Trabalho decente precisa ter peso equivalente ao de indicadores econômicos
O temário se baseia no Plano Nacional de Emprego e Trabalho Decente, firmado em 2010 e baseado em memorando da Organização Internacional do Trabalho (OIT), que fixa princípios como erradicação do trabalho infantil e do trabalho escravo, criação de mais e melhores empregos e fortalecimento do sistema tripartite (governo, empregadores e trabalhadores). Para a conferência nacional, que reunirá 1.200 delegados e 300 observadores em maio de 2012, em Brasília, esses princípios foram agrupados em quatro eixos: princípios e direitos; proteção social; trabalho e emprego; e fortalecimento tripartite.
Barbosa afirma que o trabalho decente é um conceito que precisa ser considerado por todos os países no momento de se elaborar políticas de governo. “A questão é garantir como esse tema tenha presença nos fóruns internacionais e tenha tratamento equivalente ao que é dado aos indicadores econômicos”, afirma.
As conferências setoriais são realizadas no país desde 1941, com a primeira edição realizada para discutir diretrizes políticas de saúde. Mas foi a partir de 2003 que se intensificou o ritmo de realização desse tipo de evento, com a inclusão de temas variados – de diversidade sexual à comunicação, passando por direitos humanos e meio ambiente, por exemplo.
O objetivo das conferências é definir diretrizes para políticas públicas e consiste em um dos principais instrumentos para movimentos sociais e organizações não governamentais interferirem, junto ao Estado, na condução desses setores. No caso da conferência sobre trabalho decente, questões como combate ao trabalho análogo à escravidão e a garantia de direitos devem ganhar destaque.
Confira os principais trechos:
É de se esperar que os movimentos sociais participem mais
ativamente das conferências estaduais. O senhor observa o mesmo
interesse por parte dos representantes empresarais?
Sim,
inclusive o processo foi construído junto. O Ministério do Trabalho já
coordena um processo tripartite para construção da agenda. Tudo foi
feito inteiramente em conjunto, incluindo as centrais e as confederações
de empregadores. A própria proposta de conferência também. As
conferências realizadas até agora mostra que a bancada dos empregadores
está participando ativamente.
As secretarias (estaduais) têm
protagonismo para conversar com bancadas de empresários e
trabalhadores. Com isso, a gente constata que a realidade do Brasil não é
a de Brasília, São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais. Isso é um
desafio para o próprio processo de conferência. Essa aproximação é muito
benéfica para todas as partes, para discutir temas de interesse comum.
Esse processo está levando a um melhor conhecimento da realidade
nacional. O governo está se relacionando mais com as secretarias de
emprego, está mostrando as forças e debilidade de todo o mundo. Mesmo
para quem tem experiência anterior, essa conferência é uma grande
novidade, tanto do ponto de vista da capacidade do Estado de
planejamento e implementação de políticas públicas como para um maior
conhecimento de sua própria realidade.
Na semana passada, o escritório da OIT no Brasil divulgou um
relatório sobre o trabalho escravo, problema que, apesar dos avanços,
ainda é uma mazela nacional.
É um problema que o Brasil
reconhece há muito tempo e tem políticas ativas, com avanços
reconhecidos nos fóruns internacionais. Ao lado de outros problemas,
como trabalho infantil, miséria extrema, informalidade. As ações do
Estado também têm a oportunidade de ser avaliadas (nas conferências).
Eu costumo dizer que não se trata apenas uma tarefa de governo, tem de
ser vista como um desafio compartilhado. A conferência vai permitir que o
plano possa ser aperfeiçoado. Os próprios estados terão oportunidade de
aproveitar o resultado das conferências para organizar agendas, planos,
para dar mais capacidade de continuar enfrentando esses problemas. Do
ponto de vista imediato, o processo de sensibilização para o problema é
um ganho. Tem um seguimento pós-conferência sobre aplicação prática das
propostas aprovadas, para que na segunda conferência (prevista para 2016)
já possamos ter aprendido muito. Se os próprios autores do mundo do
trabalho não estão suficientemente organizados e mobilizados sobre esse
tema, a sociedade terá tais dificuldade de entender e atuar nos canais
de mobilização. O ex-presidente Lula dizia que o salário mínimo só teria
uma política de valorização efetiva quando deixasse de ser um problema
de quem ganha salário mínimo e fosse abraçado pela sociedade. É preciso
que o carro-chefe do Ministério do Trabalho esteja mobilizado para que
essas pessoas possam se tornar efetivamente atores. Isso também coincide
com o lançamento do Plano Brasil sem Miséria. Os planos dialogam. E não
deve ser apenas uma agenda de governo, mas de Estado.
A conferência pode agilizar a votação da PEC (Proposta de Emenda à Constituição) 438, sobre o trabalho escravo?
Creio
que sim. O processo da conferência está permitindo um diálogo que não
havia antes. A questão da PEC está surgindo em várias conferências
estaduais e isso vai permitir que o Brasil possa avançar. A gente não
pode olhar unicamente para os resultados imediatos.
O mundo assiste a uma série de manifestações, com ocupações em várias regiões, questionando o atual modelo político-econômico...
Existe
hoje uma série de iniciativas e agendas em curso, precipitadas pela
crise econômica de 2008. Há uma clara percepção de que foi criado no
sistema financeiro e atingiu a economia real, empresas, pessoas,
famílias. É preciso buscar uma coerência de políticas, e isso passa por
maior regulação do sistema financeiro. Hoje, o trabalho decente não está
só na OIT, mas na agenda das Nações Unidas. O G20 (grupo dos países mais desenvolvidos)
incluiu a OIT na qualidade de observador. A questão é garantir como o
tema tenha presença nos fóruns internacionais e tenha tratamento
equivalente ao que é dado aos indicadores econômicos. A persistência da
crise nos países desenvolvidos mantém essa agenda muito presente. Essas
ações significam uma percepção maior da sociedade sobre a importância de
regulamentar o sistema financeiro, que deve estar a serviço da produção
e do emprego. Temos muitas lições a serem aprendidas. Não só a OIT (deve ser ouvida), mas também a OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico, que reúne apenas países desenvolvidos). O que se propõe é um exercício de coerência, uma consulta cruzada.
O movimento sindical deve considerar essa realidade?
Cada
setor tem sua agenda, mas é inegável que há uma convergência e todos
esses esforços devem somar em determinada direção. Essas ações não estão
desvinculadas. A ideia é de construção de um modelo em que haja
trabalho e oportunidades para todos. Acontecimentos como esses, de
crise, podem trazer oportunidades.
Com a conferência do trabalho decente, o debate sobre a
redução da jornada de trabalho de 44 para 40 horas semanais volta à
tona?
A jornada de trabalho é um dos itens da conferência e
não resta dúvida que, com todo o avanço tecnológico que o mundo
conseguiu realizar, a jornada de trabalho não chegou a seu patamar
limite. Creio que oportunamente esse processo seguirá se aprofundando.
No Brasil, por exemplo, em 1985, 1986, 1987, houve muitas ações e greves
reivindicando a redução da jornada de trabalho, que se alcançou na
Constituição de 1988 (de 48 para 44 horas semanais). Trata-se de uma
luta permanente, e certamente o Brasil conseguirá avançar nesse
processo.
