Perfil demográfico eleva a poupança no país
Até, 2050, segundo projeções do IBGE, haverá 64 milhões de brasileiros com mais de 60 anos de idade - quase o triplo do total registrado hoje, de cerca de 23 milhões. Com isso, o grupo populacional que mais cresce no país é o de idosos. Entre 1950 e 2050, projeta-se que a população brasileira terá crescido 3,7 vezes. Na faixa acima dos 60 anos, esse aumento será de 10 vezes, e na faixa acima dos 80 anos será de 26 vezes. Para o gerontólogo Alexandre Kalache, presidente do Centro Internacional de Longevidade Brasil e consultor do Bradesco Seguros, a mudança no perfil demográfico é uma revolução silenciosa que pode alavancar a capacidade de poupança do país.
"A partir dos 50 anos de idade, as pessoas tendem a poupar mais, o que gera um alto volume disponível para investimento e excelentes oportunidades de negócios para o setor privado", diz Kalache. "A capacidade de consumo dos brasileiros na faixa acima dos 50 anos hoje já passa de R$ 1 trilhão."
Um dos setores beneficiados por essa janela de oportunidade é o de previdência privada. E o momento de aproveitar essa chance já chegou para as empresas, uma vez que as pessoas que terão mais de 60 anos em 2050 já chegaram à vida adulta. Segundo Celina da Costa Silva, superintendente de Serviços Técnicos da Brasilprev, os clientes são atraídos pela perspectiva de uma segunda fonte de renda ao fim da renda laboral. "Para a classe média, a aposentadoria do INSS não será suficiente", diz.
Celina diz que nem sempre os recursos são usados para renda de aposentadoria. "Muitas vezes, essa poupança de longo prazo é utilizada para financiar um empreendimento ou algum projeto pessoal", diz. "Com maior longevidade, muitas pessoas querem começar uma segunda carreira em vez de ficar paradas depois dos 60."
Osvaldo Nascimento, presidente da Federação Nacional de Previdência Privada e Vida (Fenaprevi), ressalta que a constituição de uma poupança de longo prazo será fundamental para a qualidade de vida, especialmente diante do aumento dos gastos com saúde. "Essa é a principal preocupação dos idosos", diz. "Em média, 85% dos gastos médicos ao longo da vida acontecem depois dos 65 anos de idade. Temos uma conta a pagar e o melhor a fazer é se preparar para ela."
Como o preço dos planos de saúde sobe muito com a idade, é preciso encontrar uma alternativa, e os planos de previdência são adequados para esse fim. "Usar a vantagem tributária proporcionada pela previdência privada e administrar os recursos para cobrir os gastos de saúde na velhice é uma forma inteligente de aproveitar as vantagens dessa ferramenta", diz.
Para Gustavo Lendimuth, superintendente de Produtos de Previdência do Santander, a longevidade tornou as pessoas mais preocupadas com a velhice, e isso ajuda a alavancar as vendas dos planos de previdência. O segmento é considerado chave para a estratégia do banco no país. Hoje, a carteira de previdência do Santander no Brasil conta com 400 mil clientes, e o banco pretende crescer acima da média do mercado nos próximos três anos. "Por se tratar de um produto de longo prazo, ele estimula um relacionamento duradouro com os clientes", justifica.
Lendimuth ressalta, no entanto, que a maior parte dos consumidores ainda não tem uma compreensão mais profunda sobre como funcionam os produtos previdenciários. "Aos poucos, vão percebendo que a acumulação de recursos fica muito mais barata quanto mais cedo você começa", diz. "O ideal seria começar ao nascer."
Quanto aos riscos, Lendimuth observa que, para empresas e clientes de previdência, a maior ameaça pode estar em planos vendidos no passado, com um cenário econômico de juros mais altos e longevidade menor.
Fonte: Valor Econômico
