Cinco milhões de crianças morrem por ano na África
Stephani Nieuwoudt
Cidade do Cabo, 02/06/2008(IPS) - Quando Alice Were, de 4 anos, teve febre, sua mãe, Miriam, a levou à curandeira de Kangemi, um assentamento na periferia de Nairóbi.
Dois dias depois, quando perdeu a consciência, sua mãe desesperada a levou ao hospital. Mas, era tarde e a menina morreu de malaria. Alice está entre as mais de 10 milhões de crianças que morrem todos os anos no mundo antes de completarem 5 anos, segundo um informe do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), divulgado na semana passada por ocasião da Conferência Internacional de Tóquio sobre Desenvolvimento da África.
O estudo "Situação de Meninos e Meninas na África 2008" analisa êxitos e fracassos dos governos africanos em matéria de saúde e sobrevivência da população infantil, que complementa o informe mundial realizado pelo Unicef. Os dados são impressionantes. Apenas 22% dos nascimentos do mundo ocorrem na África, mas metade dos 10 milhões de mortes de crianças no planeta a cada ano ocorrem neste continente. A África é o único continente onde esses menores morrem por doenças que podem ser evitadas e curadas.
A malaria é a causa da morte de 18% dos menores de 5 anos na África, diz o informe. As doenças que causam diarréia e pneumonia, com maior incidência nas comunidades pobres onde a infra-estrutura de saneamento é ruim e as pessoas sofrem desnutrição e estão expostas à contaminação, são responsáveis por mais de 40% das mortes de meninos e meninas, segundo o Unicef. A outra causa importante do elevado número de falecimentos é a Aids (sindrome da deficiência imunológica adquirida).
O progresso foi limitado na região da África subsaariana, disse a diretora-executiva do Unicef. Ann M. Veneman, no lançamento do estudo em Tóquio. A mortalidade infantil caiu 14% entre 1990 e 2006. a leve melhora pode ser atribuída à ampliação de programas de vacinação, ao aumento do uso de redes contra mosquitos e o fornecimento à população infantil de complementos de vitamina A. Outras iniciativas incluem incentivar a amamentação dos bebês por mais de seis meses e fornecer anti-retrovirais às mães para evitar a transmissão do vírus da deficiência imunológica humana (HIV, causador da Aids) aos seus filhos.
Em Ghana, todas as mulheres grávidas recebem complementos de ferro e ácido fólico e um tratamento para evitar a malaria. Todas as crianças entre seis meses e 5 anos recebem vacinas contra doenças infantis como sarampo e poliomielite. No Malawi, o governo ampliou sues programas de vacinação bem como o fornecimento de complementos de minerais como ferro, cobalto, cromo e cobre. As autoridades também constroem poços para facilitar o acesso à água potável das comunidades longe da infra-estrutura existente.
Cinco países da África do norte deram um grande passo na redução da mortalidade infantil, segundo o Unicef. Em Tunis, Argélia, Egito, Líbia e Marrocos os indicadores baixaram em pelo menos 45% entre 1990 e 2006. Essas nações relativamente prósperas estão n o caminho de cumprir o quarto dos oito Objetivos de desenvolvimento das Nações Unidas para o Milênio de reduzir a mortalidade de menores de 5 anos em dois terços. Os outros objetivos são reduzir a mortalidade materna em três quartos; diminuir pela metade a proporção de pessoas que vivem na indigência e sofrem fome, bem como conseguir a educação primária universal e promover a igualdade de gênero. Também combater a expansão do HIV/aids, a malaria e outras doenças; assegurar a sustentabilidade ambiental e gerar uma sociedade global para o desenvolvimento entre o Norte e o Sul até 2015, com relação aos índices de 1990.
Por outro lado, é pouco provável que a África subsaariana consiga algum dos objetivos de saúde até 2015. Toda essa região está atrasado em relação à erradicação da pobreza e das pessoas que sofrem fome, da melhoria da saúde materna e contenção da propagação do HIV. Um em cada seis menores nessa região morrerá antes de completar 5 anos de vida. O Unicef considera uma das regiões do mundo mais difícil para a sobrevivência dos menores. Na África do Sul, 250 mil menores de 15 anos são portadores do HIV, uma grande proporção em relação aos 400 mil que contraíram o vírus nessa faixa etária em todo o continente.
