A luta de classes na Argentina
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Por João Batista Lemos
A Argentina vem sendo sacudida nas duas últimas semanas por agudos conflitos políticos e sociais, que, embora noticiados pela mídia capitalista como manifestações populares, estão sendo promovidos pelas forças conservadoras e de direita com o claro propósito de desestabilizar o governo progressista de Cristina Kirchner e abrir caminho para um retrocesso neoliberal.
Lembremos que o neoliberalismo foi imposto ao país vizinho ao longo dos anos 90 do século XX, principalmente pelos governos de Carlos Menem, resultando em desnacionalização, desemprego em massa e, finalmente, na bancarrota de 2001. Externando uma ideologia colonizada e entreguista, Menem gostava de dizer que tinha uma relação carnal com os EUA. Imaginem a posição da Argentina à época, quando chegou ao cúmulo de enviar dois navios ao golfo pérsico em apoio à guerra imperialista deflagrada em 1991 contra o Iraque.
A situação mudou substancialmente com a eleição do peronista Nestor Kirchner (marido de Cristina), que governou o país de 2003 a 2007, peitou o capital financeiro internacional, manteve a moratória decretada em 2001 por Adolfo Rodrigues Sáa e forçou uma renegociação corajosa da dívida externa (cortando 75% do seu valor). A posição do governo em relação ao imperialismo americano mudou da água para o vinho.
A Argentina rejeitou a ALCA proposta por Washington, priorizou o fortalecimento do Mercosul, condenou a guerra de Bush contra o Iraque, iniciada em 2003, e estabeleceu uma sólida aliança com o líder da revolução bolivariana da Venezuela, Hugo Chávez. Com isto, Kirchner abriu caminho a um novo ciclo de desenvolvimento e a Argentina tem crescido mais de 8% ao ano desde sua posse, o desemprego recuou e a vida do povo vem melhorando visivelmente.
Evidentemente, em reconhecimento ao feito memorável, Kirchner caiu nas graças do povo e conseguiu eleger Cristina Kirchner para substituí-lo em outubro do ano passado, garantindo a continuidade de uma política soberana, orientada para a integração solidária da América Latina e, no plano interno, para a valorização da classe trabalhadora e o combate à pobreza e à miséria.
Grande burguesia chilena
Mas, a história não chegou ao fim. A direita neoliberal foi duramente golpeada, porém, conforme se vê nos acontecimentos em curso, não sofreu uma derrota definitiva, mantém o poder econômico e procura acumular forças para empreender uma contra ofensiva. Neste momento, galvaniza a insatisfação dos fazendeiros com o aumento dos impostos sobre a exportação de soja e girassol, promovido para custear despesas sociais.
Os agricultores paralisaram a produção, bloquearam auto-estradas e provocaram desabastecimento nas cidades, onde, conforme registra em editorial o jornal mexicano La Jornada, "seus aliados das classes altas e médias urbanas recorrem a uma prática tristemente célebre no Cone Sul: o cacerolazo". Esta forma de protesto com objetos domésticos (principalmente a caçarola) foi utilizada pela grande burguesia chilena, com apoio dos EUA e a orientação da CIA, para derrubar, em 1973, o governo socialista de Salvador Allende e implantar a ditadura fascista de Pinochet.
O objetivo da direita argentina é animado pelo mesmo espírito fascista e antidemocrático que inspirou os golpistas no Chile e, mais recentemente, na Venezuela, onde um golpe militar encabeçado pelo empresário Pedro Carmona e apoiado abertamente por Washington e pelo FMI, em abril de 2002, felizmente foi logo abortado, não chegando a durar 48 horas. Seria ingenuidade pensar que os EUA são um mero expectador dos acontecimentos em curso na Argentina. Eles têm interesse na desestabilização do atual governo e certamente dão e darão respaldo à direita golpista.
