Negociações ficam mais complicadas
A aceleração da inflação alterou o ritmo das negociações salariais nos últimos meses. A maioria dos dissídios tem garantido aumento real, mas sindicatos de empregadores e de trabalhadores relatam negociações mais intensas e demoradas. As categorias cujo setor ainda mantêm um ritmo de atividade bastante aquecido - como a construção civil - estão conquistando reajustes mais expressivos. Outras conseguiram melhorar o percentual de correção dos pisos salariais com o argumento de que a renda desses profissionais está sendo mais corroída pela inflação.
Na Bahia, duas categorias conquistaram aumento real bem expressivo: os empregados em empresas de asseio e conservação e os trabalhadores da construção civil de Salvador. A primeira fechou acordo que aumentou em 9,69% os salários, o que representou um ganho real de 3,8%, descontada a inflação dos 12 meses anteriores à data-base (maio) pelo INPC.
Os empregados na construção civil de Salvador e interior negociaram reajuste de 9%, o que representou alta de 3,84% além da inflação acumulada até janeiro, data-base da categoria. Para a construção civil pesada o aumento real foi de 4,64% no piso salarial e de 3,64% para os demais rendimentos.
Também no Rio os trabalhadores da construção civil receberam reajustes nos pisos salariais bem acima da inflação. Os pisos tiveram reajuste de 9% a 9,4% em março, ante reajuste de 6% a 6,4% no mesmo mês de 2007 - aumento real de 3,9%. Nessa categoria, 90% dos empregados recebem pisos.
Ana Georgina Dias, supervisora-técnica do escritório regional do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) na Bahia, diz que a inflação mais alta do que no ano passado obriga os sindicatos a lutar por percentuais de reajuste mais robustos para repor o aumento dos preços e obter um ganho real. Por isso, a negociação tem sido mais demorada e complicada.
"Ainda existe espaço para ganho real de salário, principalmente na construção, setor que está aquecido. No comércio, há maior capacidade para treinar pessoas e a taxa de desemprego é maior", diz Francisco Pessoa, da consultoria LCA. Apesar do forte ganho salarial dos trabalhadores da construção, Pessoa prevê uma corrosão mais rápida da renda neste ano devido à inflação crescente dos alimentos.
No Rio, o salário dos comerciários teve reajuste de 6,2% em maio, percentual que não compensou a inflação medida pelo INPC em 12 meses, de 6,64%. Por isso, a categoria ficou com leve perda real salarial. Em 2007, apesar do reajuste menor, de 4%, houve pequeno ganho real salarial de 0,43 ponto percentual devido à menor inflação.
A tendência dos acordos coletivos em Santa Catarina neste segundo trimestre foi de aumento real, entre 1% e 2%, mantendo a tendência do primeiro trimestre. Mas os reajustes variaram muito: os motoristas de ônibus de Florianópolis ganharam 2,1% de aumento acima da inflação, enquanto para os metalúrgicos de Joinville o ganho real foi inferior a 1%. Os trabalhadores da alimentação de Concórdia, onde fica a matriz da Sadia, vão receber 1,1% de aumento real agora e mais 0,5% a partir de janeiro de 2009, enquanto os mecânicos de Joinville ficaram com 1,5% acima da inflação.
José Álvaro Cardoso, diretor do Dieese-SC, diz que pesou favoravelmente aos trabalhadores na negociação da categoria dos motoristas o fato de ser ano eleitoral e de estarem ameaçando com greve. O prefeito de Florianópolis, Dário Berger (PMDB), é candidato à reeleição, e uma greve perto do pleito poderia estremecer sua imagem.
Cardoso afirma que o recente aumento dos preços dos alimentos foi um argumento forte usado pelos trabalhadores. Em alguns casos os sindicatos conseguiram negociar um diferencial para os trabalhadores que recebem o piso.
Se em 2007, com o INPC acumulado de 3,44% em 12 meses os metalúrgicos gaúchos que têm data-base em maio já suaram para obter um aumento real de 2,47%, neste ano as negociações estão ainda mais duras. O pedido inicial de 12%, incluindo a inflação mais um aumento de 6,2%, já caiu para 9,18% e na falta de perspectivas de acordo com as empresas, a federação e os sindicatos dos trabalhadores no Estado já começam a promover as primeiras paralisações.