O fornecimento de anti-retrovirais não consegue deter a infecção de 64 mil crianças por ano neste país. As terapias com esses medicamentos reduzem a carga de HIV no organismo, retardando o avanço da doença e prolongando a vida. Na África subsaariana, a morte de menores de 5 anos aumentou 17% entre 1990 e 2006, em sua maioria atribuídas ao HIV/Aids. Na África ocidental e central houve mais pessoas sem acesso à água potável em 2004 do que em 1990. A água contaminada pode causar diarréia, desinteira e outras doenças. Mulheres, meninos e meninas que devem se deslocar para longe em busca de água correm o risco de serem atacados por bandidos. Por exemplo, no Sudão há casos de seqüestro e violações bem documentados.
O Unicef recomenda pacotes de medidas que incluem vacinar a população infantil, atender as mulheres grávidas antes e depois do parto, incentivar a amamentação pelo menos até os seis meses de vida da criança, e construção de mais hospitais. Também é muito importante repensar a gestão dos sistemas de fornecimento de água. Em Gana, um programa de reforma que data da década de 90 teve um grande êxito. A responsabilidade do fornecimento de água foi entregue aos governos locais e às comunidades rurais. Em 2004, 75% tiveram acesso à água potável.
Necessita-se uma intervenção tanto no âmbito nacional quanto internacional, disse à IPS o responsável de imprensa da Unidade de Serviços para a África subsaariana do Unicef, Richard Lee. "Se a intenção é reduzir os números de mortalidade, deve-se fornecer cuidados médicos desde o útero, passando pelo nascimento, pela infância e até a adolescência. Isso requer um grande financiamento", afirmou. "Os governos devem se concentrar em fazer um uso mais efetivo de seus recursos. Mas, é verdade que a maioria das nações africanas não tem meios para implementar diferentes iniciativas. São necessários doadores para ampliar as intervenções", acrescentou Lee. Mas, o túmulo de Alice Were no assentamento queniano de Kangemi é uma testemunha silenciosa de que para milhões de meninas e meninos africanos essas intervenções chegarão tarde. (IPS/Envolverde) (FIN/2008)
Cidade do Cabo, 02/06/2008(IPS) - Quando Alice Were, de 4 anos, teve febre, sua mãe, Miriam, a levou à curandeira de Kangemi, um assentamento na periferia de Nairóbi.
Dois dias depois, quando perdeu a consciência, sua mãe desesperada a levou ao hospital. Mas, era tarde e a menina morreu de malaria. Alice está entre as mais de 10 milhões de crianças que morrem todos os anos no mundo antes de completarem 5 anos, segundo um informe do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), divulgado na semana passada por ocasião da Conferência Internacional de Tóquio sobre Desenvolvimento da África.
O estudo "Situação de Meninos e Meninas na África 2008" analisa êxitos e fracassos dos governos africanos em matéria de saúde e sobrevivência da população infantil, que complementa o informe mundial realizado pelo Unicef. Os dados são impressionantes. Apenas 22% dos nascimentos do mundo ocorrem na África, mas metade dos 10 milhões de mortes de crianças no planeta a cada ano ocorrem neste continente. A África é o único continente onde esses menores morrem por doenças que podem ser evitadas e curadas.
A malaria é a causa da morte de 18% dos menores de 5 anos na África, diz o informe. As doenças que causam diarréia e pneumonia, com maior incidência nas comunidades pobres onde a infra-estrutura de saneamento é ruim e as pessoas sofrem desnutrição e estão expostas à contaminação, são responsáveis por mais de 40% das mortes de meninos e meninas, segundo o Unicef. A outra causa importante do elevado número de falecimentos é a Aids (sindrome da deficiência imunológica adquirida).
O progresso foi limitado na região da África subsaariana, disse a diretora-executiva do Unicef. Ann M. Veneman, no lançamento do estudo em Tóquio. A mortalidade infantil caiu 14% entre 1990 e 2006. a leve melhora pode ser atribuída à ampliação de programas de vacinação, ao aumento do uso de redes contra mosquitos e o fornecimento à população infantil de complementos de vitamina A. Outras iniciativas incluem incentivar a amamentação dos bebês por mais de seis meses e fornecer anti-retrovirais às mães para evitar a transmissão do vírus da deficiência imunológica humana (HIV, causador da Aids) aos seus filhos.
