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"Déda não seria governador sem o apoio do movimento sindical"

 

souzaPoucos se lembram de um fato ocorrido durante a campanha eleitoral do ano de 2000 para a Prefeitura de Aracaju. O candidato da situação ao Governo Municipal, Antonio Carlos Valadares, abriu o programa eleitoral no rádio e na TV fazendo um depoimento de que estaria pensando em abandonar a vida pública, porque, segundo suas palavras, um fato novo estava acontecendo nas eleições: o movimento sindical.

Depois de ter atingido 40% nas pesquisas do Ibope, e ver essa vantagem ir diminuído a cada dia, Antonio Carlos Valadares aparecia na tela da TV fazendo o comunicado e reclamando da entrada do movimento sindical na campanha eleitoral em favor do candidato da oposição, Marcelo Déda. Para ele, aquilo era um absurdo, um fato grave, pois desequilibrava o jogo.

A decisão do movimento sindical de entrar pra valer na campanha foi fundamental. Reunidos no auditório do Sindicato dos Bancários, fundamos o Comitê Sindical Pró- Marcelo Déda. Fizemos um plano de campanha entre os trabalhadores. Produzimos material gráfico (praguinhas, santinhos e panfletos) para distribuição nas categorias. A partir daí, cada militante teve que se transformar em dois. Realizar as tarefas de sua entidade e fazer campanha para Marcelo Déda.

Naquela ocasião o Brasil e Sergipe eram governados pelas chamadas forças do atraso (PSDB/PFL), Fernando Henrique Cardoso e Albano Franco. Era latente entre o povo o desejo de mudanças. Mas algo teria que ser feito, pois as coisas na política não acontecem por geração espontânea. Exigia-se o elemento consciência. E ele se fez presente. O prefeito de nossa capital era João Augusto Gama, que também, a partir de certa altura da campanha, aderiu à campanha vitoriosa do então deputado federal Marcelo Déda.

O resultado dessa história todo mundo sabe. A chapa Marcelo Déda/Edvaldo Nogueira obteve uma acachapante vitória no primeiro turno das eleições de dois mil. Iniciava-se ali a pavimentação para a chegada ao Palácio Olímpio Campos. Em 2002, chegamos perto com Zé Eduardo para o Governo do Estado. Dizem que a vitória só não aconteceu porque o Zé era muito duro, sem jogo de cintura. Em 2004, a reeleição aconteceu com tranquilidade.

Porém, a grande batalha só aconteceria em 2006. O acúmulo das vitórias para a Prefeitura de Aracaju ecoou nos quatro cantos do Estado. Marcelo Déda derrota João Alves e se elege no primeiro turno, governador de Sergipe. É bom lembrar que nos dois mandatos de Déda na Prefeitura, sempre houve uma boa relação com o movimento sindical. Alguns sindicalistas chegaram a fazer parte do governo. Já outros foram eleitos para os parlamentos.

Mas onde estou querendo chegar com esse enredo todo? Fiz esse arrodeio para chegar justamente à experiência de Marcelo Déda no Governo do Estado e especialmente sua relação com o movimento sindical. De uma maneira geral posso afirmar que não tem sido nada fácil a relação do Governo Marcelo Déda com o movimento sindical nesses pouco mais de dois anos à frente do governo.

Essa relação ganhou contornos de beligerância nos últimos tempos, mas desde o início que as coisas têm sido ruins. O governo mantém um discurso e um tratamento muito duro diante das reivindicações dos servidores. Tem sido assim com todas as categorias. Dizem os entendidos que a exceção foi a Polícia Civil, porque os negociadores do governo erraram, ou coisa de outro gênero.

No caso dos bancários, o governo começou errando. A primeira medida da diretoria comandada por João Andrade foi tirar a comissão de quase uma centena de funcionários do Banese. Resultado: o Sindicato ingressou com uma ação na Justiça do Trabalho e o banco amarga um contencioso trabalhista de mais de R$ 10 milhões. A diretoria do banco durante a gestão neoliberal de João Andrade fez de tudo para não reconhecer o Sindicato dos Bancários de Sergipe como representante dos baneseanos. Pagou caro, pois, pela primeira vez, depois de mais de dez anos, os bancários do Banese aderiram à greve em 2008.

O objetivo deste texto não é fazer uma radiografia completa da relação do governo com o movimento sindical. Isso o tornaria enfadonho, quero apenas estabelecer uma tese de que Marcelo Déda não seria governador se não tivesse contado com o apoio do movimento sindical naquele ano de 2000. Não faço gratuitamente, o faço em resposta às críticas formuladas pelo governador ao movimento sindical de que somos anacrônicos, em entrevista ao Jornal da Cidade, edição 11.040 de 05.05.09.

Essas críticas não são novas. Outros já o fizeram. O governador aborda o paradigma de um determinado tipo de esquerda que ele considera anacrônico, que quer derrubar o regime e implantar o socialismo. Que queremos que o Estado se inviabilize, porque é bom para a revolução. Que estamos querendo que o governador implante uma República de esquerda em Sergipe. Teoriza sobre democracia como valor universal e sobre as greves.

Calma, companheiro governador! Nada que vossa Excelência falou na entrevista é novidade. Tudo isso está presente na literatura da esquerda, embora, uma vez falado pelo governador, soa como algo inédito. Mas não é novo. É velho. Por exemplo, acho que é grande reducionismo, achar que a grande tarefa da esquerda atual é defender a democracia. Isso os liberais também o fazem. Nossa tarefa é mais grandiosa.

As críticas do governador não são pedagógicas. Sua Excelência se defende atacando. Acusa-nos de cometer ações desesperadas. Não me consta que preparar uma campanha salarial seja um ato de desespero. É legítimo que os sindicatos lutem para melhorar a situação de seus associados. O Estado é um espaço de disputa, de luta política. A agenda do governador, por exemplo, é disputada por nós e pelos empresários. E convenhamos, os patrões têm recebido maior atenção do que os trabalhadores.

Por fim, apesar do desabafo do governador, não me parece ser uma boa estratégia o governador usar um espaço tão valioso, como o do Jornal da Cidade, para atacar um movimento naturalmente aliado, como o movimento sindical. A postura revela grande soberba e passa a idéia de que o governador não precisa mais do movimento sindical, que tanto o ajudou, como parceiro. Porém, Sergipe inteiro sabe: O companheiro Marcelo Déda só chegou onde chegou porque contou com o apoio e sacrifício dos militantes do movimento sindical.

(*) José Souza é presidente do Sindicato dos Bancários de Sergipe

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