Movimento Social apresenta ao governo sua pauta contra a crise
Mesmo sem a presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que foi a Santa Catarina acompanhar as obras emergenciais contra as enchentes que atingem ao estado, mais de 500 dirigentes de entidades participaram do "Encontro do Movimento Social" realizado pelo governo federal nesta quarta (26), no Palácio do Planalto, para discutir os efeitos da crise financeira na economia brasileira. Com longas palestras, recepcionaram o movimento o ministro Luiz Dulci (Secretaria-Geral da Presidência), Guido Mantega (Fazenda) e Dilma Rousseff (Casa Civil).
Como Luiz Dulci e Guido Mantega prolongaram-se até a noite nas suas exposições, Dilma Roussef agitou o ambiente ao ser taxativa na hora da sua palestra: "Vamos dar a palavra aos representantes do movimento social".
A presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE), Lúcia Stumpf, destacou que em seguida a sua fala a representante do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) iria ler uma carta direcionado ao presidente Lula que representava a unidade do movimento social.
Sob fortes aplausos da platéia, Lúcia Stumpf pediu o afastamento do presidente do Banco Central, Henrique Meirelles como forma de garantir investimento na área social. " Nós precisamos mais de que nunca alterar a política macroeconômica ainda vigente no nosso país de juros altos, superávit primário e controle do fluxo de capitais. Eu diria que é necessário alterarmos a política implantada pelo Banco Central. Isso só será possível com a imediata demissão do presidente do BC, Henrique Meirelles'', afirmou.
"Essa é a manifestação daqueles que vão pressionar pela transformação, porque nós afirmamos aqui nesse encontro que o povo não vai pagar o preço da crise. É preciso investir no futuro do Brasil. É preciso investir na sociedade", discursou Stumpf, que antes reivindicou mais investimentos para a educação, saúde e em políticas para a juventude.
Carta ao presidente
Integrante da coordenação do Movimentos dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), Marina dos Santos, ficou com a responsabilidade de ler a carta que seria entregue ao presidente Lula com a assinatura de 58 entidades. "Queremos aproveitar essa oportunidade para manifestar nossas propostas concretas que o governo federal deve tomar para preservar, sobretudo, os interesses do povo, e não apenas das empresas e do lucro", destaca a carta.
Na política interna de enfrentamento da crise, a carta enumera 15 questões fundamentais, sendo a principal o controle e a redução imediata das taxas de juros. Também defendem que os governos utilizem as riquezas oriundas da exploração dos recursos naturais para investimento em emprego, educação, terra e moradia.
"O governo federal deve revisar a política de manutenção do superávit primário, que é uma velha desgastada orientação do FMI, um dos responsáveis pela crise econômica internacional. E devemos usar os recursos do superávit primário para fazer volumosos investimentos governamentais na construção de transporte público e de moradias populares para a baixa renda", diz o documento.
Reivindicam grande valorização à reforma urbana e agrária, "incentivando a produção de alimentos pela agricultura familiar e camponesa." Também destacam como necessário investimentos maciços na construção de escolas e contratação de professores para universalizar o acesso à educação.
Propõem ainda o estabelecimento de metas para abertura de novos postos de trabalho, controle dos preços agrícolas para os pequenos produtores e revogação da Lei Kandir como forma de retornar a ter imposto sobre as exportação de matérias primas agrícolas e minerais.
Outros pontos de destaques da carta são a redução da jornada de trabalho, democratização dos meios de comunicação, defesa dos territórios indígenas, auditoria integral da dívida pública, reforma política com ampliação para a participação popular, defesa do meio ambiente e contra a criminalização da pobreza e do movimento social.
Propostas no campo internacional
O documento aponta cinco propostas com articulações internacionais. Como resposta à crise nesse plano, as entidades propõem o fortalecimento da estratégia de integração regional, "que se materializa a partir dos mecanismos como: Mercosul, Unasul e Alba."
Também apoiam medidas como a substituição do dólar nas transações comerciais por moedas locais. Deram como exemplo a decisão do Brasil e Argentina em adotar as moedas dos seus países nas suas transações comerciais. Defenderam a consolidação "o mais rápido possível" do Banco do Sul como um agente que promova o desenvolvimento regional.
Além de auxiliar o crescimento interno da América Latina, movimento quer que o banco atue como um mecanismo de controle de nossas reservas a fim de impossibilitar as especulações. Consideram que os responsáveis pela crise são os países centrais e seus organismos como OMC, Banco Mundial e FMI. Portanto, o movimento defende uma nova ordem internacional que respeite a soberania do povo.
Solicitaram ainda a retirada imediata de todas as forças estrangeiras do Haiti. "Nenhum país da América Latina, deve ter bases e presença militar estrangeira. Propomos, em seu lugar, a constituição de um fundo internacional solidário para a reconstrução econômica e social daquele país."
De Brasília,
Iram Alfaia
Vermelho
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