Em Ghana, todas as mulheres grávidas recebem complementos de ferro e ácido fólico e um tratamento para evitar a malaria. Todas as crianças entre seis meses e 5 anos recebem vacinas contra doenças infantis como sarampo e poliomielite. No Malawi, o governo ampliou sues programas de vacinação bem como o fornecimento de complementos de minerais como ferro, cobalto, cromo e cobre. As autoridades também constroem poços para facilitar o acesso à água potável das comunidades longe da infra-estrutura existente.
Cinco países da África do norte deram um grande passo na redução da mortalidade infantil, segundo o Unicef. Em Tunis, Argélia, Egito, Líbia e Marrocos os indicadores baixaram em pelo menos 45% entre 1990 e 2006. Essas nações relativamente prósperas estão n o caminho de cumprir o quarto dos oito Objetivos de desenvolvimento das Nações Unidas para o Milênio de reduzir a mortalidade de menores de 5 anos em dois terços. Os outros objetivos são reduzir a mortalidade materna em três quartos; diminuir pela metade a proporção de pessoas que vivem na indigência e sofrem fome, bem como conseguir a educação primária universal e promover a igualdade de gênero. Também combater a expansão do HIV/aids, a malaria e outras doenças; assegurar a sustentabilidade ambiental e gerar uma sociedade global para o desenvolvimento entre o Norte e o Sul até 2015, com relação aos índices de 1990.
Por outro lado, é pouco provável que a África subsaariana consiga algum dos objetivos de saúde até 2015. Toda essa região está atrasado em relação à erradicação da pobreza e das pessoas que sofrem fome, da melhoria da saúde materna e contenção da propagação do HIV. Um em cada seis menores nessa região morrerá antes de completar 5 anos de vida. O Unicef considera uma das regiões do mundo mais difícil para a sobrevivência dos menores. Na África do Sul, 250 mil menores de 15 anos são portadores do HIV, uma grande proporção em relação aos 400 mil que contraíram o vírus nessa faixa etária em todo o continente.
O fornecimento de anti-retrovirais não consegue deter a infecção de 64 mil crianças por ano neste país. As terapias com esses medicamentos reduzem a carga de HIV no organismo, retardando o avanço da doença e prolongando a vida. Na África subsaariana, a morte de menores de 5 anos aumentou 17% entre 1990 e 2006, em sua maioria atribuídas ao HIV/Aids. Na África ocidental e central houve mais pessoas sem acesso à água potável em 2004 do que em 1990. A água contaminada pode causar diarréia, desinteira e outras doenças. Mulheres, meninos e meninas que devem se deslocar para longe em busca de água correm o risco de serem atacados por bandidos. Por exemplo, no Sudão há casos de seqüestro e violações bem documentados.
O Unicef recomenda pacotes de medidas que incluem vacinar a população infantil, atender as mulheres grávidas antes e depois do parto, incentivar a amamentação pelo menos até os seis meses de vida da criança, e construção de mais hospitais. Também é muito importante repensar a gestão dos sistemas de fornecimento de água. Em Gana, um programa de reforma que data da década de 90 teve um grande êxito. A responsabilidade do fornecimento de água foi entregue aos governos locais e às comunidades rurais. Em 2004, 75% tiveram acesso à água potável.
Necessita-se uma intervenção tanto no âmbito nacional quanto internacional, disse à IPS o responsável de imprensa da Unidade de Serviços para a África subsaariana do Unicef, Richard Lee. "Se a intenção é reduzir os números de mortalidade, deve-se fornecer cuidados médicos desde o útero, passando pelo nascimento, pela infância e até a adolescência. Isso requer um grande financiamento", afirmou. "Os governos devem se concentrar em fazer um uso mais efetivo de seus recursos. Mas, é verdade que a maioria das nações africanas não tem meios para implementar diferentes iniciativas. São necessários doadores para ampliar as intervenções", acrescentou Lee. Mas, o túmulo de Alice Were no assentamento queniano de Kangemi é uma testemunha silenciosa de que para milhões de meninas e meninos africanos essas intervenções chegarão tarde. (IPS/Envolverde) (FIN/2008)