Desde o fim de maio já foram realizadas "paradas de advertência" de 30 minutos a uma hora em empresas em Porto Alegre, Canoas e região do Vale dos Sinos, diz o presidente da Federação dos Metalúrgicos, Milton Viário. A partir desta semana também serão promovidas paralisações em duas indústrias por dia em Canoas, além de assembléias de porta de fábrica em Sapiranga, Novo Hamburgo e Caxias do Sul.
Segundo o supervisor-técnico do Dieese-RS, Ricardo Franzoi, a alegação do Sindicato das Indústrias Metalúrgicas, Mecânicas e de Material Elétrico do Estado para segurar os reajustes é a pressão da alta dos preços dos insumos, das matérias-primas e dos juros.
No Paraná, muitos trabalhadores que têm data-base em maio ainda não sabem quanto terão de aumento, porque as conversas ainda continuam. Mas cerca de 8 mil pessoas ligadas ao Sintrapav, da indústria da construção pesada, têm data-base em junho e conseguiram reajuste de 8,3% para salários em geral, com ganho real de 1,6%. Alguns pisos salariais receberam mais: 9,15%.
Epitácio dos Santos, presidente da Federação dos Trabalhadores em Transporte Rodoviário do Paraná, disse que o setor tem obtido aumentos de cerca de 7%, com pouco menos de 1% de ganho real. Em junho, as grandes empresas de transporte de passageiros deram reajustes de 7,5%.
Em Pernambuco, as negociações estão sendo bastante diferenciadas, dependendo do setor. Alguns setores estão conseguindo aumento real, enquanto outros apenas repassam a inflação.
Em Pernambuco, o Sindicato dos Trabalhadores da Indústria de Açúcar e Álcool firmou em maio reajuste de 3,44%, que não conseguiu ultrapassar o INPC. Para Laan Isidoro, presidente do sindicato, "o preço da saca de açúcar caiu muito no mercado e se a gente forçasse muito, as empresas não conseguiriam se manter porque algumas já estão atrasando os salários". Já os professores de escolas particulares de Recife avançaram mais, com um reajuste de 5,5% a partir de abril, ante uma inflação de 3,3% medida pelo INPC.
(Raquel Salgado, Ana Paula Grabois, Vanessa Jurgenfeld, Sergio Bueno, Marli Lima e Carolina Mandl - Valor Econômico)
Na Bahia, duas categorias conquistaram aumento real bem expressivo: os empregados em empresas de asseio e conservação e os trabalhadores da construção civil de Salvador. A primeira fechou acordo que aumentou em 9,69% os salários, o que representou um ganho real de 3,8%, descontada a inflação dos 12 meses anteriores à data-base (maio) pelo INPC.
Os empregados na construção civil de Salvador e interior negociaram reajuste de 9%, o que representou alta de 3,84% além da inflação acumulada até janeiro, data-base da categoria. Para a construção civil pesada o aumento real foi de 4,64% no piso salarial e de 3,64% para os demais rendimentos.
Também no Rio os trabalhadores da construção civil receberam reajustes nos pisos salariais bem acima da inflação. Os pisos tiveram reajuste de 9% a 9,4% em março, ante reajuste de 6% a 6,4% no mesmo mês de 2007 - aumento real de 3,9%. Nessa categoria, 90% dos empregados recebem pisos.
Ana Georgina Dias, supervisora-técnica do escritório regional do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) na Bahia, diz que a inflação mais alta do que no ano passado obriga os sindicatos a lutar por percentuais de reajuste mais robustos para repor o aumento dos preços e obter um ganho real. Por isso, a negociação tem sido mais demorada e complicada.
"Ainda existe espaço para ganho real de salário, principalmente na construção, setor que está aquecido. No comércio, há maior capacidade para treinar pessoas e a taxa de desemprego é maior", diz Francisco Pessoa, da consultoria LCA. Apesar do forte ganho salarial dos trabalhadores da construção, Pessoa prevê uma corrosão mais rápida da renda neste ano devido à inflação crescente dos alimentos.
