Câmara aprova o Estatuto da Igualdade Racial
Em sessão histórica finalizada com aplausos e em clima de festa, o Estatuto da Igualdade Racial (PL 6264/2005, do Senado) foi aprovado por unanimidade, nesta quarta-feira (09), pela Comissão Especial da Câmara criada para debater o tema. O projeto prevê medidas como incentivo à contratação de negros, reclusão de até três anos para quem praticar racismo na internet, livre exercício de cultos religiosos de origem africana e estímulo a atividades produtivas da população negra no campo.
A
proposta foi o resultado de mais de seis anos de discussão no
Congresso. “A aprovação foi um grande avanço. Por meio dele, o Estado
fica obrigado a agir em relação às desigualdades existentes no país. É
uma lei que vai unir a sociedade e gerar vários benefícios para
populações historicamente excluídas”, avalia o ministro da Igualdade
Racial, Edson Santos.
O relator da proposta, deputado Antônio Roberto (PV-MG), informou que
os integrantes do colegiado chegaram a um acordo para a votação de seu
substitutivo. Segundo ele, foram feitas algumas modificações na
redação, sem alterar o principal do projeto.
Entre as mudanças, estão a redução de 30% para 10% da proporção de
candidatos negros que os partidos devem ter nas eleições; a retirada da
obrigatoriedade de reserva, nos estabelecimentos públicos, de vagas
para alunos negros vindos de escolas públicas na mesma proporção dessa
etnia na população; e a supressão do inciso que definia quem eram os
remanescentes de quilombos.
Outra modificação foi a retirada da expressão "igualdade" do
dispositivo que trata da contratação de atores negros em produções
artísticas. Mesmo com as alterações, Antônio Roberto frisou: "A
essência continua a mesma: a inserção do negro brasileiro nos níveis de
poder".
A matéria tramita em caráter conclusivo e será enviada ao Senado. Um
dos pontos do acordo entre os parlamentares foi o de que não seria
apresentado nenhum recurso no sentido de que o projeto fosse votado no
Plenário da Câmara. A expectativa é de que a aprovação final da
proposta ocorra até 20 de novembro, Dia da Consciência Negra.
Comemoração
Entre os participantes da sessão, que durou menos de duas horas e foi
comemorada pelos deputados, também estava o senador Paulo Paim (PT/RS),
autor do projeto original do Estatuto. Representantes do movimento
negro também festejaram. “Sem sombra de dúvida foi um grande avanço
para nós, ativistas”, disse a presidente do Conselho de Comunidade
Negra de São Paulo, Elisa Lucas Rodrigues.
Para o coordenador-geral da União de Negros pela Igualdade (Unegro),
Edson França, a decisão “reafirma a vanguarda do Brasil no ordenamento
jurídico para a promoção da igualdade racial”.
Na opinião do representante da entidade Agentes Pastoral dos Negros
(APNs), Nuno Coelho, foi um golaço do ministro, que conseguiu aproximar
o movimento social, o Parlamento e o governo em prol do Estatuto. A
secretária nacional de combate ao racismo do PT, Cida Abreu, considerou
a aprovação o reconhecimento da história de luta do movimento negro
brasileiro.
"As dificuldades enfrentadas pela comunidade negra ainda são muito
latentes. O que se conseguiu foi um acordo para que as elites não
perdessem os dedos, mas deixassem os aneis. Mesmo assim, o negro está
em festa, é uma data histórica”, afirmou Eduardo de Oliveira.
O representante do Coordenação Nacional de Entidades Negras (Conen)
resumiu a aprovação como uma grande vitória da luta negra. "Espero que,
no Senado, tudo ocorra com a mesma tranquilidade", concluiu.
Na opinião do deputado Evandro Milhomen (PCdoB/AP ) "essa luta é o
reconhecimento da participação do negro na história do país. É uma luta
de 121 anos”. Ele ressaltou que, apesar do projeto não corresponder a
todos os anseios da população negra, o estatuto marca um início e "a
partir de agora poderá haver um equilíbrio maior na sociedade".
Com agências
