Para movimentos, saída de Marina Silva põe fim à 'trégua ambiental'
Para os movimentos socais, a demissão da ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, explicita um protesto justo contra o governo, mas fortalece o setor conservador ruralista. Eles também analisam que a demissão pôs fim à trégua entre desenvolvimentistas e ambientalistas. Para eles, o novo ministro assumirá com muitos desafios. O presidente do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), Bazileu Margarido, também colocou o cargo à disposição nesta terça.
As tensões entre os defensores ambientais e o governo tendem a recrudescer com a saída da ministra, dizem especialistas. A entrega da gestão do Plano Amazônia Sustentável (PAS) ao ministro de Assuntos Estratégicos, Mangabeira Unger, considerada a 'gota d'água' para a saída de Marina, já é alvo de fortes críticas.
"O governo vai ficar mais exposto, pois poucos brasileiros tem o carisma da Marina. O governo já teria sido muito mais criticado se não fosse pelo patrimônio de credibilidade que a Marina tem", afirma o secretário-geral do Fundo Brasileiro para Biodiversidade (Funbio), Pedro Leitão.
O diretor da campanha de Amazônia do Greenpeace, Paulo Adario, concorda e diz que a ex-ministra leva junto com sua saída a credibilidade que tinha transferido para o governo Lula nos últimos cinco anos.
"Ela vai embora e leva junto essa roupa de credibilidade ambiental, deixando o rei Lula completamente nu", critica Adario.
"Acho que a Marina foi muito leal ao presidente, mesmo sofrendo bastante pressão em confrontos com outros ministérios. O governo sempre tentou buscar uma agenda econômica sem puxar o lado do desenvolvimento sustentável e acho que ela chegou no limite", analisa o vice-presidente para a América do Sul da Conservação Internacional, José Maria Cardoso da Silva.
Por seu histórico na questão ambiental e sua penetração no movimento social, Marina levava ambientalistas de diferentes matizes a serem menos hostis ao governo, comportamento que tende a se desfazer com a sua renúncia.
Mais importante, para os ambientalistas, Marina era o ponto de equilíbrio entre uma visão de desenvolvimento sustentável e uma de desenvolvimento puramente econômico, cuja disputa se inclinaria agora favoravelmente à segunda posição.
Desacordo e lealdade
Segundo Leitão, os ambientalistas não necessariamente estavam de acordo com a agenda de Marina Silva e com a fidelidade dela ao governo Lula.
"Muita gente boa achava que ela já deveria ter saído há muito tempo. Pessoalmente, acho que ela foi correta em tentar levar até o fim uma bandeira de acomodação entre essas agendas (ambientalista e desenvolvimentista)", disse.
Mario Monzoni, coordenador do Centro de Estudos em Sustentabilidade da Fundação Getúlio Vargas (FGV) comenta que não é de hoje que se percebe o caráter "desenvolvimentista a qualquer preço" do governo.
"O governo fica mais autêntico agora, pois estava se escondendo atrás de uma roupagem verde que não tem. Não tem mais o escudo que a Marina imprimia, com todo o reconhecimento por seu trabalho", avalia.
"Se pudesse apostar, diria que o governo vai ser mais atacado. A saída dela vai abrir uma porteira, acho que o período de trégua acabou", acrescentou.
Retrocesso
"Foi ruim para o governo, foi ruim para o Brasil, pois mostra que a questão ambiental ainda não foi totalmente integrada nos planos de desenvolvimento do país", comenta José Maria Cardoso da Silva.
O diretor da campanha de Amazônia do Greenpeace concorda."O pedido de demissão da ministra Marina comprova o descaso do governo Lula com a causa ambiental e também com a proteção da Amazônia", afirma.
Para Cardoso da Silva, a saída de Marina é um passo adiante conquistado pelo setor ruralista mais conservador, que vive de subsídios do governo, não respeita legislações ambientais e que vinha trabalhando duro para conseguir o afastamento da ministra.
"Eles é que estavam mais incomodados com a pressão ambiental, fiscalização mais firme e com a presença da Marina", diz.
Cardoso comenta que o setor é arcaico e não percebe oportunidades de negócios com a questão das mudanças climáticas. "Eles não conseguem inovar e a única coisa que conhecem bem é viver de apoio do governo", ressalta.
Preocupação com Unger
José Maria Cardoso da Silva também acha que o maior prejuízo da saída de Marina é o risco de se perder a estrutura governamental que a ex-ministra montou com pessoal qualificado para gerir a política ambiental no país.
"Até então, o staff era bastante limitado e posições-chave eram ocupadas por consultores. Ela conseguiu abrir concursos no ministério e no Ibama para avançar na construção de estruturas governamentais mais fortes. Isso não aparece muito, mas faz diferença grande para quem esta no dia-a-dia da ação ambiental no Brasil", destacou.
