João Batista Lemos: Precisamos discutir como obter um maior protagonismo
O
secretário adjunto de Relações Internacionais da CTB, João Batista
Lemos, entende que, em sua trajetória de cinco anos, a central cumpriu
um papel fundamental para o sindicalismo brasileiro, ao defender a
unidade de ação sindical. Diante da atual conjuntura, o dirigente afirma
ser necessário discutir de que maneira é possível obter mais
protagonismo e influir diretamente nas mudanças que estão em curso no
país.
Nesta entrevista, Batista conta um pouco do processo que levou a Corrente Sindical Classista a sair da CUT e analisa a atuação internacional da CTB. Confira abaixo:
Portal CTB: Na condição de destacado dirigente da Corrente
Sindical Classista (CSC), qual foi o estopim para a saída da CUT e a
decisão de se fundar uma nova central sindical?
A gota d´água
foi o Congresso da Bahia [realizado em 2006]. O estado era uma regional
da CUT no qual a CSC tinha a direção e os maiores sindicatos. Foi sob
nossa gestão que compramos uma sede própria, graças ao esforço de
metalúrgicos, bancários e outras forças. Tentamos fazer uma aliança com a
Articulação, mas eles acabaram por trabalhar, de todas as formas
possíveis, para nos tirar da CUT-BA.
Era um sinal de que a CUT estava mesmo partidarizada. Nós entendemos que é importante e participação de partidos numa central sindical, mas defendemos também a autonomia. Uma central precisa ser plural, unitária e democrática – e a CUT perdeu essas características.
Sobre o processo de construção de uma nova central, como foi a articulação com diferentes forças sindicais do país?
A CSC era ligada ao PCdoB, mas havia outros setores independentes
dentro dela, como os companheiros marítimos. Tínhamos clareza de que era
possível construir uma central democrática, unitária e plural, por meio
de contatos que tivemos. Fizemos contatos com setores independentes do
campo – o companheiro Hilário Gottselig, por exemplo, foi fundamental na
articulação com as federações de trabalhadores rurais do Sul do país. E
eu fiz diretamente um contato pessoal com o Joílson Cardoso, do PSB. O
Roberto Amaral fez essa intermediação e de pronto marcamos uma reunião
para debater essa questão.
A sensação que eu tinha é a de que dentro da CUT estávamos em um buraco. Conforme a gente foi subindo, constatamos que o céu era maior, que poderíamos pensar em uma visão mais ampla de construção de uma nova central. A partir disso montamos uma comissão para debater qual seria o projeto dessa nova central. Foram feitas reuniões em diversas cidades e aos poucos construímos essa unidade, a partir de um ideal classista e democrático.
Vimos que havia espaço para construir uma nova central sindical. Diziam que estaríamos dividindo, fragmentando o movimento sindical. Diziam que era preciso ter uma central forte como a CUT. Naquele momento, já existiam também a Força Sindical, a UGT e a CGT. Nós percebemos que a unidade não passava apenas por uma central, mas sim por uma plataforma unitária de ação defendida pelas centrais sindicais. Vimos também que a CTB, como nova entidade, teria condições de fazer o papel de unificar o movimento sindical.
Por outro lado, dentro da CUT ainda havia outros fóruns nos quais precisávamos permanecer. Na Federação Única dos Petroleiros (FUP), por exemplo, mantivemos um trabalho. Tentamos isso dentro da Confederação Nacional dos Metalúrgicos, mas lá isso não foi possível, pois todos seus sindicatos precisam ser filiados à CUT. Permanecemos na Confederação Nacional dos Trabalhadores da Educação (CNTE) como segunda maior força, contribuindo para fortalecer sua organização. Mas a maior vitória sem dúvida foi conseguir a desfiliação da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag) da CUT, principalmente por conta de nossa política de defesa da unicidade. A CUT, ao sustentar seu projeto de criar a Federação Nacional da Agricultura Familiar, dividiu os trabalhadores do campo e sua base sindical. Os trabalhadores do campo têm a Contag como sua central – eles são muito mais contaguianos do que cutistas. Conseguimos, assim, manter a Contag unida e fortalecida.
Esses são alguns exemplos de defesa da unidade. Quando não é possível se fazer uma unidade orgânica, buscamos esse caminho por meio de uma plataforma de unidade de ação.
Nesse sentido, a realizado da 2ª Conclat foi o ápice de tal política unitária?
A
Conclat mostrou a vocação da CTB para unificar o movimento sindical. Já
em nosso congresso de fundação, defendemos uma segunda Conferência
Nacional da Classe Trabalhadora, para definirmos os preceitos de um
projeto nacional de desenvolvimento, com soberania e valorização do
trabalho. Nosso papel agora é resgatar e fortalecer essas bandeiras,
pois a direita está tentando desestabilizar todas as conquistas que
obtivemos nos últimos anos.