No Rio, o salário dos comerciários teve reajuste de 6,2% em maio, percentual que não compensou a inflação medida pelo INPC em 12 meses, de 6,64%. Por isso, a categoria ficou com leve perda real salarial. Em 2007, apesar do reajuste menor, de 4%, houve pequeno ganho real salarial de 0,43 ponto percentual devido à menor inflação.
A tendência dos acordos coletivos em Santa Catarina neste segundo trimestre foi de aumento real, entre 1% e 2%, mantendo a tendência do primeiro trimestre. Mas os reajustes variaram muito: os motoristas de ônibus de Florianópolis ganharam 2,1% de aumento acima da inflação, enquanto para os metalúrgicos de Joinville o ganho real foi inferior a 1%. Os trabalhadores da alimentação de Concórdia, onde fica a matriz da Sadia, vão receber 1,1% de aumento real agora e mais 0,5% a partir de janeiro de 2009, enquanto os mecânicos de Joinville ficaram com 1,5% acima da inflação.
José Álvaro Cardoso, diretor do Dieese-SC, diz que pesou favoravelmente aos trabalhadores na negociação da categoria dos motoristas o fato de ser ano eleitoral e de estarem ameaçando com greve. O prefeito de Florianópolis, Dário Berger (PMDB), é candidato à reeleição, e uma greve perto do pleito poderia estremecer sua imagem.
Cardoso afirma que o recente aumento dos preços dos alimentos foi um argumento forte usado pelos trabalhadores. Em alguns casos os sindicatos conseguiram negociar um diferencial para os trabalhadores que recebem o piso.
Se em 2007, com o INPC acumulado de 3,44% em 12 meses os metalúrgicos gaúchos que têm data-base em maio já suaram para obter um aumento real de 2,47%, neste ano as negociações estão ainda mais duras. O pedido inicial de 12%, incluindo a inflação mais um aumento de 6,2%, já caiu para 9,18% e na falta de perspectivas de acordo com as empresas, a federação e os sindicatos dos trabalhadores no Estado já começam a promover as primeiras paralisações.
Desde o fim de maio já foram realizadas "paradas de advertência" de 30 minutos a uma hora em empresas em Porto Alegre, Canoas e região do Vale dos Sinos, diz o presidente da Federação dos Metalúrgicos, Milton Viário. A partir desta semana também serão promovidas paralisações em duas indústrias por dia em Canoas, além de assembléias de porta de fábrica em Sapiranga, Novo Hamburgo e Caxias do Sul.
Segundo o supervisor-técnico do Dieese-RS, Ricardo Franzoi, a alegação do Sindicato das Indústrias Metalúrgicas, Mecânicas e de Material Elétrico do Estado para segurar os reajustes é a pressão da alta dos preços dos insumos, das matérias-primas e dos juros.
No Paraná, muitos trabalhadores que têm data-base em maio ainda não sabem quanto terão de aumento, porque as conversas ainda continuam. Mas cerca de 8 mil pessoas ligadas ao Sintrapav, da indústria da construção pesada, têm data-base em junho e conseguiram reajuste de 8,3% para salários em geral, com ganho real de 1,6%. Alguns pisos salariais receberam mais: 9,15%.
Epitácio dos Santos, presidente da Federação dos Trabalhadores em Transporte Rodoviário do Paraná, disse que o setor tem obtido aumentos de cerca de 7%, com pouco menos de 1% de ganho real. Em junho, as grandes empresas de transporte de passageiros deram reajustes de 7,5%.
Em Pernambuco, as negociações estão sendo bastante diferenciadas, dependendo do setor. Alguns setores estão conseguindo aumento real, enquanto outros apenas repassam a inflação.
Em Pernambuco, o Sindicato dos Trabalhadores da Indústria de Açúcar e Álcool firmou em maio reajuste de 3,44%, que não conseguiu ultrapassar o INPC. Para Laan Isidoro, presidente do sindicato, "o preço da saca de açúcar caiu muito no mercado e se a gente forçasse muito, as empresas não conseguiriam se manter porque algumas já estão atrasando os salários". Já os professores de escolas particulares de Recife avançaram mais, com um reajuste de 5,5% a partir de abril, ante uma inflação de 3,3% medida pelo INPC.
(Raquel Salgado, Ana Paula Grabois, Vanessa Jurgenfeld, Sergio Bueno, Marli Lima e Carolina Mandl - Valor Econômico)
