MPF acusa três delegados de SP de torturar e matar durante regime militar
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O Ministério Público Federal (MPF) ingressou nesta segunda, 30, na Justiça com
um pedido de afastamento, perda de cargos e aposentadorias de três delegados da
Polícia Civil de São Paulo que participaram diretamente de atos de tortura,
abuso sexual, desaparecimentos e homicídios durante o regime militar
(1964–1985). Entre as vítimas apontadas na ação, estão o ministro da Secretaria
de Direitos Humanos da Presidência da República, Paulo Vannuchi, e seu
antecessor na pasta, Nilmário Miranda.
A ação pede a responsabilização pessoal dos delegados do antigo Departamento de Ordem Política e Social (Dops), Aparecido Laertes Calandra, David dos Santos Araújo e Dirceu Gravina. Além disso, o MPF quer que os três sejam condenados a reparar danos morais coletivos e a devolver as indenizações pagas pela União. "Essas providências são indispensáveis para a consecução do objetivo da não repetição: as medidas de justiça transicional são instrumentos de prevenção contra novos regimes autoritários partidários da violação de direitos humanos, especialmente por demonstrar à sociedade que esses atos em hipótese alguma podem ficar impunes, ignorados e omitidos”, diz a ação assinada por seis procuradores federais. O Dops foi o órgão governamental que tinha por objetivo controlar e reprimir os movimentos políticos e sociais contrários ao regime. Calandra e David Araújo já estão aposentados. Gravina, o mais jovem dos acusados, ainda atua como delegado da Polícia Civil, em Presidente Prudente, no interior de São Paulo. De acordo com MPF, Calandra utilizava o codinome de Capitão Ubirajara, Araújo era conhecido como Capitão Lisboa e Gravina utilizava o apelido de JC. A ação é assinada pelos procuradores Eugênia Augusta Gonzaga, Jefferson Aparecido Dias, Marlon Alberto Weichert, Luiz Fernando Costa, Adriana da Silva Fernandes e Sério Gardenghi Suiama. Eles identificaram os três policiais com base em depoimentos de ex-presos políticos e parentes de pessoas mortas pelo regime militar. Elas reconheceram os acusados em imagens de reportagens veiculadas em jornais, revistas e na televisão. A denúncia cita que Calandra teria torturado o secretário especial de Direitos Humanos da Presidência da República, ministro Paulo Vannuchi e seu antecessor, na pasta, Nilmário Miranda. Além dos dois ministros do governo de Luiz Inácio Lula da Silva, Calandra, de acordo com o Ministério Público, participou também da tortura e do desaparecimento de Hiroaki Torigoe; da tortura, morte de Carlos Nicolau Danielli; da tortura do casal César e Maria Amélia Telles, além da montagem da versão fantasiosa de que o jornalista Vladimir Herzog teria cometido suicídio na cadeia. O depoimento de Maria Amélia Telles, uma das peças da ação, indica métodos de tortura física e psicológica que teriam sido aplicados por Calandra e outros agentes a serviço do Doi-Codi, que envolveriam os filhos do casal. Maria Amélia relata que, numa oportunidade, após terem sido barbaramente torturados, ela e o marido foram expostos nus, marcados pelas agressões, aos filhos, então com 5 e 4 anos de idade, trazidos especialmente para o local como forma de pressioná-los.
Também prestou depoimento no
Ministério Público Federal o atual presidente do Conselho Estadual de Defesa da
Pessoa de São Paulo, Ivan Seixas, que foi preso aos 16 anos, junto com o pai,
Joaquim Alencar de Seixas, torturado e morto pela equipe do Doi-Codi. De acordo
com o relato de Ivan Seixas, David Araújo, o “capitão Lisboa”, estava entre os
torturadores. “Era o que mais batia”, disse. Seixas também contou que, como
forma de pressão, os policiais o levaram para uma área deserta e simularam seu
fuzilamento. Depois, foi colocado em uma viatura onde havia a edição da Folha da
Tarde com a manchete sobre a morte de seu pai, mas, ao chegar no Doi-Codi, seu
pai ainda estava vivo. Ele disse ainda que, após a prisão, sua casa foi
saqueada. Uma das irmãs de Seixas afirmou ao MPF que foi abusada sexualmente por
Araújo.
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| Fonte: Agência Brasil |
