Que Brasil queremos deixar para quem vem depois de nós?
No último domingo (4/10), Flávio Bolsonaro se apresentou como herdeiro de um projeto político. E talvez seja justamente por isso que valha a pena parar um pouco antes de escolher um caminho. Não para ouvir mais uma promessa, nem para entrar na briga de “nós contra eles”, mas para lembrar como era a vida real quando esse projeto esteve no governo.
Porque a política, no fim das contas, não acontece apenas no Congresso, na televisão ou no discurso de candidato. Ela chega em casa. Está no preço da comida, no salário que entra no fim do mês, no emprego que aparece ou desaparece, na consulta médica que conseguimos marcar, na escola dos nossos filhos e no medo de voltar para casa com o celular na mão.
A extrema direita, campo de Flávio Bolsonaro, aprendeu a falar com muita eficiência sobre esse sentimento. Divide o país entre “eles” e “nós”. De um lado, colocam o povo trabalhador; do outro, inventam um inimigo que pode ser chamado de esquerda, de Estado, STF, servidor público, de sindicato, de universidade, de quem recebe algum benefício. A mensagem é simples: “eles estão levando o que é seu”.
Mas será que é tão simples assim?
Quando alguém fala em “Estado mínimo”, por exemplo, muita gente lê: “acabar com a mamata”. Só que Estado mínimo não é falar de privilégio. É também decidir quanto o Estado pode estar presente quando uma mãe precisa de um médico, quando uma criança precisa da vaga na creche, estudar em tempo integral, quando falta dinheiro para comprar remédio ou quando uma família precisa de proteção.
E aqui aparece uma primeira questão para pensar: quem fica ao nosso lado quando a vida aperta?
Os dados do período analisado mostram que, nos primeiros três anos e meio do governo Lula, havia 27.329 vagas ocupadas em programas federais de atenção básica, contra 13.535 em 2022 — mais que o dobro. O número de pessoas atendidas pelo Farmácia Popular também cresceu: de 20,7 milhões para 27,3 milhões.
Isso não é uma discussão abstrata sobre esquerda ou direita. É alguém conseguindo pegar o remédio que precisa tomar todo dia. É alguém encontrando um médico perto de casa.
A segunda questão é ainda mais simples: como está a vida de quem trabalha?
Tem gente com carteira assinada. Tem trabalhador informal. Tem MEI. Tem PJ. Tem autônomo. Tem quem trabalha por conta própria porque não encontrou outra saída. Tem quem trabalha muito e continua sem conseguir pagar todas as contas. E tem uma coisa que une quase todo mundo: ninguém quer passar a vida inteira apenas sobrevivendo.
Por isso, talvez a frase mais importante não seja “defender a CLT” ou “acabar com a CLT”. Para muita gente, essas palavras já não dão conta da própria realidade. A pergunta é outra: quanto sobra depois de pagar as contas? O salário compra mais ou menos? Existe trabalho? Existe tempo para viver?
Os dados mostram uma diferença importante. O rendimento médio real do trabalho cresceu 13,9% no governo Lula, enquanto havia registrado queda real de -4% no governo Bolsonaro. O poder de compra do salário mínimo também avançou 14,8% no período Lula, contra o período Bolsonaro.
Não significa que a vida de todo mundo esteja boa. Não está. Significa que, quando olhamos para aquilo que chega ao bolso de quem trabalha, há uma diferença que merece ser discutida.
E existe uma terceira questão que talvez seja a mais básica de todas: segurança.
Todo mundo quer poder sair de casa e voltar. Quer pegar ônibus sem medo. Quer que o filho volte da escola. Quer andar na rua sem precisar olhar para trás o tempo inteiro.
Segurança não é apenas falar grosso e dizer que vai ampliar presídios. É conseguir reduzir o crime de verdade.
Em 44 meses foram registrados 122.429 homicídios dolosos no período Lula, contra 145.551 no período Bolsonaro, uma diferença de 15,9%. Em 2025, os roubos de veículos foram 29,4% menores que em 2022; os roubos de celulares caíram 37,4% na mesma comparação. Os próprios dados alertam que essas diferenças não permitem atribuir todo o resultado exclusivamente a um governo, mas elas mostram uma realidade que não pode ser ignorada.
No fim, talvez a pergunta não precise ser “de que lado você está?”.
Pode ser uma pergunta mais óbvia: que tipo de país permite que a gente viva melhor?
Um país em que o trabalhador e a trabalhadora tenham mais renda, o serviço público funcione, a criança tenha escola, a família tenha acesso a remédio e a pessoa possa voltar para casa com mais segurança?
Ou um país em que o medo seja permanentemente transformado em briga entre “nós” e “eles”?
A política gosta de transformar tudo em torcida. Mas a vida não é torcida. A conta chega para todo mundo. A doença chega para todo mundo. O desemprego chega para todo mundo. O medo da violência chega para todo mundo. E o desejo de ter uma vida que seja mais do que trabalhar e sobreviver também.
Talvez seja justamente aí que esteja a reflexão mais importante: antes de escolher um discurso, olhar para o que esse discurso produziu quando teve a oportunidade de governar. E, principalmente, perguntar quem ganhou proteção, quem ganhou oportunidade e quem ficou mais sozinho diante dos problemas.
Porque, no fim, não existe “eles” e “nós” quando a questão é viver. Existe a vida concreta de milhões de brasileiros e brasileiras — e as escolhas políticas que podem torná-la um pouco mais segura, digna e possível.
No fim, talvez seja essa a pergunta que realmente importa: que Brasil queremos deixar para quem vem depois de nós?
Um país em que trabalhar permita viver, em que uma mãe possa cuidar dos filhos sem escolher entre o salário e a presença, em que ninguém precise ter medo de adoecer, perder o emprego ou voltar para casa. Um país em que o Estado esteja presente para proteger direitos, ampliar oportunidades e garantir que ninguém precise enfrentar sozinho os momentos mais difíceis da vida.
A política pode tentar nos convencer de que somos “eles” contra “nós”. Mas a vida insiste em nos lembrar de outra coisa: temos muito mais em comum do que querem nos fazer acreditar. Todos queremos segurança, dignidade, trabalho, saúde, educação, tempo para viver e a possibilidade de sonhar com um futuro melhor para nossos filhos.
É por isso que olhar para o passado não significa viver preso a ele. Significa aprender com o que vivemos para escolher, com mais consciência, o que queremos construir daqui para frente.
O Brasil que a gente quer é aquele em que ninguém precise escolher entre sobreviver e viver. Um Brasil onde trabalhar não seja o fim da vida, mas parte de uma vida que também tenha tempo, cuidado, dignidade e esperança.
*Texto publicado originalmente no Portal Vermelho (www.vermelho.org.br).
Joanne Mota é jornalista, membro do grupo de pesquisa Observa da Universidade Federal do ABC, diretora do Sindicato de Jornalistas de São Paulo (SJSP) e compõe a direção executiva do PCdoB na cidade de São Paulo.

