Abgail, secretária de mulheres da CTB, fala sobre lutas de gênero e classe
| 29/04/2008 | |
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Veja a íntegra da entrevista: P.: Como a CTB pretende colocar em prática o destaque à mulher trabalhadora explicitado na sua nomenclatura? R.: É importante destacar que o diferencial da CTB não está no substantivo feminino em seu nome. Está, fundamentalmente, em seu princípio classista, porquanto reconhece a luta da mulher por sua emancipação como parte inseparável da luta da classe trabalhadora contra o sistema capitalista. A construção da sociedade socialista que permita a expansão da subjetividade feminina e supere a divisão sexual do trabalho baseada na relação de poder é o objetivo comum que une homens e mulheres, trabalhadores e trabalhadoras, dentro da CTB. A divisão sexual e o conceito de divisão social do trabalho que atribui à mulher a responsabilidade do lar - a dupla jornada -, são utilizados pelo capitalismo para incentivar a competição entre os trabalhadores, rebaixando os salários e precarizando direitos. São questões estruturais que exigem respostas diferenciadas para homens e mulheres no mundo do trabalho, seja nas reivindicações, seja nas formas de organização na vida sindical. Portanto, além de encampar as lutas específicas das mulheres, como igualdade salarial e de oportunidades, é preciso criar as condições para incentivar a participação feminina nas organizações sindicais. A CTB, além da Secretaria da Mulher, tem uma dirigente na vice-presidência, e mais cinco na Direção Geral. O estatuto da Central determina a cota de 30% de dirigentes mulheres na sua diretoria e essa orientação será debatida com as entidades filiadas, visando maior participação das mulheres no movimento sindical, incluindo os órgãos de direção. Por outro lado, a Secretaria da Mulher pretende realizar parcerias com órgãos públicos, entidades nacionais e internacionais e outras entidades sindicais para ações onde a luta e a defesa dos interesses da mulher trabalhadora estejam em discussão, lutando em todos os espaços para a efetiva emancipação da mulher na sociedade. P: As mulheres são mais de 40% da população economicamente ativa e hoje estão em todos os setores da economia. Essa participação no mercado de trabalho veio para ficar? R.: A participação da mulher no mercado de trabalho sempre esteve diretamente ligada ao interesse do capital, como contingente de reserva, especialmente setores menos importantes da economia, recebendo menores salários e sofrendo de forma mais acentuada a precarização de direitos e o desemprego. Hoje, com a economia globalizada e as novas formas de organização da produção decorrentes da informatização, a mulher trabalhadora está em todos os setores, inclusive nos mais qualificados. Em que pese as dificuldades e desigualdades continuarem, a tendência é mesmo de manutenção e mesmo crescimento dessa participação feminina. Em decorrência dessa nova realidade, cresce em importância a necessidade de organização e mobilização das trabalhadoras não apenas para ampliar as conquistas de gênero, mas sobretudo para fortalecer a luta da classe contra a exploração do capital. P: Quais as principais reivindicações da mulher trabalhadora na atualidade? R. Mesmo com melhora significativa, os rendimentos femininos continuam inferiores aos masculinos, indicando que as mulheres continuam sendo mais pobres que os homens. Também são as mais atingidas pelo desemprego, pela informalidade e pela precariedade de direitos, como a falta de registro na Carteira de Trabalho. Denúncias envolvendo assédio moral e sexual também são freqüentes, bem como o desrespeito à condição da mulher na gestação e no exercício da maternidade. A ausência de creches públicas em número suficiente para atender à demanda e a falta de acesso aos serviços públicos de saúde contribuem para a exclusão social dessas mulheres e de seus filhos. Outro fator importante é o excesso da jornada de trabalho. Estas questões apontam as reivindicações: igualdade salarial, valorização do trabalho com ampliação de direitos, políticas públicas como ampliação de escolas infantis, campanhas para educação e compartilhamento das tarefas domésticas, entre outras que envolvam a valorização da imagem da mulher e possibilitem o pleno exercício da cidadania. No entanto, o principal enfoque da luta da mulher trabalhadora é, sem dúvida, a redução da Jornada de Trabalho, sem redução salarial. P.: De imediato, o que a redução da jornada significa para a mulher trabalhadora e para o mercado de trabalho? R.:De acordo com levantamento da Organização Internacional do Trabalho (OIT), as mulheres são responsáveis por 2/3 do total de horas trabalhadas em todo o mundo. No Brasil, em setores como o comércio, a jornada de trabalho da mulher pode chegar a 16 horas/dia. Considerada a dupla jornada, os excessos acarretam prejuízos irreversíveis à saúde da trabalhadora, antecipando ou agravando doenças crônicas como diabetes, pressão alta, alterações cardíacas e depressão. Vista apenas sob estes aspectos, a redução da jornada já é significativamente imprescindível para a trabalhadora. No entanto, a redução da jornada, sem redução salarial, significa mais empregos, mais renda distribuída e maior consumo, fatores indispensáveis para a aceleração da econonia. Por isso essa luta é do conjunto dos trabalhadores, como forma de participação efetiva no crescimento econômico do país. P.: As Centrais Sindicais brasileiras lançaram a Campanha pela Redução da Jornada de Trabalho. A CTB participará desse movimento? R.: Com certeza, a CTB participará dessa grande campanha nacional pelas 40 horas, que está sendo realizada pelas principais centrais sindicais do país, de forma unitária. A Secretaria da Mulher pretende dar esse destaque de gênero e lançar a campanha "Um milhão de Trabalhadoras pelas 40 horas", juntamente com as comemorações do Dia Internacional da Mulher. A idéia é realizar coletar um milhão de assinaturas em favor do projeto que reduz a jornada sem reduzir salários. Temos a convicção de que as mulheres, que também foram responsáveis pela redemocratização do país, pelo combate ao liberalismo, pela eleição de um governo que se propôs a construir uma nova estrutura econômica e social para o país, farão uma grande mobilização nessa luta histórica pelas 40 horas, que neste momento da vida nacional também é uma batalha pela valorização dos trabalhadores no projeto de desenvolvimento do país. Fonte: revista Presença da Mulher |

Em entrevista à revista "Presença da Mulher", a secretária de mulheres da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB), , comenta as perspectivas das lutas de gênero e classe no movimento sindical. "A divisão sexual e o conceito de divisão social do trabalho que atribui à mulher a responsabilidade do lar - a dupla jornada -, são utilizados pelo capitalismo para incentivar a competição entre os trabalhadores, rebaixando os salários e precarizando direitos", diz ela.