Queda do investimento na indústria é um mal sinal para a economia nacional
O coordenador de indústria do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Silvio Sales, ressaltou que o nível de produção dos veículos automotores, setor que mais se destacou no primeiro trimestre, ainda está 20,2% abaixo do patamar de 2008, a despeito dos ganhos conseguidos depois que o governo decidiu reduzir o IPI para os automóveis. "A recuperação da indústria em março foi insuficiente para que a produção retomasse os níveis médios de 2008", comentou.
Ramo mais afetado
O sinal mais preocupante veio dos investimentos na indústria, traduzidos na produção de bens de capital, que despencou 20,8% no primeiro trimestre deste ano, interrompendo um ciclo de expansão que compreendeu 22 altas trimestrais consecutivas. Foi a redução mais significativa desta categoria --que abrange a produção de máquinas e equipamentos-- desde o primeiro trimestre de 1996, quando foi verificado declínio de 29,7%.
No acumulado dos últimos dois trimestres, desde o agravamento da crise econômica, a produção de bens de capital também foi a mais afetada, com redução de 26,9%. Declínios menos significativos foram observados em relação a bens de consumo duráveis (-24,2%), bens intermediários (-17,6%) e bens de consumo semi e não-duráveis (-5,2%).
"A queda na produção de bens de capital vem se acentuando, porque é um segmento que reflete diretamente a decisão de adiar investimentos em função da crise econômica. No início desse período ruim, era o segmento que menos sentia, só que os efeitos estão chegando depois", afirmou o coordenador da Pesquisa Industrial Mensal do IBGE, Silvio Sales.
Em relação ao quarto trimestre de 2008, a produção de bens de capital caiu 19,3%. O movimento foi bem mais intenso do que os de outras categorias, como o de bens intermediários (-8%) e bens de consumo semi e não-duráveis (-2,1%).
Consumo reage
Os bens de consumo duráveis registraram alta de 0,7% na produção em comparação ao trimestre imediatamente anterior. Essa reação foi puxada pela produção de veículos automotores, que inclui a produção de automóveis e autopeças. Desde dezembro, a produção dessa linha subiu 56,7%. Esse movimento, no entanto, não foi suficiente para recuperar o nível da produção anterior à crise. Em relação ao primeiro trimestre do ano passado, a retração é de 27,2%.
"A produção de veículos automotores vem liderando a reação entre os bens duráveis. Esse resultado é consequência do mercado interno. Isso pode ser resultado de uma conjugação de fatores, como a manutenção da renda e a redução do IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados)", observou Sales, lembrando que os setores mais dependentes do mercado externo continuam em baixa.
Categorias
A comparação do desempenho da indústria com março do ano passado aponta para queda em todas as categorias de uso. Enquanto o setor como um todo recuou 10%, os bens de capital caíram 23%, os bens intermediários recuaram 13,3% e os bens de consumo duráveis retrocederam 13,4%. Apenas os bens de consumo semi e não duráveis (como alimentos), mais ligados ao consumo interno, estiveram positivos, com 2,9% de alta.
Sales destacou que o comportamento trimestral, quando comparado com o primeiro trimestre do ano passado, também dá a dimensão dos efeitos da crise sobre a produção industrial. Entre janeiro e março, a queda do índice foi de 14,7%, o que representou o maior tombo desde os 15,2% do primeiro trimestre de 1991, quando o país ainda vivia os efeitos do Plano Collor.
O desempenho no primeiro trimestre significou o segundo período de três meses com perdas em todas as categorias de uso. Na média da indústria, os seis meses encerrados em março apontaram para uma queda de 16,7% acumulada pela indústria, a mais alta para um período de seis meses desde os 19,8% observados ao fim do segundo trimestre de 1990.
Sales mostrou que o recuo acumulado de 16,7% na produção industrial foi puxado principalmente pelos bens de capital, que cederam 26,9%, e pelos bens de consumo duráveis, que caíram 24,2%. A queda dos investimentos refletidas nesta estatística significa um mal sinal para a economia nacional na medida em que os investimentos, associados ao emprego e à utilização da capacidade ociosa, constituem a principal força motriz do crescimento econômico futuro. A paralisação dos investimentos é prenúncio de estagnação ou baixo crescimento.
De acordo com o IBGE, nos últimos 12 meses, a produção industrial recuou 1,9%.
(Portal CTB, com agências)
