BC usa duas medidas para cálculo dos spreads
O spread bancário praticado no país é alto e nisso concordam governo e bancos. As causas são múltiplas - entre impostos, custos, inadimplência, margem de lucro - e aí reside boa parte da polêmica sobre como combatê-lo. Mas qual é exatamente esse spread, medida da diferença entre o custo de captação dos bancos e os juros cobrados dos clientes nos empréstimos? A dúvida persiste, alimentada pelo fato de que o próprio Banco Central tem dois cálculos diferentes, com resultados discrepantes.
No relatório mensal de crédito relativo a março, divulgado em abril, o BC apontou um spread médio de 28 pontos percentuais, sendo 18,4 pontos nos empréstimos para empresas e de 35,1 pontos para pessoas físicas. Essas taxas são relativas aos empréstimos concedidos em março.
Em seu Relatório de Estabilidade Financeira (REF), o BC apontou um spread médio relativo aos últimos 12 meses encerrados em dezembro de 10 pontos percentuais (ver gráfico). A taxa é claramente declinante, tendo saído da casa dos 18 pontos há dez anos.
Em primeiro lugar, o spread do relatório de crédito é relativo ao fluxo de empréstimos concedidos em março, enquanto o do REF refere-se às operações realizadas ao longo de 2011. Mas o que explica tamanha distância entre os números é o universo de linhas de crédito contemplado em cada cálculo.
O spread de 28 pontos percentuais da nota mensal de crédito refere-se a créditos concedidos a partir dos chamados recursos livres, aqueles que não têm direcionamento obrigatório (como rural e imobiliário) e não contam com subsídio, como os financiamentos do BNDES. Pegaria pouco mais de 50% dos empréstimos para pessoas físicas e quase 40% do crédito para empresas, dando grande peso a linhas caras, como crédito pessoal e conta garantida.
Já o spread do REF pega todas as modalidades de crédito, porque é extraído pelo BC das demonstrações contábeis dos bancos. A taxa de 10 pontos é bem inferior aos 28 pontos apurados segundo a primeira metodologia porque inclui linhas que contam com melhores garantias e, por isso, têm risco e taxas mais baixas. Além dos financiamentos imobiliários e dos empréstimos do BNDES, entram na conta os créditos consignados, aqueles com prestação descontada diretamente na folha de pagamento. O consignado representou uma revolução no mercado de crédito brasileiro, permitindo o barateamento dos empréstimos pessoais, justamente por causa da segurança de recebimento para os bancos. O crescimento do consignado e do imobiliário explicam, segundo o BC diz no REF, o declínio do spread ano a ano. Essa segunda forma de cálculo se aproxima do spread divulgado pelos grandes bancos em seus balanços, na casa de 13 pontos.
Consultado, o BC explicou, por meio de sua assessoria, que considera corretas as duas formas de cálculo e que cada uma delas tem uma vantagem. O spread divulgado na nota de crédito "leva em conta as taxas de juros que refletem com mais fidedignidade condições de mercado". Já o spread contido no REF é considerado mais "abrangente" pelo BC, ao levar em conta o crédito subsidiado.
Fonte: Valor Econômico
