Em Salvador (BA), assassinatos evidenciam violência contra moradores de rua
Próximo aos corpos dos quatro homens não foram encontradas drogas ou armas. A pouca informação que se tem sobre os moradores de rua é que juntavam lixo para sobreviver. Com medo, os moradores do bairro não querem se pronunciar. Assim, mais um episódio envolvendo a população de rua corre o sério risco de ficar sem solução e cair no esquecimento.
Em memória aos cinco moradores de rua assassinados apenas neste ano, foi realizada, no sábado, dia 20, uma celebração no local da chacina. Na ocasião estiveram presentes cerca de 500 pessoas, entre eles moradores de rua, moradores do Cabula VI, deputados, vereadores e pessoas engajadas na luta pela transformação da vida dessa parcela da população. A celebração foi organizada pelo povo da rua."Após a celebração uma senhora me disse que nunca tinha ouvido falar dos moradores de rua como foi colocado na ocasião. Acredito que após participar da celebração muitas pessoas poderão ver os moradores de rua como homens e mulheres capazes de encontrar uma aurora em sua vida. A força do testemunho dos moradores de rua foi mostrada por meio da atuação na celebração", afirmou Frei Henrique Peregrino, membro do Conselho Editorial do jornal Aurora da Rua.
A partir da mudança no modo como as pessoas veem esta parcela da população, Frei Henrique acredita que pode haver um impacto positivo a longo prazo. "Esperamos que a sociedade possa despertar e ter um olhar diferente. Que possam ver o morador de rua como um ser humano cheio de potencial e que tem a possibilidade de viver em plenitude. Nós temos o dever de permitir que estas pessoas vivam tendo todos os seus direitos respeitados", almeja.
Em 2008, a Pesquisa Nacional sobre a População em Situação de Rua, realizada durante o ano de 2007 pelo Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS) mostrou um pouco da realidade da população da rua do Brasil. A pesquisa mostrou que, de cada cem pessoas em situação de rua, 71 trabalham e 52 têm pelo menos um parente na cidade onde vivem. O trabalho mais frequente é a coleta de recicláveis, seguida pela atuação como "flanelinha", carregador, atuação na construção civil e no setor de limpeza.
Para Frei Henrique, pela quantidade de moradores de ruas, de 50 a 60 mil pessoas em todo o Brasil, é difícil e complexo tentar traçar um perfil. "Existem vários fatores que motivam alguém a ir para a rua, não é possível definir uma causa única. Por este motivo, a saída da rua é uma construção a longo prazo, pois se vai reconstruir uma história. É necessário haver uma construção da identidade, reconstrução dos laços familiares, depois vem a entrada no mercado de trabalho e como último passo a aquisição de uma moradia", explica.
Plano Nacional para População de Rua
Dia 23 de dezembro, o presidente Lula assinou um decreto que institui a Política Nacional Para a População de Rua. A iniciativa deverá unir todas as ações do Governo Federal e será coordenada pela Secretaria Especial de Direitos Humanos. Um Comitê Nacional já foi formado e está se reunindo para criar propostas concretas que visem atendem a população de rua. Segundo Frei Henrique, entre as propostas encaminhadas já estão a criação de Centros nacionais e regionais de Direitos Humanos para a população de rua.
"Esperamos que este plano possa realmente mudar a situação das pessoas de rua e que casos como o da chacina em Salvador não possam se repetir e muito menos ser apagado da memória das pessoas", ambiciona Frei Henrique.
Natasha Pitts - Adital
