“Negro é protagonista do mercado emergente”, aponta instituto de pesquisa
Nos últimos 15 anos, a população negra economicamente ativa cresceu 58,3% e a renda média do negro subiu 29,3%, de acordo com o instituto Data Popular a partir dos dados do Instituto Brasileiro de Geografia e estatística (IBGE). Para Renato Meirelles, sócio-diretor do instituto, essa melhoria é alimentada pelas políticas distributivas (Bolsa Família e ganho real do salário mínimo) e pela ascensão que os negros apenas começam a experimentar no mercado de trabalho.
“O negro é protagonista do mercado emergente”, avalia comunicado do instituto. Meirelles salienta que a melhor inserção e a maior visibilidade positiva dos negros na mídia (por exemplo, como a atriz negra Thaís Araújo protagonizando a última novela das oito na Rede Globo) tem melhorado a autoestima dos negros. Pesquisa do Data Popular no primeiro semestre deste ano (feita em 54 cidades com 5 mil entrevistados) revela que apenas 2% dos negros queriam ter a pele mais clara (enquanto 11% dos não negros queriam ter a pele mais escura).
O mesmo movimento também
foi percebido pelo IBGE que verificou crescimento de 6% das
autodeclarações como “negros” entre as pesquisas de amostra domiciliar
(Pnad) de 1999 e 2009. Segundo Renato Meirelles, ascensão social e
aumento da autoestima repercutem no comportamento e no consumo, disse
citando o interesse geral pela cultura hip hop e o uso de dread nos
cabelos, inclusive loiros.
Conforme o Data Popular, “essa
população [negra] está em busca de status de consumidora, revelando a
necessidade da criação de linhas e produtos específicos para ela”. O
comunicado do instituto aponta que o consumo se liga à imagem. “Estar
bem-arrumado é importante tanto para as mulheres quanto para os homens
negros, seja para diminuir a discriminação, seja para reforçar a
identidade”.
Para Tatiana Dias da Silva, do Instituto de Pesquisa
Econômica Aplicada (Ipea), as políticas de cotas raciais para ingresso
nas universidades poderão ser um mecanismo importante para melhor
inserção do negro no mercado de trabalho e aumento de sua renda. Além
dos efeitos na autoestima da população, ter mais negros cursando o nível
superior também poderá mudar a composição das elites e a formação dos
quadros de dirigentes do governo.
Para ela, isso terá reflexo,
por exemplo, nas decisões sobre as políticas sociais. “Isso é
fundamental não só para tornar transversal a discussão e mudar a
composição dos quadros. Com a diversidade, começamos a compreender os
problemas de várias perspectivas”. A técnica do Ipea estima que a
ascensão dos negros verificada na Pnad reflete “em parte” as políticas
de cotas raciais nas universidades.
O dado, no entanto, ainda não
foi medido pelo IBGE que não perguntou em questionário de suas
pesquisas se os estudantes negros entrevistados entraram nas
universidades por meio de cota. Para Ana Lúcia Sabóia, chefe da Divisão
de Indicadores do IBGE, é possível que as cotas raciais no ensino
superior possam ter essas repercussões, mas “não deu tempo ainda” para o
diagnóstico, “o período foi curto”, explica. Para Tatiana da Silva,
perguntar sobre as cotas nas futuras Pnads, “pode ser uma possibilidade
interessante”, recomendou.
Fonte: Agência Brasil
