a
partir de outro tipo de cálculo, mostram 13%. Ou seja, ainda temos desemprego
alto.
É claro que o desemprego já foi muito maior e a situação melhorou,
mas temos que ter cautela para afirmar que existe essa proximidade do pleno
emprego. Seria fantástico um desemprego menor, mas estamos distantes desse
patamar. É preciso fazer essa distinção, pois um debate equivocado pode levar o
governo a políticas de desaquecimento, de juros altos, dificultando o
crescimento do país.
Portal CTB: Dados do IBGE mostram também um
aumento significativo da formalidade no mercado de trabalho, mas ainda existe um
grave problema, que é a rotatividade. Como equilibrar isso?
A
rotatividade é um fenômeno complexo – eu diria até incompreensível. Alguns
números falam em 16 milhões de admitidos no ano passado, além de 15 milhões de
demitidos. Essa rotatividade é concentrada em alguns setores, como o de
comércio, de serviços, o da construção civil e a agricultura (devido à relação
com a safra). Não podemos ignorar também a questão da terceirização e os
empregos temporários.
Em geral, esse quadro é estranho, pois mostra uma
disfuncionalidade do nosso mercado de trabalho. Se quisermos um país com mão de
obra mais qualificada, o tempo de permanência atual, em média, é muito baixo.
São necessárias medidas institucionais para interromper essa produtividade.
Acho que é possível que o Estado aja por dois caminhos: penalizando as
empresas em termos tributários e iniciar uma mudança que passe por um aspecto
mais cultural dos empresários. A negociação com os trabalhadores tem que tratar
desse tema. É preciso uma cooperação maior, que resulte em investimentos em
formação do trabalhador, inclusive pensando em mais produtividade e mais lucros
para a empresa.
Essa questão deveria ser tratada mais no plano da
cooperação do que no antagonismo, já que sempre sobra para um grupo de menor
qualificação. Não da pra imaginar um país mais desenvolvido com esses dados
atuais. É preciso de alguma medida na linha da convenção 158, que penalize essa
rotatividade, fazer com que o trabalhador deixe de ser “descartável”. Se
olharmos com atenção os dados, a rotatividade atinge mais de um terço do total –
isso assusta. Se tirarmos o setor público dessa conta, equivale à quase metade
dos trabalhadores.
Portal CTB: A Agenda da Classe Trabalhadora,
redigida para a Conclat, expõe as propostas das centrais para o desenvolvimento
do país, a partir de dois aspectos: políticas regionais e macroeconomia. De que
forma esse primeiro ponto contribui para o debate político, especialmente nesse
momento que antecede as eleições?
Acho que essa questão do
desenvolvimento regional é, sobretudo, olhar para o investimento público
produtivo para fortalecer polos de desenvolvimento regionais, mas algo que seja
mais duradouro. Trata desde estradas, ferrovias e portos (no que diz respeito à
infraestrutura) até mesmo a aspectos ligados à capacitação do trabalhador (com a
criação de universidades e escolas técnicas, por exemplo).
Outro aspecto
que não pode ser esquecido, quando se trata se políticas de desenvolvimento
regional, é o fim da guerra fiscal para estabelecer condições de igualdade,
praticando uma política de indução para os estados menos desenvolvidos. Mas é
claro que não é só isso, é uma combinação de coisas, que levem também em
consideração a importância das políticas sociais para determinadas
regiões.
Essa é sem dúvida uma tarefa difícil, pois temos uma grande
concentração do desenvolvimento no Sul e no Sudeste do país, especialmente em
São Paulo. O país é torto. Qual o último movimento de desconcentração desse
desenvolvimento? A criação de Brasília – algo que deu certo em vários aspectos e
errado em outros, mas acho que o saldo final é positivo. De qualquer forma,
olhar para o Norte e o Nordeste exige um peso do Estado muito grande.
Portal CTB: Falando do segundo aspecto, até que ponto o tripé
(superávit primário, metas de inflação e câmbio flutuante) que vem regendo a
macroeconomia pode frear o desenvolvimento do país nos próximos
anos?
Antes desse tripé, é preciso mexer com os juros. Quando os
juros reais forem reduzidos a níveis de países civilizados (para algo como 2% ou
3% – hoje temos cerca de 6% de juros reais), ou mesmo até um pouco mais alto que
isso, será possível abrir um espaço muito importante no orçamento público, que
pode até ser combinado com algum tipo de superávit, sem ampliá-lo.
Aproveitando-se esse novo recurso para um brutal investimento social,
especialmente em saúde e educação, será possível atingir milhões de brasileiros
que precisam ser protegidos. Mais do que isso: daremos um salto na questão da
educação profissional, algo estratégico para o desenvolvimento do país.
É claro que também não podemos ignorar outros aspectos desse tripé. Um
câmbio mais competitivo ajudaria a indústria nacional a não ser destruída pela
concorrência estrangeira. Mas é preciso saber que a derrubada de quatro pontos
da taxa juros abre cerca 2% do PIB para investimentos sociais. Se somarmos o que
virá do pré-sal, isso fica ainda maior, sem mexer nesse tripé.
Mas acho
que é, sim, possível mexer no tripé. Mas para isso será preciso enfrentar a
questão do fluxo de capitais externo – e nesse ponto o Brasil é um dos países
mais livres hoje. No entanto, isso exige uma certa mudança de postura.
Precisamos andar mais com nossas próprias pernas, sem o “fetiche” do
financiamento externo, utilizando aqui uma expressão do professor Yoshiaki
Nakano, da FGV.
Portal CTB: Diante dessa análise, que papel as
centrais sindicais podem exercer nesse debate do desenvolvimento e da geração de
empregos?
Na atual sociedade brasileira, com o desenvolvimento da
democracia, o papel dos atores organizados é fundamental – e eu diria que os
sindicatos formam um grupo dos mais organizados. Entendo, pessoalmente – e aqui
falo em meu nome, e não do Dieese –, que o movimento sindical terá que fazer
escolhas bem claras para o debate público, dentro desse novo cenário com menos
desemprego e com a economia melhorando.
No debate estratégico, os
sindicatos precisarão saber onde suas forças devem ser concentradas. A questão
do salário mínimo é um exemplo, assim como a educação profissionalizante também
é fundamental para os próximos anos, pois é algo que interessa para o mercado de
trabalho e para o país como um todo. Acho também que se alargamos demais a
pauta, torna-se mais difícil concentrar esforços naquilo que é mais
importante.
De qualquer forma, independentemente das escolhas feitas, a
unidade de ação é algo que deve ser mantido pelas centrais, respeitando suas
visões da sociedade e do trabalho. Isso sem dúvida é algo decisivo.
Fernando Damasceno – Portal CTB

