Ao comprar Bamerindus, em 1997, HSBC queria ser o maior banco do Brasil
“O tempo passa/o tempo voa/e a Poupança Bamerindus continua numa boa... /é a Poupança Bamerindus!”. O banco celebrado no início dos anos 90 no jingle da propaganda na TV da sua caderneta de poupança acabou nas mãos do gigante bancário mundial HSBC (HongKong and Shangai Banking Corporation). Perdendo recursos desde que o Nacional quebrara, em 1995, o Bamerindus, do ex-ministro e então senador José Eduardo Andrade Vieira (PTB-PR), sofreu intervenção do Banco Central (BC) no dia 26 de março de 1997. Na ocasião, o controle do quinto maior banco do país passou para o HSBC, mediante uma ajuda de R$ 5,7 bilhões do Programa de Estímulo à Reestruturação e Fortalecimento do Sistema Financeiro (Proer), criado pelo governo Fernando Henrique Cardoso para evitar uma crise bancária no país. Realizada à revelia do banqueiro Andrade Vieira, ex-ministro da Agricultura de Fernando Henrique, a operação foi concluída também graças a um aporte de capital de US$ 1 bilhão do HSBC, grupo multinacional com sede em Londres.
Na época, o HSBC, que já era dono de 6% do capital do Bamerindus, pretendia com o negócio chegar ao topo do ranking do setor bancário nacional. Entre os seus concorrentes estavam instituições públicas e privadas, como Banco do Brasil, Bradesco e Itaú. Este, anos mais tarde, fundiu-se com o Unibanco (que, por sua vez, havia incorporado o Nacional). Eram tempos de uma estratégia agressiva dos acionistas do HSBC, hoje preocupados com o envolvimento no escândalo SwissLeaks (das contas secretas na Suíça). Nesta terça-feira, a matriz do grupo anunciou que o HSBC vai encerrar suas atividades no mercado brasileiro, além das suas operações na Turquia.
Com sede em Curitiba, o Bamerindus na época da intervenção e da transferência do seu controle ao HSBC tinha 2,6 milhões de correntistas e 1.363 agências bancárias em todo o país. A instituição — atualmente com 853 agências e 452 postos de atendimento bancários — naquele primeiro momento passou a se chamar HSBC Bamerindus. A saída do BC foi dividir o Bamerindus em duas partes. A chamada parte boa, com ativos e passivos de R$ 10 bilhões, que incluiu a seguradora e a corretora, seria transferida ao HSBC. Já a parte ruim, com ativos e passivos de R$ 5 bilhões, ficaria sob intervenção da autoridade monetária. Um ano após a compra, o BC calculava que a parte “podre” do banco paranaense deixara um rombo de cerca de R$ 4,8 bilhões.
O comprador inglês, à época com cinco mil agências em 70 países e um total de ativos de US$ 402 bilhões, anunciou em 1997 planos ambiciosos para o Brasil. Prometia aumentar o número de agências bancárias do HSBC Bamerindus, provocando uma revolução no varejo bancário brasileiro — para “fazer do banco o maior do país”, conforme O GLOBO registrou na edição do dia 28 de março. Ressaltando que o HSBC já ocupava o primeiro posto no ranking internacional, essa era a intenção de Michael Geoghegan, de 43 anos, o novo presidente do banco no Brasil, que manteve a sua sede na capital do Paraná. Inglês típico, na aparência e no comportamento, contrastava com o ex-homem forte da instituição, o banqueiro Andrade Vieira, um paranaense de sotaque caipira e que tinha entre as suas marcas registradas o chapéu de vaqueiro.
Andrade Vieira nunca aceitou a liquidação do Bamerindus, fundado por seu pai, Avelino Antonio Vieira, em Tomazina, no interior do Paraná, em 1929. O banqueiro, que ficou com os seus bens indisponíveis, culpava o Banco Central pela liquidação do banco. Dizia que o BC semeou no mercado informações negativas, na maioria das vezes falsas, sobre a situação de deterioração das contas do Bamerindus. Também via “razões políticas” por trás da intervenção no banco que presidia. Aos 76 anos, Andrade Vieira morreu em fevereiro deste ano, em Londrina, vítima de parada cardiorrespiratória.
Fonte: Jornal O Globo.
