Dilma somos nós, os trabalhadores!
Semana sim, semana também, os sergipanos são meio que provocados com os artigos do professor doutor Rodorval Ramalho, do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal de Sergipe, publicados no semanário Cinform.
Na edição 1425, de 11 a 17 de outubro, o professor Ramalho dirigiu sua pena ou sua metralhadora para a corrida presidencial em curso com o questionamento “Quem é essa mulher?”. O nobiliárquico professor opta por reduzir o debate ao nível do pessoal. Evita adentrar na análise dos projetos a que cada candidato está associado. Não satisfeito com essa escolha, ele concentra suas aleivosias para desqualificar a candidata Dilma Roussef.
Para Rodorval, a candidata Dilma é uma espécie de Jesus Cristo ao contrário. Só é conhecida em sua juventude. Nada se sabe sobre essa mulher, agora na idade adulta. O generoso professor não quer saber da trajetória da ministra Dilma nos últimos sete anos. Ele só se interessa pelo período de militância dela na ditadura. Aliás, como o senhor define o governo dos militares, Rodorval? Ditadura ou ditabranda? Nada. Nenhuma palavra. Não porque não saiba, mas por pura conveniência.
O professor doutor fez uma circunstanciada pesquisa sobre os grupos políticos que a então militante teve atuação no enfrentamento à ditadura. E como bom reacionário e mau professor, qualificou a todos de terroristas. O doutor Rodorval chega a se irritar com a falta de ação do Supremo Tribunal Militar em não abrir os arquivos dos governos de então, que ele não consegue definir. George W. Bush e o pentágono ficariam envergonhados com tamanha capacidade e precisão.
Mas o que Ramalho quer mesmo explorar é o tema do aborto com o viés de certos grupos religiosos. Para quem convenientemente enquadrou de terroristas os grupos políticos que enfrentaram a ditadura e nada enxergou de crimes desse período, o tema do aborto em tempos de eleições cai como um verdadeiro achado dos céus. Para Ramalho, toda discussão a esse respeito, ao contrário de nos levar ao obscurantismo de qualquer tipo, nos esclarecerá de uma prática das mais perversas da história da humanidade. Faltou o professor dizer como se pratica o aborto e quem sofre. Isso ele não disse. Preferiu especular a opinião da candidata.
Não preciso lembrar nada sobre a preferência eleitoral do nobre professor Rodorval Ramalho. Aliás, ele já deixou isso claro em outros artigos publicados neste Cinform. Ele bem que poderia explicitar a posição do candidato tucano sobre tal temática e como enfrentou o assunto quando ministro da saúde durante o governo FHC, conforme a Revista Carta Capital, edição 617 de 18 de outubro. Diz a revista: Em 1998, quando ministro da Saúde, foi ele quem assinou a norma que dava orientações sobre como o centro de saúde deveria proceder no atendimento ao aborto para vítimas de violência sexual, previsto na lei. Tecnicamente, o procedimento foi correto, mas Serra foi alvo de condenação pública pela CNBB, que pediu revogação imediata da norma. Para quem sentiu na pele a pressão da Igreja, é no mínimo manifestação de oportunismo recorrer a tais expedientes. Parece, porém, que a questão ética não incomoda o candidato tucano. O professor Ramalho também não fala na mudança de posição do candidato José Serra. Por que, professor?
Como se vê, o professor Ramalho não está interessado em esclarecer a temática do aborto. O que ele pretende, na verdade, é apenas explorar um tema de maneira eleitoreira e, a partir de sua autoridade intelectual, colocar os trabalhadores na defensiva, transformando um assunto de segunda importância como sendo algo central no debate eleitoral da corrida presidencial. Rodorval não fala dos dois projetos em disputa. Tem vergonha de defender o plano ‘vende pátria’ do consórcio demo-tucano.
Se avexe não, professor Ramalho. A estratégia de vossa senhoria não é nova. Pelo contrário, é velha. A burguesia (será que o senhor ainda admite essa categoria sociológica?) reacionária de ontem se preocupou em toda parte, conforme Lênin, em atiçar a hostilidade religiosa para desviar a atenção das massas das questões econômicas e políticas realmente importantes e fundamentais para os trabalhadores.
Importante e fundamental para os trabalhadores brasileiros, professor Rodorval, é a luta por um projeto nacional de desenvolvimento com valorização do trabalho e distribuição de riqueza. É isso que está em debate nessas eleições. Somos uma nação reconhecida internacionalmente como tolerante em matéria de crenças. Aqui se professam todos os credos. Isso custou caro aos nossos antepassados. O povo e os trabalhadores brasileiros continuarão convivendo em paz e harmonia, mas unidos para derrotar a escravidão econômica, verdadeira fonte de entontecimento religioso.
Jose Souza é presidente do Sindicato dos Bancários do Estado de Sergipe
