Brasil revê papel dos anônimos na ditadura
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| Campanha de Doação |
| Quem possui documentos que possam contribuir para o acervo da Comissão de Anistia deve entrar em contato pelo email O endereço de e-mail está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript para vê-lo. ou pelo telefone (61)2025-9402. A campanha é permanente e não tem data para acabar. |
Relatos de manifestações em cidades do interior ou de grupos desconhecidos que sofreram repressão política podem mudar a história da ditadura militar no Brasil como é contada atualmente. Os depoimentos de militantes que não ficaram conhecidos estão sendo coletados pela Campanha de Doação e Arrecadação de Documentos da Comissão de Anistia, parte do Ministério da Justiça. "A sociedade se surpreenderá com inúmeras histórias e fatos não desvelados, em especial, episódios de repressão e resistência efetivadas no interior do Brasil e fora do eixo Rio-São Paulo e que não recebem o mesmo destaque histórico atualmente", afirma o presidente da comissão, Paulo Abrão.
Desde o ano passado, a campanha coleta cartas, documentos pessoais, recortes de jornais da época, fotos de manifestações e depoimentos em áudio e vídeo doados por pessoas que tenham sofrido qualquer tipo de repressão. Até março de 2010, os documentos doados estarão expostos para o público como parte do acervo do Memorial da Anistia, espaço que será inaugurado em Belo Horizonte. A maioria dos relatos recebidos até agora tem relação com o regime militar, mas a campanha está recebendo qualquer material sobre a história recente do país, desde o governo de Getúlio Vargas até a aprovação da constituição de 1988. A Comissão de Anistia não contabilizou ainda quantas foram as doações até agora. Além de doações pessoais, foram recebidos também partes do acervo de documentos dos Estados de Pernambuco e Alagoas.
A força do movimento sindicalista ou as grandes passeatas estudantis em São Paulo são parte da memória que temos da resistência a ditadura militar. Mas, para Abrão, falta lembrar os militantes que organizavam resistências regionais e que "construíram no cotidiano as bases da consciência democrática".
Uma dessas histórias não contadas aconteceu na Universidade Federal de Pernambuco. A sede do Diretório Acadêmico da Faculdade de Educação, que já havia atuado em movimentos contra o regime, foi invadida e incendiada em dezembro de 1968. Dentre os documentos doados à campanha está um relatório da perícia que encontrou no local um cassetete de uso militar, mas diz apenas que o ataque foi feito por "indivíduos desconhecidos" que deixaram o cassetete como "pista para desviar os trabalhos de investigação de rua".
Abrão ainda chama atenção para o fato de que a história contada no Memorial terá o olhar dos perseguidos políticos. "Muitas vezes, a história é contada apenas a partir das versões e documentos oficiais", diz. Entre os relatos recebidos, Abrão destaca cartas em que os reprimidos escrevem à família sobre a dor das prisões e torturas, nas quais a carga emocional acaba sendo a maior marca.
"Esse reconhecimento permite que essas pessoas se reconciliem com seu próprio país, porque em muitos aumentou ao longo do tempo o receio e o rancor", conclui Abrão. "A anistia significa um pedido de perdão aos perseguidos e precisa do olhar deles".
PNUD Brasil