Na condição de secretário adjunto de Relações Internacionais da
CTB, que balanço você faz da atuação da central na América Latina, em
especial no Encontro Sindical Nossa América (ESNA)?
O ESNA foi
antecedido pelo Encontro das Correntes Classistas, ocorrido no primeiro
Fórum Social Mundial (em 2001). Lá, tivemos contato com diversas
lideranças do movimento sindical da região – inclusive com Nicolas
Maduro, que pode vir a ser o substituto do presidente venezuelano Hugo
Chávez.
Nesse processo das correntes classistas surgiu a ideia de se construir uma central sindical latino-americana. Em seguida, analisamos, junto com outras forças, como a PIT-CNT, do Uruguai, que não era esse o caso, mas sim de construir um espaço de unidade de ação dos trabalhadores, com a bandeira antineoliberal e antiimperialista. A partir disso é que passamos a construir o Encontro Sindical Nossa América (ESNA).
O ESNA é fruto da situação política da América Latina. Ele surge de forma articulada ao avanço do movimento social e política no continente, ocorrido a partir das vitórias de governos progressistas e de esquerda em vários países latino-americanos.
A convocação para o primeiro ESNA acabou ocorrendo logo após o Congresso de fundação de CTB. Não sabíamos exatamente como construir esse espaço, mas a proposta foi tão pertinente, que no primeiro encontro, realizado em Quito (Equador), em 2008, já avançamos em alguns pontos. No ano seguinte, em São Paulo, já tivemos uma participação mais ampla e demos um salto organizativo. O terceiro encontro, na Venezuela, em 2010, com a presença do presidente Chávez, foi muito representativo. No ano seguinte, o a quarta edição ocorreu na Nicarágua e também contamos, no encerramento, com a presença do presidente Daniel Ortega. Já o quinto, em 2012, foi realizado no México. Lá tivemos realmente um encontro de massas, com a presença de cinco mil dirigentes sindicais em seu encerramento. O sexto será em maio de 2014, em Cuba.
Em relação à atuação junto à Federação Sindical Mundial (FSM), a análise é semelhante?
O
ESNA é uma frente de luta da CTB. A outra tem um caráter mais
internacionalista e de classe, no sentido de fortalecer a Federação
Sindical Mundial (FSM). A CTB foi fundada já com a decisão unânime de
nascer filiada à FSM, que passa por um processo de reconstrução. Temos
contribuído para dar à entidade um caráter mais amplo e unitário. Em seu
mais recente congresso, a CTB passou a ocupar uma de suas
vice-presidências, prova de como nossa central vem sendo respeitada em
todo o mundo, especialmente na América Latina.
Quais são suas expectativas para o 3º Congresso da CTB?
Penso que nosso 3º Congresso que terá que enfrentar os problemas do
movimento sindical no Brasil e no exterior. Precisamos discutir como
obter um maior protagonismo no atual processo de mudanças. Ainda não
temos um sindicalismo de massas no país. Nossas mobilizações têm sido
muito difíceis. Entendo que esteja ocorrendo um certo processo de
burocratização nas direções dos sindicatos, que acabam se acomodando com
essa situação. Tenho visto pouca vontade política classista, pouca
mobilização das bases.
A CTB, neste Congresso, tem que fazer uma análise desse cenário a partir de determinadas causas objetivas e subjetivas. Uma causa objetiva: está mudando o perfil da classe trabalhadora, que hoje é composta por mais jovens e mulheres. Os sindicatos não estão acompanhando essas mudanças. Esse é um problema objetivo, pois está mudando a forma de se trabalhar. A classe trabalhadora hoje é mais ampla, mais numerosa, como resultado do processo de desenvolvimento econômico do nosso país.
A questão subjetiva é: como ganhar essa nova classe trabalhadora? Como mobilizar essa nova classe? Devemos retomar bandeiras fundamentais, sem dúvida, mas precisamos nos abrir mais. A educação, por exemplo, deve ser uma bandeira concreta para o movimento sindical. Temas como os 10% do PIB para a educação e dos recursos dos royalties do petróleo devem ser defendidos pelos sindicatos.
Nosso 3º Congresso precisa responder a esses desafios, mas, sobretudo, ganhar protagonismo político no processo de mudanças do nosso país. Temos que buscar a unidade com setores mais avançados do movimento sindical, para reunirmos mais força e fazermos avançar o processo de mudanças que está ocorrendo no Brasil.
Fernando Damasceno – Portal CTB
