CTB participa de missão internacional de solidariedade ao povo palestino

Várias
entidades da esquerda brasileira (entre elas a CTB) fazem parte da
delegação, das quais algumas participaram da 1ª Missão, realizada em
2012 e recebida por representantes nacionais, inclusive pelo presidente
da Autoridade Nacional Palestina (ANP) e da Organização para a
Libertação da Palestina (OLP), Mahmoud Abbas.
A organização da
missão é do Comitê pelo Estado da Palestina (CEP), que tem o objetivo de
“prestar solidariedade ao povo palestino, levar representantes da
sociedade civil brasileira para conhecer a realidade da ocupação
sionista das terras palestinas, e trazer informações sobre a Palestina,
repercutindo nos meios de comunicação do Brasil”, de acordo com o
projeto.
Ao total, são 70 entidades nacionais, estaduais e
regionais integrando o CEP, que foi lançado oficialmente em agosto de
2011, em apoio ao esforço palestino para o reconhecimento do seu Estado
pela ONU (apesar de um histórico muito mais longo de solidariedade). O
impulso foi dado por membros do PCdoB, do PT, da Central dos
Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB), do MST, da CUT, da
Federação das Entidades Árabes de SP, do Brasil e das Américas (Fearab),
da Federação das Entidades Árabe-Palestinas do Brasil (Fepal), da Força
Sindical, do Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos e Lutas pela
Paz (Cebrapaz), entre outras, com reuniões frequentes.
Atravessando fronteiras em solidariedade internacional
Ao
atravessar a fronteira Rei Hussein (chamada de Allenby pelos
israelenses) entre a Jordânia e a Palestina (embora controlada por
Israel), a delegação enfrentou dificuldades diariamente noticiadas sobre
a burocracia securitária e militarista israelense e experimentou uma
pequena amostra do efeito que a ocupação tem na vida dos palestinos que
chegam ao território.
Por outro lado, bem recebida por
representantes palestinos já na Cisjordânia, a missão dirigiu-se à sede
do governo do distrito de Jericó, onde foi recebida pelo governador de
Jericó e Al-Aghwar, Majed Al-Fityani, acompanhado de representantes de
outros setores do governo local, integrado à Autoridade Nacional
Palestina (ANP).
O sociólogo e arabista Lejeune Mirhan apresentou
a delegação e a missão de solidariedade, expondo as motivações das
entidades que apoiam a causa palestina, enquanto membros das
organizações e partidos presentes detalharam a missão de cada um deles
em relação à causa palestina. Entres estes, membros da CTB, do Cebrapaz,
do PCdoB, da APP-Sindicato dos Trabalhadores em Educação Pública no
Paraná, da Força Sindical, entre outros.
A ligação direta e a
identificação geral com esta causa por movimentos de resistência e luta,
de emancipação e de esquerda marxista, por exemplo, já foi ressaltada
extensiva e oportunamente, inclusive por autores palestinos como Edward
Said, que traçam um panorama sobre a "questão palestina".
Neste
sentido, as centrais sindicais que representam milhões de trabalhadores
brasileiros, assim como partidos históricos da esquerda e movimentos de
luta pela paz e pela solidariedade internacional, formam a base desta
identificação com a causa palestina para a missão.
Em resposta, o
governador Al-Fityani também deu declarações sobre a situação palestina
e sobre o papel do Brasil, que vem recebendo cada vez maior
reconhecimento por sua política internacional.
“O que nós
queremos é ter uma vida normal, mas não conseguimos. O que desejamos é
poder ter paz, não só para nós, mas também para os nossos vizinhos;
quando a paz for decretada, poderemos viver, cantar e dançar, porque nós
palestinos também gostamos da vida”, disse o governador, em menção ao
carnaval brasileiro.
Al-Fityani falou da importância de visitar a
Palestina para experimentar e reconhecer os efeitos da ocupação
israelense, pois “só mesmo estando aqui para saber”.
Entre os
eventos recentes que rememoram a ocupação sionista estão a comemoração
local dos 65 anos da “proclamação” do Estado de Israel, ou da Nakba, a
Catástrofe palestina (quando em 1948 o Estado israelense foi
estabelecido sobre as casas palestinas destruídas e às custas da
expulsão de milhares de palestinos de suas terras) e o Dia do
Prisioneiro, nesta quarta-feira (17), que relembrou o número de 5.000
palestinos, prisioneiros políticos em cárceres israelenses, com greve de
fome e protestos diante da prisão militar de Ofer, na Cisjordânia.
Protestos contra o muro
O
grupo participou nesta sexta-feira (19) do tradicional protesto de
Bil’in, na Cisjordânia, contra o muro segregador e contra a ocupação
israelense dos territórios palestinos. Os membros das entidades
integrantes do CEP, que organiza a missão, também se encontraram com
autoridades e famílias de prisioneiros políticos palestinos.