Ponto de vista social
O que se passa na Argentina não é casual e nem está circunscrito ao país irmão. Ao longo deste ano, que apenas começou, temos visto iniciativas para desestabilizar os governos da Bolívia, do Equador e da Venezuela. Também no Brasil a direita vive à espreita de uma oportunidade para retomar as rédeas do governo central, não poupa críticas à política externa progressista do Itamaraty, deseja um realinhamento com os EUA, defende o isolamento de Chávez, Morales e Correa e a completa submissão ao imperialismo.
Não é difícil verificar que, do ponto de vista social, as forças que pretendem impor o retrocesso neoliberal na América Latina são lideradas por grandes capitalistas do campo e da cidade, aliados de forma subalterna ao capital financeiro internacional. Trata-se de uma luta de classes que objetivamente opõe os interesses do capital ao do trabalho, na qual o movimento sindical deve concentrar sua atenção e intervir de modo mais ativo. É indispensável ampliar a mobilização, organização e consciência da classe trabalhadora no Brasil e em outros países da região para derrotar a contra ofensiva da direita neoliberal e caminhar na direção de mudanças mais profundas e radicais.
PS: A respeito deste assunto, sugiro a leitura do editorial do jornal mexicano "La Jornada", do dia 28 de março de 2008, transcrito abaixo.
"Argentina: desestabilização oligárquica
Desde há duas semanas a Argentina encontra-se acossada por uma revolta da direita, que capitalizou o descontentamento dos produtores agrícolas diante do aumento nos impostos às exportações de soja e girassol. Os agricultores bloquearam auto-estradas por todo o país, provocaram desabastecimento nas cidades e, nestas, seus aliados das classes altas e médias urbanas recorrem a uma prática tristemente célebre no Cone Sul: o cacerolazo contra o governo.
Para por as coisas em perspectiva, é importante recordar que o grosso da produção agrícola argentina não está nas mãos de camponeses pobres e sim de empresários agro-exportadores e de médios e pequenos proprietários. Os primeiros são indivíduos ricos que fizeram as suas fortunas por meio da exploração de peões e do pagamento de impostos ridiculamente baixos, ou inclusive por meio da evasão fiscal. Deve-se assinalar, também, que entre este sector e os interesses especuladores das cidades, a chamada "pátria financeira", há uma tradição de vínculos políticos estreitos que constituiu o suporte principal das ditaduras que ensangüentaram e assolaram esse país no passado recente. Um terceiro elementos que se deve levar em consideração é a reiterada e crescente inconformidade desses sectores oligárquicos - financeiros, agrários e políticos - com os governos de Néstor Kirchner e de Cristina Fernández.
Assim, ao ritmo do ruído da caçarola, configura-se uma ofensiva desestabilizadora disfarçada de descontentamento popular, na qual confluem os velhos elementos do golpismo sul-americano e as tentativas de asfixiar as cidades. Não seria estranho ver, no futuro próximo, fenômenos de instabilidade monetária e cambial. O roteiro é muito conhecido: foi aplicado pela primeira vez no Chile contra o governo constitucional de Salvador Allende, foi replicado, com variantes maiores e menores, em diversos países do Cone Sul.
Não se deve omitir o fato de que, em paralelo a esta crise artificial na Argentina, as direitas locais tentaram a desestabilização dos governos progressistas da Bolívia, Equador e, naturalmente, da Venezuela, onde chegaram inclusive à consumação de um golpe de Estado que tinha por objetivo suprimir a presidência - democraticamente eleita - de Hugo Chávez.
Seria ingênuo supor que nesta onda de fenômenos desestabilizadores contra governos que em diferentes graus tomaram distâncias das receitas econômicas neoliberais, e que marcaram com clareza políticas destinadas a recuperar as respectivas soberanias nacionais, esteja ausente o tradicional componente comum do golpismo na América Latina: a ingerência estado-unidense.
Com efeito, ao longo do século passado Washington estimulou invariavelmente os descontentamentos, supostos ou reais - regionalistas, das classes médias e altas, dos âmbitos financeiros e, naturalmente, das transnacionais - contra governos que tentaram reconduzir a economia para a satisfação mínima das necessidades populares ou que pretenderam fazer das suas respectivas independências nacionais algo mais que um formalismo histórico."
*Secretário adjunto de relações internacionais da CTB
