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Problemas no campo: tesoureiro da CTB cobra governo federal

Embora menos intenso que nas décadas de 1970 e 1980, o chamado êxodo rural ainda é um grave problema no campo brasileiro. A migração para as cidades é sensível e atinge principalmente jovens e mulheres, que não encontram estímulos para permanecer nas áreas rurais e alimentam perspectivas, geralmente falsas, de melhores dias nas metrópoles urbanas, onde a maioria acaba engrossando o exército de desempregados e excluídos.

Estudo recente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) revela que o nível de escolaridade dos jovens nas áreas rurais é 50% inferior ao dos jovens que habitam as cidades. O Ipea constatou também que a população feminina está caindo no campo. Na opinião do presidente da Federação dos Trabalhadores na Agricultura de Minas Gerais (Fetaemg) e tesoureiro da CTB, Vilson Luiz da Silva, falta empenho e vontade política do governo e das elites políticas para solucionar o problema.


Leia a entrevista que ele concedeu ao Portal Uai sobre o tema:


De acordo com o Ipea, a educação no campo está deixando a desejar e o nível de escolaridade dos jovens é 50% menor do que na cidade. Quais as causas disto?
Em primeiro lugar, falta empenho e vontade política para solucionar os problemas do campo. Precisamos de mais e melhores políticas públicas. A qualidade das escolas rurais é péssima; as condições de funcionamento são precárias; falta profissionais (professores) e temos também carência de transporte. É a cidade que deve se adaptar ao campo e não o contrário. O modelo de educação rural e a nucleação do ensino estão erradas e devem ser mudadas.


No modelo atual o aluno tem de se deslocar da roça para a cidade. É preciso levar a escola e o professor para o campo. É preciso adequar ao campo também o conteúdo do ensino, que não deve ser o mesmo da cidade.


O jovem não quer ficar no campo sem perspectiva. É indispensável estudar e formar, mas é também preciso ter clareza sobre o que o trabalhador vai fazer depois de formado. Vai cortar cana, colher café, pegar na enxada? Ou terá outras perspectivas?


A população feminina também está diminuindo no campo?
É verdade. A mulher suporta menos os problemas e, sempre que encontra condições, migra com os filhos em direção às metrópoles urbanas. Conheço comunidades em que de 70 a 80% da população são homens. Tudo isto joga uma sombra de dúvidas sobre o futuro do campo no Brasil. Se os jovens e as mulheres estão abandonando as áreas rurais como será a situação daqui a alguns anos? Teremos um esvaziamento ainda maior?


O quê deve ser feito?
Temos debatido o tema no seio do movimento sindical rural e também mobilizado em torno das nossas bandeiras, como se pode verificar na Marcha das Margaridas e no Grito da Terra. A questão central é a necessidade urgente de mais e melhores políticas públicas para garantir uma educação decente e de qualidade, saúde pública gratuita para todos, habitação, saneamento, energia, infra-estrutura básica.


Ao lado disto, o campo demanda investimentos em atividades que podem agregar mais valor na cadeia de produção rural. Trata-se de priorizar a instalação de agroindústrias no entorno da agricultura familiar, de forma que, por exemplo, em vez de ficarmos limitados à produção e venda da mandioca possamos produzir também os derivados da mandioca, a farinha, o polvilho, etc. Citei apenas um exemplo, mas a idéia central é a de priorizar a maior agregação de valor na cadeia produtiva do campo, deslocar a indústria para a área rural, de forma a reduzir ou eliminar as divergências entre campo e cidade.


É claro que tudo isto tem de ser acompanhado pela provisão de educação, saúde, transporte, habitação, lazer e outros serviços públicos gratuitos. O conteúdo da educação também deve estar associado aos investimentos para agregar mais valor à produção rural. Sabemos que a mudança demanda tempo, não será feita da noite para o dia. O estrago feito no passado é enorme e não será fácil corrigi-lo.


Não existe igualdade de oportunidade na área da educação. Isto também não é um problema grave?
Do ponto de vista da educação é indispensável combater as desigualdades sociais. Verificamos, hoje, que jovens provenientes de famílias mais ricas e melhor posicionadas na sociedade iniciam e concluem o ensino fundamental em escolas privadas de qualidade, relativamente caras e inacessíveis à grande maioria dos brasileiros. Os mais pobres resignam-se a estudar em escolas públicas de péssima qualidade porque não possuem outra alternativa.


Concluído o segundo grau, o filho do rico faz vestibular nas universidades públicas, onde a qualidade do ensino é reconhecidamente alta e a educação gratuita. O filho do pobre, que concluiu o segundo grau em escola pública que não oferece qualidade, geralmente não tem condições de competir no vestibular da universidade pública e, quando chega lá, tem por única opção a escola privada, que cobra uma mensalidade pesada e não oferece qualidade, sendo forçado a trabalhar para poder estudar, o que é um absurdo.


É preciso mudar esta realidade, de forma a reservar vagas para o estudante de baixa renda na universidade pública, o que não se resolve apenas com cotas. O modelo de educação no Brasil não é justo nem está adequado às necessidades do nosso povo.


Fonte: Portal Uai


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