A geopolítica do crepúsculo
Fala-se que a política externa de um país é a expressão de sua
política interna, da dinâmica de forças sociais que expressam um projeto de
inserção no cenário mundial. Se for assim, como devem ser vistas as críticas de
setores neoliberais que, em sintonia com a retórica de britânicos e
estadunidenses, classificam-na como desastrosa, “sem uma avaliação adequada de
nossas possibilidades e reais interesses"? A questão é importante, pois revela
que, em uma eventual vitória da oposição na eleição de outubro, o Brasil sofrerá
um processo de continuidade nessa área. Um lamentável retorno a teses e
conceitos de uma geopolítica de vice-reinado.
As declarações de
ex-chanceleres do governo FHC denunciam, com toda a clareza possível, a natureza
e orientação da subalternidade planejada. Seríamos reduzidos a uma máquina de
segurança mercadológica dos produtos exportáveis, relegando a meras cerimônias
aspectos substantivos que, nos últimos oito anos, passaram a refletir um país
democrático e maduro.
A integração regional soberana daria lugar ao
antigo alinhamento com o capitalismo central, recolocando o país no segundo
plano do jogo internacional das nações. As diretrizes e os meios de ação desse
retrocesso são esboçados no discurso de José Serra e na linha editorial das
corporações midiáticas que lhe dão sustentação.
O objetivo é continuar
silenciando inspirações e práticas brilhantes que têm origem no pensamento
altivo de Araujo Castro e San Thiago Dantas, entre outros. O Itamaraty, como
lugar ideal de formulação e execução de políticas soberanas não é compatível com
o ideário mercantil dos velhos sedimentos estamentais.
Convém lembrar a
história do Brasil, em particular, sua independência. A ruptura dos laços com a
metrópole portuguesa, sob o bafejo do capital inglês, não redundou na criação de
um Estado nacional de corte burguês. Antes, permitiu que uma oligarquia
fundiária e escravocrata articulasse um tipo de dominação senhorial que impôs à
emergente sociedade brasileira uma superestrutura política, liquidada apenas no
século XX.
A estratégia das nossas elites, desde então, operou no sentido
de frustrar a democratização social, realizando a exclusão do povo da cena
pública. A construção do Estado Nacional, entre nós, realizou-se
sistematicamente com o controle e a manipulação, pelo alto, da intervenção
popular. Mesmo as mais notáveis inflexões no processo de constituição e
desenvolvimento desse Estado não conseguiram reverter essa tendência. Aliás,
todas as vezes em que a ameaça de reversão se fez sentir, como em 1964, as
classes dominantes não hesitaram em recorrer à violência.
É por tudo isso
que o discurso da direita deve merecer uma atenção especial. Mais do que nunca é
preciso motivar a reflexão e a análise de todos. A integridade e a soberania
nacional só se fundem em um Estado que expresse os interesses da maioria dos
seus cidadãos. Ainda recente e inconclusa, a superação das mais sérias
patologias de nossa formação histórica tem sido pedagógica. Aprendemos, em pouco
tempo, que a independência de um país só pode se fundamentar na legitimidade do
seu regime político e na participação social dos setores organizados.
A
política externa multilateralista do governo Lula, por afirmar interesses
nacionais, amplia áreas de atrito com grandes potências. Por isso mesmo é alvo
da "retórica do medo", por parte dos que advogam o retorno do alinhamento
incondicional com os Estados Unidos, Europa e Japão.
Como os caminhos da
política externa são indissociáveis dos rumos das opções internas, ficam claras
as marcas constitutivas das frações de classe que apóia a candidatura de José
Serra: subalternidade nas relações internacionais e retomada, no âmbito interno,
de políticas excludentes. Nas frestas de velhos pactos coloniais, o retrocesso
sempre se apresenta como crepúsculo e destino.
Gilson Caroni Filho é professor de Sociologia das Faculdades
Integradas Hélio Alonso (Facha), no Rio de Janeiro, colunista da Carta Maior e
colaborador do Jornal do Brasil
