Ano de 2010 foi favorável à comunicação brasileira
Do ponto de vista do movimento por uma comunicação mais democrática e das ações do Governo Federal o ano de 2010 foi uma espécie de “ressaca” da Confecom, acredita o Coordenador-geral do Fórum, Celso Schröder. “Passamos o ano todo discutindo, avaliando e cobrando as resoluções decididas lá. Não temos consequências concretas quanto às políticas públicas, mas a Confecom não foi negada. Vivemos a decorrência dela em um ano atípico em virtude do processo eleitoral”, avalia o também presidente Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj).
Tal período, no entanto, não inviabilizaria algumas ações
imediatamente à Confecom, como a constituição do Conselho de Comunicação
Social. “Com o aval que a Confecom deu, aprovando-o por unanimidade
numa esteira de mobilização inédita no Brasil, o conselho já poderia ter
sido instalado”, afirma Schröder. O que teria evitado, de acordo com
ele, o recrudescimento das ações dos setores conservadores antiregulação
e o uso eleitoreiro do debate (leia).
A
expectativa do dirigente para o próximo ano é que o novo governo
fortaleça o Ministério das Comunicações, como vem sinalizando, construa o
novo marco regulatório e tonifique o setor público da comunicação
brasileira. Com tais políticas o País dará passos decisivos para saldar o
déficit de democracia que tem com o setor.
Balanço dos principais temas que nortearam a comunicação brasileira em 2010.
Novo marco regulatório começa a ser desenhado
A
regulação da mídia pautou a comunicação brasileira nos últimos meses. A
criação da comissão interministerial para formular um novo marco
regulatório e a realização do Seminário Internacional das Comunicações
Eletrônicas e Convergência das Mídias (confira) demonstrou a disposição do Governo Federal de enfrentar o assunto.
Ao
trazer experiências de países com tradição democrática, o Governo
quebrou o discurso de que regulação e regulamentação são incompatíveis
com a liberdade de expressão e configuram censura. Os países
desenvolvidos do mundo, sem nenhuma exceção, possuem marcos e agentes
regulatórios. “Isso garante a democracia na comunicação dessas nações”,
reforça Schröder. Todavia, é preciso vencer a resistência do próprio
Executivo e das empresas de comunicação, em discutir a regulação no que
tange ao conteúdo (confira).
A
comissão que desenha o novo marco deve ter como guia também as
resoluções da Confecom. De posse da proposta de marco regulatório é
necessário que o Governo instale imediatamente um processo consultivo de
audiências públicas, validando o conceito de participação social.
Congresso precisa ser esclarecido
Paralelamente
a esta mobilização, a próxima leva de parlamentares que assumirá em
2011 precisa ser esclarecida quanto à necessidade de um marco
regulatório para as comunicações (confira aqui e aqui).
Em
balanço feito pelo FNDC, em maio de 2010, contatou-se que tramitam mais
de 200 projetos sobre temas de comunicação na Comissão de Ciência e
Tecnologia, Comunicação e Informática (CCTCI) da Câmara dos Deputados.
Esse número, que inclui as propostas apensadas, pode ultrapassar a casa
dos 300 se forem contabilizados os projetos que estão em outras
comissões. A maioria das proposições antecede à 1ª Confecom. Do debate
surgiram 672 diretrizes para a formulação de um novo marco legal das
comunicações. Nos quatro meses posteriores ao encontro foram
apresentados na Câmara dos Deputados 25 novos projetos, mas ainda não se
vê, entre a maioria dos parlamentares, empenho pela implementação das
propostas da Confecom (leia).
Banda larga é debatida com participação da sociedade
A
implantação do Programa Nacional de Banda Larga (PNBL) deve combinar o
interesse público no oferecimento do serviço com a criação de uma
infraestrutura de acesso. Para o FNDC, é preciso propor uma agenda
democrática, apoiada em políticas públicas de comunicação que imponham
às operadoras responsabilidades e contrapartidas sociais. Essa concepção
sobre o PNBL norteou as contribuições da entidade nos encontros do
Fórum Brasil Conectado (FBC).
Instância criada para acompanhar, discutir e propor ações e diretrizes ao PNBL, o FBC, realizou três encontros em 2010 (confira).
Na primeira reunião realizada no dia 23 de junho, em Brasília, o Comitê
Gestor do Programa de Inclusão Digital (CGPID), coordenador do Fórum,
informou quais seriam os primeiros passos da execução de uma política
nacional de banda larga (leia).
O segundo encontro ocorreu nos dias 23 e 24 de agosto (veja).
