Juro cai e bancos buscam manter margem
Diferença
entre o custo de captação do dinheiro e o que é cobrado por empréstimo
na ponta é a maior em mais de 2 anos. O chamado 'spread' inclui o quanto
as instituições lucram, mais impostos, calotes e outras despesas.
Em setembro, mês no qual o impacto do corte nos juros básicos pelo Banco
Central começou a ser notado nas taxas cobradas dos consumidores, a
diferença entre o custo do dinheiro para os bancos e o quanto ele cobram
por empréstimos na ponta foi a maior desde julho de 2009.
O chamado "spread" é composto pela margem de lucro dos bancos, impostos,
inadimplência e despesas administrativas (ou seja, pelo que o banco vai
"adicionando" ao custo que ele mesmo paga na captação de recursos no
mercado para chegar aos juros que cobra dos clientes).
Esse valor, no caso de pessoas físicas, atingiu 35 pontos percentuais no
mês passado (45,7% de juros cobrados do consumidor menos a taxa de
captação paga pelos bancos, de 10,7%), aumento de 0,6 ponto ante agosto.
Como
o BC reduziu os juros nas suas últimas reuniões, deixando o custo do
dinheiro mais baixo para os bancos, em tese poderia se esperar uma queda
no "spread" e uma redução maior do que a que ocorreu nas taxas cobradas
do consumidor. Os juros de pessoas físicas recuaram de 46,2% ao ano, em
agosto, para 45,7% no mês passado, uma redução de apenas 0,5 ponto
percentual.
A taxa de inadimplência, que também poderia determinar um aumento do
"spread", manteve-se inalterada em 6,8% em setembro. "Isso [queda do
'spread'] aconteceria apenas em um mercado perfeito. Na vida real, a
demanda por crédito continua crescendo. Ainda há mais demanda do que
oferta", afirma Alberto Borges Matías, sócio da ABM Consulting.
O crédito total disponível no sistema financeiro, informou o BC,
aumentou 2,1% em setembro, alcançando R$ 1,9 trilhão, ou 48,4% do PIB.
"Esse
aumento deve estar mais relacionado a despesas administrativas, que
somam quase um terço do 'spread'. Houve aumentos de salários e o sistema
financeiro tem aumentado sua base de clientes. Gastos com máquinas,
equipamentos e mão de obra sobem", diz Alex Agostini, economista-chefe
da consultoria Austin Ratings.
Prova disso, argumenta ele, é que no caso de empresas o "spread" se
reduziu de 19 pontos percentuais para 18,9 pontos percentuais. "As
empresas têm outras fontes de financiamento que não os bancos", afirma
Agostini.
Nos oito primeiros dias úteis deste mês, o "spread" aumentou para
pessoas físicas e jurídicas, em 0,1 ponto percentual na comparação com o
mesmo período de setembro, segundo o BC.
Procurada, a Febraban
(Federação Brasileira de Bancos) afirmou que o comportamento do "spread"
tem sido determinado por fatores como as medidas de restrição ao
crédito adotadas pelo BC no início do ano, com alta de impostos, aumento
da inadimplência desde o fim de 2010 e aumento da percepção do risco,
pelos bancos, por conta do agravamento da crise europeia e expectativa
de retração econômica.
Nos últimos 12 meses, o aumento no volume total de crédito foi de 19,6%,
crescimento que suscita dúvidas quanto à projeção do BC para o aumento
nas concessões em 2011, de 17% (ontem, o Banco Central afirmou que a
projeção está mantida).
Fonte: Folha de S.Paulo
