Diferenças entre brancos e negros diminuem, mas vagarosamente
Os fatores são múltiplos: crescimento econômico continuado, reajuste do salário mínimo com ganho real, ações de distribuição de renda. Uma conjunção de políticas públicas, aliada a um bom momento na economia, fez com que a diferença de renda e escolaridade entre brancos e negros (inclusos os pardos) diminuísse sensivelmente nos últimos sete anos.
Segundo levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a distância da renda atrelada ao trabalho dos brancos e negros diminuiu 3,1% entre 2003 e 2009. Apesar da queda, esta diferença ainda é um abismo: o rendimento médio de um negro (R$ 847,70) atualmente equivale a 50,9% da renda média do branco (R$ 1.663,90). Em 2003, o índice era 47,8%.
A diferença de escolaridade também foi reduzida. Nos últimos sete anos, o tempo de estudo dos negros e pardos cresceu 13,4%, partindo de uma média de 6,7 para 7,3 anos nas salas de aula. Por trás desse incremento está a universalização do ensino fundamental e o avanço do número de alunos no ensino superior.
O coordenador de disseminação de informações do IBGE na Bahia, Joilson Rodrigues, explica que a renda do trabalhador cresceu significativamente entre a população mais pobre, que ocupa a base da economia. E esta é formada majoritariamente por negros, sobretudo em Salvador, onde 83% da população é formada por negros e pardos.
Estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), divulgado em outubro de 2008, revela que, no Brasil, a igualdade de renda por trabalho entre brancos e negros só virá em 2029, mantido o atual ritmo de redução.
De acordo com Mário Theodoro, diretor de Cooperação e Desenvolvimento do Ipea, a conjuntura econômica tem papel importante na redução das diferenças. Mas ressalta que é preciso enfrentar problemas estruturais, como a melhoria na educação de base e a capacitação para o mercado de trabalho. “Se for mantido um ensino de baixa qualidade para a população pobre e um de melhor qualidade para a classe média, sempre vai existir um hiato natural entre os dois”, diz Theodoro.
A professora Nadya Araújo, do Departamento de Sociologia da Universidade de São Paulo (USP), faz coro: “Certamente o crescimento do ensino privado tem sido importante. Mas são diplomas menos valorizados. A escolarização de alto nível é o que faz a diferença no longo prazo”.
Preconceito - Apesar da redução da diferença dos rendimentos dos trabalhadores, ainda não é possível afirmar que o preconceito diminuiu, avalia a professora Nadya Araújo. Ela ressalta que, apesar do salário maior, os negros ainda continuam ocupando funções de menos prestígio.
“Ainda não há uma mobilidade social significativa e sim uma reprodução de uma estrutura de estratificação”, diz a professora. Segundo Nadya Araújo, a melhoria da mobilidade social está fortemente ligada ao incremento do capital escolar.
A professora ainda chama atenção para o fato de que os dados estatísticos avaliam apenas os rendimentos provenientes do trabalho. Portanto, há outros tipos de renda, como os que vêm de bens e investimentos, que não são computados. “O topo da pirâmide social ainda é essencialmente branco”, resume.
Políticas - Na avaliação de Mário Teodoro, do Ipea, as políticas afirmativas ainda têm um efeito limitado do ponto de vista macroeconômico e se restringem a ambientes específicos, como as universidades. “São políticas que, num curto prazo, têm mais efeito de visibilidade, que demonstram que os negros podem estar em uma situação diferente”.
Segundo Theodoro, as diferenças de renda entre negros e brancos ainda têm uma grande ligação com o racismo enraizado na sociedade. E cita um estudo do professor Sergei Soares: “Cerca de 40% da diferença de renda é explicada pelo preconceito”.