O que assusta mais os ambientalistas é a presença de Mangabeira Unger no cenário de políticas para a Amazônia. Nomeado gestor do PAS, o ministro é considerado neófito e despreparado.
"O que a gente ouve do Unger é assustador. Ele parece desconhecer completamente toda a trajetória de discussões sobre a Amazônia. Representa um risco muito grande", disse Pedro Leitão, do Funbio.
O vice-presidente da Conservação Internacional salienta a injustiça de tirar de Marina um plano desenvolvido por ela junto aos governos estaduais e municipais, ONGs e movimentos sociais. E endossa a preocupação com a entrega da gestão do PAS a Mangabeira Unger.
"Unger é uma pessoa que não conhece a Amazônia, não tem engajamento com movimentos sociais, nem com a comunidade de ciência e tecnologia da região. Ele vai ter que aprender o que é desenvolvimento sustentável na região", afirmou.
Desafios
O presidente do Ibama, Bazileu Margarido, também colocou o cargo à disposição nesta terça. A diretoria do Ibama esteve reunida desde às 17h de terça-feira (13). Além do presidente do órgão, o diretor de Proteção Ambiental, Flávio Montiel da Rocha, também estava presente.
Margarido assumiu como presidente interino do Ibama em maio de 2007 e foi efetivado no cargo em fevereiro deste ano. De janeiro de 2003 a maio de 2007, ele foi chefe de gabinete do Ministério do Meio Ambiente.
O diretor de campanhas do Greenpeace, Marcelo Furtado, disse nesta quarta que o novo ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, terá como "desafio" reconstruir a credibilidade da pasta, já que, na avaliação do ambientalista, Marina Silva levou o "legado da sustentabilidade" com sua saída.
"Com a saída da ministra Marina, ela leva o legado da sustentabilidade. O governo vê na questão ambiental a pedra no sapato, isso tem sido dito em várias ocasiões", afirmou o ambientalista. "O problema que (Minc) vai encontrar é como reconstruir a credibilidade do ministério", completou.
Para Furtado, a chanceler da Alemanha, Angela Merkel, parece ter ficado "meio chocada" com a troca de ministros. A chanceler veio para assinatura de acordos com o governo brasileiro e também discutiu a questão ambiental.
O ambientalista avalia que Carlos Minc é "pessoa muito experiente e batalhadora". "(O problema) será como lidar com o desafio que está posto de que o ministro do Meio Ambiente seja ministro que não atrapalhe o crescimento."
O porta-voz da Presidência da República, Marcelo Baumbach, disse, na tarde desta quarta, que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o novo ministro vão se reunir na próxima segunda-feira (19) pela primeira vez.
Fonte: da redação, com agências
As tensões entre os defensores ambientais e o governo tendem a recrudescer com a saída da ministra, dizem especialistas. A entrega da gestão do Plano Amazônia Sustentável (PAS) ao ministro de Assuntos Estratégicos, Mangabeira Unger, considerada a 'gota d'água' para a saída de Marina, já é alvo de fortes críticas. "O governo vai ficar mais exposto, pois poucos brasileiros tem o carisma da Marina. O governo já teria sido muito mais criticado se não fosse pelo patrimônio de credibilidade que a Marina tem", afirma o secretário-geral do Fundo Brasileiro para Biodiversidade (Funbio), Pedro Leitão.
O diretor da campanha de Amazônia do Greenpeace, Paulo Adario, concorda e diz que a ex-ministra leva junto com sua saída a credibilidade que tinha transferido para o governo Lula nos últimos cinco anos.
"Ela vai embora e leva junto essa roupa de credibilidade ambiental, deixando o rei Lula completamente nu", critica Adario.
"Acho que a Marina foi muito leal ao presidente, mesmo sofrendo bastante pressão em confrontos com outros ministérios. O governo sempre tentou buscar uma agenda econômica sem puxar o lado do desenvolvimento sustentável e acho que ela chegou no limite", analisa o vice-presidente para a América do Sul da Conservação Internacional, José Maria Cardoso da Silva.
Por seu histórico na questão ambiental e sua penetração no movimento social, Marina levava ambientalistas de diferentes matizes a serem menos hostis ao governo, comportamento que tende a se desfazer com a sua renúncia.
Mais importante, para os ambientalistas, Marina era o ponto de equilíbrio entre uma visão de desenvolvimento sustentável e uma de desenvolvimento puramente econômico, cuja disputa se inclinaria agora favoravelmente à segunda posição.
Desacordo e lealdade
Segundo Leitão, os ambientalistas não necessariamente estavam de acordo com a agenda de Marina Silva e com a fidelidade dela ao governo Lula.
"Muita gente boa achava que ela já deveria ter saído há muito tempo. Pessoalmente, acho que ela foi correta em tentar levar até o fim uma bandeira de acomodação entre essas agendas (ambientalista e desenvolvimentista)", disse.