Nele as discussões forram norteadas por dois eixos centrais. O primeiro
dizia respeito à implementação e a forma como a Telebrás deveria
oferecer o serviço de banda larga. O segundo abordava as condições de
infraestrutura e de oferta que devem pautar o Plano. Os debates foram
divididos em 11 sessões temáticas. Confira aqui
as proposições iniciais do FNDC para cada tema. Durante o evento foram
divulgadas as 100 primeiras cidades que integrarão o Programa (leia).
Já no terceiro encontro, que aconteceu em 30 de novembro, foi
apresentada uma prestação de contas das ações do PNBL e ocorreu o
amadurecimento das discussões do segundo FBC.
PNBL expõe divergências
A
entrada da Telebrás no mercado de banda larga e as exigências do plano
de metas para a universalização do serviço de telecomunicações
estremeceram as relações entre as empresas de telefonia e o Governo
Federal. Em dezembro, após negociação com o Governo, as telefônicas
aceitaram retirar as ações judiciais que moviam contra o Plano Geral de
Metas de Universalização (PGMU III) e a Telebrás. No fundo do embate
está a mudança no modelo de negócio, provocadas pela evolução
tecnológica e pela assimilação do Estado do papel estratégico das
comunicações para o país (leia).
A
universalização dos serviços de comunicação é tão importante para a
sociedade quanto foi a expansão do sistema nacional de energia elétrica,
por exemplo. Com a convergência tecnológica acelerada pela
digitalização dos meios, o acesso às comunicações se tornou
imprescindível a todos, para que estejam incluídos socialmente, e
precisa estar inserido no princípio de bem público. Qualquer iniciativa
que pretenda universalizar os serviços nessa área, do ponto de vista do
FNDC, deve considerar um projeto estratégico nacional de digitalização (saiba mais).
Mídia atuou como partido político nas eleições
Se
dependesse dos grandes veículos de comunicação o resultado da eleição
presidencial brasileira desse ano certamente seria outro. Ainda em março
a presidente da Associação Nacional dos Jornais (ANJ) e executiva da
Folha de S. Paulo, Maria Judith Brito, reconheceu que os meios de
comunicação estavam fazendo o papel oposicionista (político) no Brasil,
“já que a oposição está profundamente fragilizada”. A declaração mostrou
que essa imprensa assume um lado, contrariando o jornalismo dito
“isento” propalado pelos meios de comunicação do país (leia).
O que se viu foi o agendamento de temas com prioridade e interesse
eleitoral. Tal postura motivou a manifestação do FNDC em defesa da
democracia e do controle público sobre a mídia, no mês de setembro (veja).
A
campanha contrária à candidata do Presidente Lula, no entanto, não
surtiu efeito. Dilma Rousself, a primeira presidenta do Brasil, venceu
no primeiro turno e foi eleita no segundo com 56,05%. Para a professora e
pesquisadora em Comunicação e Política Maria Helena Weber, isso de dá
porque no contexto atual da política e da opinião pública a questão da
vivência ganhou destaque. Segundo ela ocorre uma mudança geral do País, e
as pessoas que usufruem dos benefícios das ações políticas do governo
hoje opinam favoravelmente sem nem mesmo circular na internet ou ter
acesso aos meios de comunicação (confira).
PL 29 está em debate no Senado Federal
Há
quatro anos tramitando no Congresso Nacional o projeto de lei que
unifica as regras para o mercado de TV por assinatura deve ser votado no
próximo ano, mas segue polêmico. Aprovado em caráter terminativo pela
Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados, em maio, o
PL 29 foi encaminhado ao Senado Federal, onde passou a ser denominado
como PLC 116. Em análise na Comissão de Constituição e Justiça da casa
já obteve emendas e foi fruto de audiência pública no início de
dezembro.
Embora haja uma tentativa de entendimento para a
aprovação da nova lei, o debate evidenciou as divergências quanto às
cotas de produção nacional e às novas atribuições da Agência Nacional de
Cinema (Ancine). A liberação de novas outorgas para a TV a cabo, sem a
alteração da Lei do Cabo e a provação do PLC 116, feita pela Agência
Nacional de Telecomunicações (Anatel) tornou o cenário ainda mais
turbulento. Para o FNDC é preciso que o PLC 116 incorpore as
deliberações da Confecom (leia)
e cuide para que ao abrir o mercado de TV por assinatura às empresas de
telefonia não faça uma simples transferência de hegemonia (confira).
Entidades mantêm mobilização pós-Confecom
Representantes
de movimentos sociais e da comunicação, integrantes da Comissão
Nacional Pró-Confecom (CNPC) participaram em Brasília, no início do mês
de julho, do seminário proposto pelas deputadas Iriny Lopes (PT-ES),
pela Comissão de Direitos Humanos e Minorias, e Luiza Erundina (PSB-SP),
pela Comissão de Ciência e Tecnologia, Comunicação e Informática, e
entidades da sociedade civil. O encontro estabeleceu critérios de
importância para as propostas da Confecom. Foram priorizadas 70
proposições para serem implementadas com mais celeridade.