Na
manhã desta sexta, a missão dirigiu-se à vila de Bil’in, a menor vila
palestina, próxima de Ramallah, para participar nos protestos realizados
todas as sextas-feiras contra o "muro da vergonha", que corta a
Cisjordânia com cerca 800 quilômetros de concreto, separando famílias
das suas terras de cultivo e dificultando a vida dos palestinos em
trânsito, alegadamente por “motivos de segurança”.
No protesto, a
missão acompanhou o grupo palestino rumo ao muro, onde já estavam
posicionados soldados israelenses e judeus ortodoxos, habitantes da
colônia vizinha, protegida pelo exército israelense, dentro do
território palestino. Os protestantes manifestaram-se contra o governo
sionista de ocupação e contra a usurpação dos recursos palestinos por
Israel.
Em resposta, os soldados israelenses atiraram bombas de
gás lacrimogêneo, bombas de som e gás de pimenta, pelos quais os membros
da missão, que levavam bandeiras palestinas, brasileiras e das
entidades que integram também foram afetados, enquanto parte do
protesto.
Segundo organizadores, esta é a programação habitual
das sextas-feiras, quanto jovens que lançam pedras e exigem dignidade,
em revolta contra o governo militar israelense que os controla, são
covardemente correspondidos pelos soldados com esses recursos.

Também
compareceram ativistas internacionais de várias nacionalidades e
israelenses que apoiam a causa palestina, opondo-se à ocupação e a
opressão do seu governo sobre o território e o povo palestino.
Para
preparar-se para o protesto, a missão encontrou-se com Abdallah Abu
Rahma, coordenador do Comitê de Luta Popular, que organiza os protestos
desde 2005. A construção do muro israelense na Cisjordânia completa já
10 anos, e os comitês de resistência popular, que se organizam em
diversas vilas, embora com uma luta unificada, continuam protestando e
pensando em novas estratégias.
Uma delas, como exposto por Abu
Rahma, é a escolha pelo método de luta e resistência não-violenta, que
vem angariando adeptos em diversos movimentos de resistência popular
pelo mundo. Abu Rahma esteve na liderança da Primeira Intifada
Palestina, iniciada em 1987, e conta que a resistência não-violenta vem
ganhando cada vez mais força desde então.
Apesar disso, ele já
foi preso pelas autoridades israelenses quatro vezes, e chegou a ficar
encarcerado por um ano e meio, através de frágeis testemunhos sobre o
seu envolvimento nos protestos. Muitos desses testemunhos foram
conseguidos pelas forças israelenses com crianças que detiveram por até
dois dias, e como indicado e até exigido pelos interrogadores, o papel
de Abu Rahma na organização dos protestos e no fornecimento de materiais
foi relatado.
O muro segregador unifica os comitês populares
Abu
Rahma explica a tática usada pelo comitê como uma forma abrangente e
bem estruturada de luta, oferecendo cursos de direito internacional e de
resistência não-violenta, por exemplo, e trabalhando com advogados pela
causa contra o muro e contra a ocupação israelense.
Na busca por
uma postura mais ativa, por exemplo, o coordenador exibiu vídeos à
missão sobre a construção instantânea de uma vila, Bab Al-Shams (Porta
do Sol), em um território na Cisjordânia que já estava nos planos da
ocupação sionista. Em três horas, como um vídeo que ficou
internacionalmente conhecido mostra, um grande grupo de palestinos
montou uma vila de tendas, com o apoio de ativistas internacionais.
Segundo Abu Rahma, a atenção midiática trabalhou significativamente a
favor da iniciativa.
Um exemplo da importância da atenção
midiática, segundo ele, foi dado quando estava em cativeiro e recebeu a
notícia de que, devido à atenção que havia ganhado internacionalmente,
atores famosos e a própria secretária de Relações Exteriores da União
Europeia (UE), Christine Ashton, declarou-o defensor dos direitos
humanos. Com isso, representantes da organização acabaram por comparecer
ao julgamento de Abu Rahma, o que resultou numa pressão positiva sobre o
caso.
Ainda assim, em 2007 o muro foi considerado uma construção
ilegal por uma decisão judicial israelense, mas passaram-se quatro anos
até que a sua construção fosse desviada dos planos originais, para
evitar a área. Através desta decisão, contudo, ao invés de perderem 58%
das suas terras com a construção do muro que os separaria delas,
conforme os planos originais, os residentes da região de Bil’in ainda
perderam 25% delas para a ocupação israelense.
“O que fazemos
agora é trabalhar a terra, depois de destruída pelo exército israelense,
que arrancou árvores e destruiu tudo”, disse Abu Rahma, que lembra que
os protestos têm sido bem-sucedidos mesmo que “ os soldados tenham feito
muito para tentar parar os comitês, ‘experimentando’ armas, usando os
nossos corpos”. Ele menciona o uso de novas balas de borracha, novos
tipos de gás de efeito moral, bombas de som, de produtos químicos
altamente nocivos, entre outros.
