Em defesa do MST e da reforma agrária
A grande mídia brasileira fez questão de reproduzir por vários dias as imagens requentadas da ocupação realizada pelo (MST) em terras griladas pelo Sucocítrico Cutrale, em São Paulo, que praticamente monopoliza a produção de sucos de laranja para exportação no Brasil. O que eles não falam é que a ocupação aconteceu duas semanas antes das imagens irem ao ar. Foi o tempo necessário para editar o filme produzido pela PM e apresentá-lo como um ato de vandalismo, que justificaria a criminalização do movimento.
Não há nenhuma prova de que a suposta destruição de máquinas e equipamentos tenha sido obra dos sem-terra, cujos líderes negam tal hipótese e são bem mais dignos de crédito do que a polícia e a mídia capitalista. Tudo indica que houve manipulação de fatos e armação, mas os monopólios da comunicação de massas não parecem muito interessados em descobrir a verdade dos fatos. Querem apenas espinafrar e incriminar o MST.
A verdade precisa ser estabelecida. Parte daquela área pertence à União. A titularidade da propriedade não pertence à empresa Cutrale e a posse, grilada, é contestada pelo Incra na Justiça. Trata-se de uma área chamada Núcleo Monções, com cerca de 30 mil hectares. Desses, 10 mil hectares são terras públicas reconhecidas oficialmente e 15 mil hectares são terras improdutivas.
CPMI devia investigar grilagem
O fato é que o episódio, explorado com sensacionalismo rasteiro pelo programa do ex-PFL (que mudou o nome para DEM, mas permanece como um partido dos latifundiários), serviu de pretexto à instalação de uma CPMI (Comissão Parlamentar Mista de Inquérito, envolvendo as duas casas do Congresso) contra o MST. Qual o objetivo da comissão? Será que é para investigar o suposto desvio de recursos destinados ao MST? Será que eles querem uma investigação séria? Porque não investigar a grilagem de terras públicas? Já é público e notório que a fazenda Santo Henrique foi grilada pela Cutrale, que no entanto anda posando de vítima.
Quem não se lembra do episodio de Eldorado dos Carajás, em 17 de Abril de 1996, onde trabalhadores rurais exigiram a desapropriação de um latifúndio improdutivo e durante o protesto o foram cercados por policiais militares que abriram fogo contra os trabalhadores. 19 trabalhadores rurais foram assassinados e 69 gravemente feridos. O crime em Eldorado dos Carajás está ficando na história como um exemplo vergonhoso de impunidade.
Ofensiva reacionária
Não podemos ter dúvidas quanto aos objetivos destes senhores. O sentido da ofensiva reacionária contra o MST é sufocar e derrotar a luta pela reforma agrária, a CPMI foi instalada para retirar o foco de atenção da sociedade da revisão dos índices de produtividade agrícola reivindicado pelos trabalhadores rurais. A revisão dos índices, com base no censo agropecuário de 1975, vai evidenciar que, apesar de todo o avanço técnico no campo, boa parte das grandes propriedades não é tão produtiva quanto seus proprietários alegam e neste caso as propriedades devem ser disponibilizadas para a reforma agrária, bandeira histórica da classe trabalhadora que continua na ordem do dia em pleno século XXI no Brasil.
Precisamos de um modelo de agricultura socialmente justo e ecológico, com capacidade de assegurar a soberania alimentar baseada na cooperação de pequenos agricultores. Isso só será possível se o movimento sindical estiver forte e organizado.
Na verdade o DEM, PSDB e PPS visam isolar e criminalizar os movimentos sociais, a começar pela CONTAG e o MST. A tentativa é enfraquecer suas bases, quebrar resistências, acabar com a luta pela reforma agrária e assim impor o seu modelo agroexportador predatório, devastador do meio ambiente, como única alternativa possível. Eles só estão demonstrando o seu ódio de classe, e a raiva contra o MST, a CONTAG e a agricultura familiar.
Soberania alimentar
Os dados do IBGE comprovam que a agricultura familiar produz 70% do feijão, 46% do milho, 34% do arroz, 58% do leite e 87% da mandioca em nosso país, ou seja, é quem nos assegura a soberania alimentar. Esses produtos não usam veneno proibido, não agridem o meio ambiente. Vai ficando claro para a população brasileira que os latifundiários não tem maior importância para a produção de alimentação no pais.
Na Marcha da Classe Trabalhadora em Brasília, que as centrais sindicais estão convocando de forma unitária para o dia 11 de novembro, estaremos juntos, trabalhadores do campo e das cidades, levantando a bandeira da reforma agrária, ao lado da redução constitucional da jornada de trabalho para 40 horas semanais sem redução de salário.
Pascoal Carneiro