Mario Monzoni, coordenador do Centro de Estudos em Sustentabilidade da Fundação Getúlio Vargas (FGV) comenta que não é de hoje que se percebe o caráter "desenvolvimentista a qualquer preço" do governo.
"O governo fica mais autêntico agora, pois estava se escondendo atrás de uma roupagem verde que não tem. Não tem mais o escudo que a Marina imprimia, com todo o reconhecimento por seu trabalho", avalia.
"Se pudesse apostar, diria que o governo vai ser mais atacado. A saída dela vai abrir uma porteira, acho que o período de trégua acabou", acrescentou.
Retrocesso
"Foi ruim para o governo, foi ruim para o Brasil, pois mostra que a questão ambiental ainda não foi totalmente integrada nos planos de desenvolvimento do país", comenta José Maria Cardoso da Silva.
O diretor da campanha de Amazônia do Greenpeace concorda."O pedido de demissão da ministra Marina comprova o descaso do governo Lula com a causa ambiental e também com a proteção da Amazônia", afirma.
Para Cardoso da Silva, a saída de Marina é um passo adiante conquistado pelo setor ruralista mais conservador, que vive de subsídios do governo, não respeita legislações ambientais e que vinha trabalhando duro para conseguir o afastamento da ministra.
"Eles é que estavam mais incomodados com a pressão ambiental, fiscalização mais firme e com a presença da Marina", diz.
Cardoso comenta que o setor é arcaico e não percebe oportunidades de negócios com a questão das mudanças climáticas. "Eles não conseguem inovar e a única coisa que conhecem bem é viver de apoio do governo", ressalta.
Preocupação com Unger
José Maria Cardoso da Silva também acha que o maior prejuízo da saída de Marina é o risco de se perder a estrutura governamental que a ex-ministra montou com pessoal qualificado para gerir a política ambiental no país.
"Até então, o staff era bastante limitado e posições-chave eram ocupadas por consultores. Ela conseguiu abrir concursos no ministério e no Ibama para avançar na construção de estruturas governamentais mais fortes. Isso não aparece muito, mas faz diferença grande para quem esta no dia-a-dia da ação ambiental no Brasil", destacou.
O que assusta mais os ambientalistas é a presença de Mangabeira Unger no cenário de políticas para a Amazônia. Nomeado gestor do PAS, o ministro é considerado neófito e despreparado.
"O que a gente ouve do Unger é assustador. Ele parece desconhecer completamente toda a trajetória de discussões sobre a Amazônia. Representa um risco muito grande", disse Pedro Leitão, do Funbio.
O vice-presidente da Conservação Internacional salienta a injustiça de tirar de Marina um plano desenvolvido por ela junto aos governos estaduais e municipais, ONGs e movimentos sociais. E endossa a preocupação com a entrega da gestão do PAS a Mangabeira Unger.
"Unger é uma pessoa que não conhece a Amazônia, não tem engajamento com movimentos sociais, nem com a comunidade de ciência e tecnologia da região. Ele vai ter que aprender o que é desenvolvimento sustentável na região", afirmou.
Desafios
O presidente do Ibama, Bazileu Margarido, também colocou o cargo à disposição nesta terça. A diretoria do Ibama esteve reunida desde às 17h de terça-feira (13). Além do presidente do órgão, o diretor de Proteção Ambiental, Flávio Montiel da Rocha, também estava presente.
Margarido assumiu como presidente interino do Ibama em maio de 2007 e foi efetivado no cargo em fevereiro deste ano. De janeiro de 2003 a maio de 2007, ele foi chefe de gabinete do Ministério do Meio Ambiente.
O diretor de campanhas do Greenpeace, Marcelo Furtado, disse nesta quarta que o novo ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, terá como "desafio" reconstruir a credibilidade da pasta, já que, na avaliação do ambientalista, Marina Silva levou o "legado da sustentabilidade" com sua saída.
"Com a saída da ministra Marina, ela leva o legado da sustentabilidade. O governo vê na questão ambiental a pedra no sapato, isso tem sido dito em várias ocasiões", afirmou o ambientalista. "O problema que (Minc) vai encontrar é como reconstruir a credibilidade do ministério", completou.
Para Furtado, a chanceler da Alemanha, Angela Merkel, parece ter ficado "meio chocada" com a troca de ministros. A chanceler veio para assinatura de acordos com o governo brasileiro e também discutiu a questão ambiental.
O ambientalista avalia que Carlos Minc é "pessoa muito experiente e batalhadora". "(O problema) será como lidar com o desafio que está posto de que o ministro do Meio Ambiente seja ministro que não atrapalhe o crescimento."
O porta-voz da Presidência da República, Marcelo Baumbach, disse, na tarde desta quarta, que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o novo ministro vão se reunir na próxima segunda-feira (19) pela primeira vez.
Fonte: da redação, com agências