Além disso, como muitos outros
palestinos, Abu Rahma denuncia o hábito de os soldados israelenses
invadirem as casas palestinas durante a noite, “assustando as nossas
famílias, destruindo coisas, assustando as crianças, que acordam com
soldados usando máscaras pretas dentro de casa”.
Nos protestos,
de acordo com o coordenador, 1.500 pessoas ficaram feridas e duas
pessoas foram mortas: em 2007, Bassem Abu Rahma, que foi atingido no
peito com uma bomba de gás lacrimogêneo e morreu instantaneamente, e
dois anos depois, a sua irmã Jawaher também morreu nos protestos, por
intoxicação.
Entre os protestos de ação não-violenta, para além
da construção de vilas como Bab Al-Shams, os treinamentos em direito
internacional e resistência e a parceria internacional, Abdallah Abu
Rahma também menciona a obstrução de estradas segregadoras, construídas
pelos e para os israelenses que ocupam os territórios palestinos, mas
que não podem ser usadas pelos próprios palestinos.
Famílias em resistência
Em
Nabih Saleh, vila que fica na “Área C” da Cisjordânia, segundo os
Acordos de Oslo da década de 1990 (em que os israelenses têm o controle
militar efetivo), Basim Tamimi, também detido pela ocupação israelense,
recebeu a missão brasileira para contar sobre os protestos realizados na
região.
Neijar Tamimi, Basim Tamimi e Manal Tamimi exibem a
camiseta da 2ª Missão de Solidariedade Internacional ao Povo Palestino,
em encontro em Nabih Saleh, Cisjordânia
Sua casa está na lista
israelense para a demolição, o que pode acontecer a qualquer momento,
apesar de lá viverem várias pessoas de sua família. Mesmo assim, Tamimi
fala da importância de “deslocalizar” a luta, “que é contra a ocupação;
lutamos juntos entre as vilas”.
O ativista também exibiu vídeos
de protestos realizados recentemente, de incursões ilegais e ataques das
forças policiais israelenses contra casas palestinas. A casa de Tamimi
chegou a ser alvo de ofensivas criminosas quando soldados lançaram
bombas de gás para dentro, mesmo quando lá estavam crianças e mulheres.
Manal
Tamimi, esposa de Basim, também comenta um vídeo em que teve de remover
as crianças, junto com outras mães na casa, através das janelas, para
fugir dos efeitos do gás. Além disso, conta do episódio da prisão de um
garoto de 10 anos que foi interrogado e torturado, detido por 72 horas,
para dar informações sobre os líderes ativistas da região.
Manal
mostrou procedimentos da polícia israelense nas prisões violentas que
fazem diante das famílias, traumatizando crianças e humilhando
indivíduos e comunidades. Além disso, também falou dos constantes
avanços tecnológicos usados pelo exército israelense contra os
protestantes, mencionando o uso de produtos químicos e lança-granadas
altamente eficientes, que disparam bombas de gás lacrimogêneo muitas
vezes aleatoriamente.
“Uma vez tentamos contar quantas bombas de
gás tinham sido lançadas, e chegamos a cerca de 1.500 em apenas uma
sexta-feira”, disse Manal.
No mesmo dia, a missão também esteve
na vila Kober, de onde é um dos prisioneiros palestinos mais influentes
da atualidade, Marwan Barghouti, e um membro da Federação
Árabe-Palestina do Brasil, integrante do CEP, Ualid Rabah, cuja família
recebeu a missão com um jantar e uma reunião sobre os prisioneiros
políticos palestinos.
A esposa de Barghouti, Fadwa Barghouti,
também compareceu para falar da campanha que organiza pela libertação de
Marwan, que está detido há já 11 anos. A Campanha pela Libertação de
Marwan Barghouti já é internacional, mas recebeu e declaração de
compromisso das entidades brasileiras integrantes da missão, que
debaterá sobre a criação de uma campanha de peso no Brasil.
Também
presentes estavam os prisioneiros retratados no Guiness, o livro dos
recordes: as pessoas que passaram mais tempo detidas e que ainda estão
vivas, pois cumpriram 34 anos de prisão. Ambos contaram as suas
histórias e o impacto que o encarceramento tem não só na vida dos
presos, mas também de suas famílias e comunidades. Membros da missão
intervieram para declarar solidariedade e apoio à luta palestina pela
liberdade, e para explicar a forte ligação das suas entidades com a
causa palestina.
O compromisso de continuidade das missões de
solidariedade e com as campanhas palestinas pela liberdade dos presos
políticos, contra a ocupação israelense e pela criação de um Estado
palestino independente e soberano foram uma das marcas dos encontros que
o grupo teve nesta sexta-feira.
Por Moara Crivelente, de Ramallah para o Portal CTB
