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Coordenador da GLU fala sobre o papel da pesquisa no mundo do trabalho

Fundada em 2004 pela Organização Internacional do Trabalho (OIT), a Universidade Global do Trabalho (GLU) é uma iniciativa para o estudo de temas trabalhistas globais e para a internacionalização das lutas e experiências em defesa dos direitos da classe trabalhadora. Atualmente, seu programa oferece curso de mestrado para sindicalistas em quatro países (África do Sul, Alemanha, Brasil e Índia) e é organizado no Brasil pela Central Única dos Trabalhadores (CUT), Instituto Observatório Social (IOS), Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) e Fundação Friedrich Ebert (FES). A iniciativa é reconhecida internacionalmente pela qualidade dos estudos realizados e pela colaboração às conquistas no mundo do trabalho nos últimos anos. Em entrevista cedida ao Instituto Observatório Social, o coordenador da GLU e membro do Programa de Atividades para os Trabalhadores da OIT (ACTRAV), Frank Hoffer, fala sobre as conquistas alcançadas através do programa, os desafios da iniciativa e importância da parceria com o Observatório Social nas pesquisas e estudos realizados.

IOS: Como surgiu a Universidade Global do Trabalho?
Frank Hoffer: A Universidade Global do Trabalho surgiu da necessidade do movimento sindical em aumentar o conhecimento sobre globalização e em construir redes globais de sindicatos, utilizando o conhecimento das pesquisas das instituições acadêmicas. Essa parceria entre universidades na Índia, África do Sul, Brasil e Alemanha com centrais sindicais nacionais, com representantes globais dos trabalhadores e com a OIT permitiu o desenvolvimento de um programa de pós-graduação baseado na globalização das estratégias sindicais. Ao mesmo tempo, a iniciativa ajudou a promover pesquisas dentro das centrais em temas como acordos e políticas trabalhistas, jornada de trabalho, impacto da globalização nas políticas trabalhistas, seguridade social, e demais assuntos de interesse dos trabalhadores.

IOS: Como a iniciativa da GLU tem avançado nesses países?
F.H.: Quando avaliamos o retorno da iniciativa, o fazemos em diferentes níveis. O primeiro é que alunos envolvidos com centrais sindicais estão participando do programa. Cada um dos programas possui grandes desafios, porque as centrais sindicais têm experiência de vida, conhecimento, e não sabem exatamente como passar esse conhecimento aos estudantes. Ao longo do programa, desenvolvemos com esses grupos especiais métodos de ensinar, maneiras de trazer esses conhecimentos aos alunos do programa. Ano a ano deixamos esse curso mais próximo da realidade dos trabalhadores. O segundo nível é avaliarmos o que de fato está sendo feito no meio sindical. Posso dizer que 70% das centrais estão fazendo pesquisas relacionadas ao mundo do trabalho, e continuam nessa atividade depois do curso. Isso também reflete em um retorno positivo para as centrais, que acabam recebendo grandes contribuições através desses estudos. Outra avaliação positiva é o envolvimento de outros países, que não esses quatro que fazem parte da GLU. Os alunos vêm de várias partes do mundo. Temos quatro programas, em quatro países, mas os programas não são nacionais, são globais, e isso favorece muito.

IOS: Na sua avaliação, o envolvimento do Observatório Social tem contribuído para o sucesso dos programas da GLU?
F.H.: O Observatório Social possui um importante papel na GLU, porque é um instituto que une os pensamentos acadêmicos e as pesquisas com as políticas adotadas no mundo do trabalho. Estamos tentando fazer do GLU uma iniciativa similar, mas global. O Observatório tem sido a instituição pioneira em pesquisas e no monitoramento de companhias multinacionais quanto aos aspectos trabalhistas. Na nossa opinião, essa é uma contribuição bastante válida para o desenvolvimento do currículo que está sendo ensinado nos programas da GLU.

IOS: De que forma a GLU está se aproximando do movimento sindical e do mundo dos trabalhadores?
F.H.: Nós temos desenvolvido diversos canais para facilitar essa aproximação. Um deles é que as pessoas ligadas ao movimento sindical participam das cadeiras. A segunda é que as instituições de ensino estimulam os alunos nesse intercâmbio, onde eles podem ter experiências mais aprofundadas, podem trabalhar juntos. As centrais têm apoiado às pesquisas realizadas. Também realizamos conferências globais de trabalho, envolvendo pesquisadores e lideranças sindicais em um mesmo debate sobre o mundo trabalhista, que também é tema das pesquisas. Também tentamos estabelecer tópicos específicos, tanto nas pesquisas quanto na agenda trabalhista, com temas como multinacionais e políticas sociais, que permitem o intercâmbio entre os dois.

IOS: Como a crise econômica mundial tem sido trabalhada nos cursos?
F.H.: A última conferência da Universidade Global do Trabalho foi totalmente dedicada à crise mundial e, particularmente, aos pontos que precisamos mudar na macro-economia para responder à crise. Também temos abordado o declínio na economia e como devemos construir uma recuperação onde as pessoas tenham recursos para gastar dinheiro e manter esse processo.

IOS: Quais são os principais desafios que a GLU possui hoje?
F.H.: De um lado, o desafio é assegurar que o programa esteja sempre ligado ao mundo do trabalho, e que essa ligação seja ativa. Temos buscado o comprometimento dos nossos alunos e o envolvimento de instituições como o Observatório Social e a CUT para trazer as necessidades do mundo do trabalho para dentro do mundo acadêmico, para dentro da agenda de pesquisas e para dentro do curso. Esse é um desafio contínuo, porque a universidade tem uma lógica diferente das centrais sindicais. Outro grande desafio é manter o alto nível de experiências. Com o passar dos anos, há a tendência de se cair em uma rotina e de se perder o interesse nas questões estudadas. Para isso, temos como estratégia-chave a escolha de bons alunos, porque eles tomam a frente do programa para entender as centrais, para entender o mundo do trabalho e para mudar o mundo.

Por Paola Bello

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