Em
junho a declaração do ministro-chefe Franklin Martins, da Secretaria da
Comunicação Social do Planalto de que as resoluções terão de ser
conduzidas pelo próximo governo desagradou o movimento social que
participou intensamente do encontro (confira).
Telebrás pode operar rede pública
Recentemente a Secretaria de Comunicação Social do Governo Federal
apresentou ao Conselho Curador da Empresa Brasil de Comunicação (EBC) um
estudo, ainda preliminar, sobre a possibilidade de usar a Telebrás como
operadora da rede pública de TV digital (saiba mais).
O operador visa estabelecer a digitalização dos canais públicos de
televisão, especialmente aqueles gestados pela União, e será
implementado pela EBC (confira). Emissoras educativas e culturais também avaliam a possibilidade de ingressarem na rede que o governo federal vem preparando (leia).
Em
2009 a EBC pôs em consulta pública os requisitos para a contratação da
empresa que fará a implantação, operação e manutenção da infra-estrutura
da Rede Nacional de Televisão Pública (RNTP) (veja).
O Ministério das Comunicações publicou a Norma Geral para Execução dos
Serviços de Televisão Pública Digital, oficializando a criação do
operador de rede em fevereiro daquele ano.
EBC renova Conselho Curador
A
Empresa Brasil de Comunicação (EBC) renovou três membros do Conselho
Curador da entidade em abril de 2010. O processo ocorreu após consulta
pública para a formulação de uma lista tríplice que passou pela
apreciação do Presidente da República (saiba mais)
. Na avaliação do FNDC, embora positiva, a metodologia da consulta
pública foi limitada por não considerar o direito de escolha da
sociedade (confira).
Passaram a integrar o referido conselho o engenheiro elétrico Takashi
Tome e os jornalistas Ana Veloso e Mario Augusto Jakobkind.
Radiodifusão comunitária sofre perseguição
O
movimento de rádios comunitárias continua sofrendo formas de
criminalização por parte do Estado. Após a tentativa de condicionar a
concessão de outorgas ao não exercício sem autorização do serviço de
radiodifusão comunitária em outubro (leia),
o Ministério das Comunicações passou a exigir certidão criminal de
todos os diretores das emissoras. Conforme o coordenador geral da
Associação Brasileira de Radiodifusão Comunitária (Abraço) e integrante
da Coordenação Executiva do FNDC, José Nascimento Sóter, a autorização
para o exercício da radiodifusão comunitária é concedida às entidades e
não às pessoas que as formam. Na prática a nova medida torna coletivos
quaisquer delitos cometidos pelos integrantes das associações (confira).
Lei de Direito Autoral passou por consulta pública
O Ministério da Cultura colocou em consulta pública, de 14 de junho a
31 de agosto, o projeto de modernização da Lei de Direito Autoral (Lei 9.610/98).
O processo teve de 1049 participantes, sendo 118 instituições, gerando
um total de 8.431 manifestações e contribuições ao texto que será
encaminhado ao Congresso Nacional. O advogado Marco Tulio De Rose,
entrevistado deste e-Fórum em 20 de agosto, especialista no assunto,
acredita na gestão coletiva e estatal sobre os direitos autorais e
observa que cabe aos juristas encontrar uma forma de tornar mais efetiva
e simples a proteção econômica da lei em relação ao autor (saiba mais).
Marco civil da internet continua em construção
Em
abril foi colocado em consulta pública o anteprojeto do Marco Civil da
internet, elaborado em parceria com a Fundação Getúlio Vargas (FGV). O
número de visitas à página do Fórum da Cultura Digital Brasileira
foi superior a 77 mil e houve mais 2,3 mil comentários. A primeira fase
desse processo, encerrada em dezembro do ano passado, contou com mais
de 800 contribuições.
O texto final deve ser encaminhado ao
Congresso no próximo ano. Na opinião do FNDC é preciso que a Plataforma e
conteúdo sejam diferenciados na proposta de regulação da rede (confira).
Sistema Brasileiro de Rádio Digital tem portaria
A
portaria publicada pelo ministro Hélio Costa em 31 de março, às
vésperas de sua saída do Ministério das Comunicações, criando o Sistema
Brasileiro de Rádio Digital (SBRD), trouxe um rol de diretrizes a serem
observadas durante a construção do sistema. O documento contém premissas
básicas para a digitalização da radiodifusão sonora no País, como, por
exemplo, proporcionar a utilização eficiente do espectro de
radiofrequências. O Minicom, entretanto, não definiu tecnologia e nem
chegou a estabelecer, efetivamente, políticas para o setor (confira).
- * Imprensa FNDC
