“A maioria da mídia comercial se comportou como um partido político”
O
futuro social e político do Brasil passa, neste domingo, por um momento
decisivo. Para falar sobre a importância do voto nesse segundo turno e
avaliar o desenrolar das eleições 2010 no Brasil, O Piquete Bancário
entrevistou o jornalista Marco Aurélio Weissheimer, editor-chefe da
Agência Carta Maior, publicação eletrônica multimídia de esquerda,
criada em 2001, no primeiro Fórum Social Mundial.
O que representa a eleição deste domingo para o avanço da democracia brasileira?
O
principal significado é a disputa de dois projetos. Para a democracia
brasileira é mais uma sucessão que ocorre através do voto, o que não é
pouca coisa considerando-se a história do nosso país. É principalmente
um conceito de democracia de desenvolvimento social que vem sendo
implementado nos últimos anos.
Quais as linhas divisórias do modelo de desenvolvimento defendido por Lula/Dilma e do projeto defendido pelo grupo do PSDB?
A
população brasileira teve a oportunidade de conhecer bem esses dois
projetos nos últimos 16 anos. O governo FHC, durante oito anos,
implantou um modelo de política econômica e de desenvolvimento que
priorizou fundamentalmente o grande capital, as privatizações e uma
teoria de estado mínimo, ou seja, que o estado brasileiro seria um
entrave para o desenvolvimento do país e que este teria que ser
brutalmente enxugado como de fato foram feitas várias privatizações.
Isso seria uma condição de desenvolvimento e crescimento do país.
Ao
final de oito anos percebeu-se que esse modelo fracassou. O Brasil
atravessou já no final do governo Fernando Henrique, três sérias crises
econômicas em função de crises internacionais, a população enfrentou uma
alta inflação e uma dívida externa altíssima, com o Brasil sem crédito
no cenário internacional, entre outras conseqüências.
Nos
últimos oito anos houve a implantação de outro modelo que apostou
fortemente no mercado interno, no fortalecimento do estado e dos espaços
públicos, com participação da sociedade, da cidadania como uma condição
de crescimento e desenvolvimento. Os resultados, comparativamente aos
oito anos anteriores, são muito favoráveis ao governo Lula. Não é por
acaso que ele chega hoje, ao final do seu oitavo ano, com mais de 80% de
aprovação da população, índice recorde na história.
Como o senhor avalia a cobertura da mídia nessas eleições?
A
maioria da chamada grande mídia comercial se comportou como um partido
político. Isso não é nenhuma novidade ou denúncia. A própria presidente
da Associação Nacional dos Jornais (ANJ), senhora Judith Brito, Editora
Executiva do Jornal Folha de São Paulo, admitiu em entrevista, que a
grande imprensa estava fazendo o papel de oposição diante do que ela
chamou de fragilidade da oposição no Brasil. É um direito que cada
veículo tenha a sua linha editorial, mas seria bom que isso fosse
deixado claro e transparente para a população.
Esse ano, o único
jornal que fez isso foi o Jornal O Estado de São Paulo que no final do
primeiro turno se posicionou, em editorial, manifestando-se favorável ao
candidato José Serra. Todos os demais se apresentam como veículos
isentos e supostamente imparciais, quando na verdade fazem
descaradamente campanha para a candidatura do senhor José Serra. Isso
traz um desequilíbrio democrático muito grande na sociedade, uma vez que
estes grandes grupos empresariais detém a maior parte da imprensa
escrita e falada. Sempre é bom lembrar que são concessões públicas.
O
lado positivo que já se verificou no primeiro turno é que mesmo diante
desse brutal desequilíbrio midiático a imensa maioria da população
parece estar conseguindo se livrar dessa amarra e desse bloqueio
midiático uma vez que a votação do primeiro turno e das pesquisas
indicam que as pessoas estão optando num caminho contrário ao que esses
veículos defendem.
Em que medida a polarização de questões religiosas impactou nesta eleição de 2010?
Infelizmente,
a candidatura do José Serra resolveu explorar os sentimentos religiosos
das pessoas, numa politização rasteira e muito baixa, lançando mão de
questões como o aborto, a liberdade de culto e outras questões. Além
disso, disseminou uma série de mentiras, inverdades e discursos
extremamente rebaixados.
É um fenômeno novo e na dimensão do que
ocorreu a minha avaliação é de que foi uma exploração absolutamente
lamentável e condenável não só da fé das pessoas, mas também das
instituições religiosas que deveriam ter outro tipo de postura na medida
em que elas funcionam dentro de um estado laico. Isso aconteceu tanto
em setores da igreja católica quanto das igrejas evangélicas.
O
Brasil é uma República, há uma separação entre o Estado e a Igreja. O
Estado não tem uma religião oficial e as pessoas podem ter liberdade
religiosa. Em resumo, acho que a exploração política da religião nessa
eleição é uma lição que deve ser refletida e estudada para nunca mais se
repetir, porque ela não ajuda em nada a democracia brasileira.
